terça-feira, 28 de novembro de 2017

Cidade Escola: Talentos do Xadrez

Participantes do 1º Torneio de Xadrez Cidade Escola

Centro Vivencial, quarta-feira, 22 de novembro de 2017. Dezenas de jovens praticantes de um jogo complexo e fascinante participaram do 1º Campeonato de Xadrez do Programa Cidade Escola (foto acima). Quem por ali passou, não sabe que essa turma toda de jovens talentos está fazendo história com o xadrez alfenense.

Você sabia, por exemplo, que Alfenas está prestes a ter sua primeira “mestre enxadrista”, o título mais importante do xadrez brasileiro? E o mais incrível dessa façanha, que ela tem apenas 15 anos de idade? Seu nome é Julia Maria de Paulo Pinto e é uma das participantes da atividade de xadrez do Cidade Escola.


Para entender este feito é preciso voltar no tempo e encontrar respostas para explicar, não apenas o crescimento tão rápido de um jogo considerado difícil para a maioria das pessoas, seja ela criança, jovem ou adulto, como também a conquista de resultados expressivos em campeonatos regionais, estaduais e nacionais.






Ronaldo e jovens talentos do xadrez, 
em evento no Centro  Vivencial
Tudo começou em um ciclo que dura menos de 10 anos, período curtíssimo para revelação de campeões no esporte. E o responsável por essa enorme visibilidade que o xadrez alfenense ganha, agora, é o professor Ronaldo André Lopes, técnico da equipe que representa a cidade em diversas competições.










Ronaldo, bem jovem, e a professora Juliana,
em reportagem do Jornal dos Lagos
Ronaldo é o que no esporte se chama de “talento precoce”. Tem apenas 19 anos e virou professor de xadrez bem cedo. “Comecei em 2008 e meu primeiro contato com o xadrez foi com a Juliana Marques, que, agora, trabalha no Ceme e é a vice coordenadora do local. Ela era professora de Educação Física e organizou uma competição no colégio Arlindo Silveira (‘Xadrez nas Escolas’). Minha primeira competição foi o Joesa (Jogos Escolares de Alfenas). O engraçado foi que, quando comecei, teve uma seletiva para disputar o Joesa, só que eu era muito novo e aí não seria inscrito. Inscreveram os mais ‘velhos’, só que fui me destacando e tiveram de me colocar. Acabei jogando, mesmo sendo ‘pitititinho’”.


O aprendizado sobre o xadrez começou por acaso. “Aprendi a jogar numa brincadeira ocorrida com o meu tio. Ele que nos ensinou, para mim e para meu primo, filho dele, Felipe Silva. Eu e meu primo jogávamos ‘dama’ com ele todos os dias, mas achávamos bonitinhas as peças do xadrez. E um dia meu tio disse que, se um dia ganhássemos dele, na dama, ele nos ensinaria o xadrez. Só que nunca acontecia de a gente ganhar, até que ele decidiu nos ensinar, a mexer as peças. Aprendi os movimentos de cada peça e só isso”.








E foi com esse aprendizado básico, que Ronaldo e Felipe seguiram jogando. “Meu primo jogou até 2012 e depois parou. Eu tinha 10 anos e ele 7. Começamos juntos, mas tive mais interesse de continuar porque nunca me identifiquei com outros esportes, não gostava de futebol, vôlei, não sabia jogar nada, e meu primo já se identificava com esses esportes. Muitos dizem que o xadrez é um jogo entediante, então tem que gostar mesmo. Mas, para mim, esse tédio não existe, porque não se mexe com o aspecto físico, mas muito com o psicológico, concentração”.







Mesmo tão jovem, Ronaldo começou a não só obter resultados expressivos no xadrez, mas, surpreendentemente, virar professor. Isso mesmo, com apenas 11 anos, o pequeno talento alfenense passou a estudar e dar aulas de xadrez no colégio Tancredo Neves. A foto (acima) com uma de suas primeiras alunas, Bruna Gouveia, ambos bem jovens, revela o orgulho que Ronaldo carrega até hoje. “Disputei o Joesa conseguindo bons resultados. E foi aí que comecei a instruir, como professor de xadrez. Foi em 2010, quando tinha 10 para 11 anos. Organizamos um campeonato de xadrez no Tancredo. Em Alfenas, nessa época, o foco maior era na disputa do Joesa, então eu pouco aparecia, por ser muito novinho. Este campeonato teve participação de uns 30 alunos para quem eu dava aulas. E até hoje tenho jovens que foram alunos meu lá que, na época, tinham apenas um ano de diferença de idade para mim. Agora, eles estão atuando no Cidade Escola, como integradores. É uma coisa que arrepia a gente”.







Ronaldo, o primo Felipe e Vinicius Vignoli
E a escalada meteórica do pequeno Ronaldo não parou. Do colégio Tancredo Neves, passou a estudar na escola Samuel Engel. E foi lá que recebeu o convite para participar de uma grande competição estadual e revelar todo seu talento no xadrez. “Em 2012, Vinicius Vignoli, que trabalha na Secretaria de Esporte e é um dos grandes incentivadores do xadrez na cidade, me convidou para participar do Jemg, Jogos Escolares de Minas Gerais, eu e meu primo Felipe Silva. Fizemos uma dobradinha, na etapa microrregional (cidades mais próximas de Alfenas): eu, em primeiro, e meu primo em segundo. Depois, na etapa regional, fiquei em primeiro lugar, campeão sul-mineiro, venci um campeão, de categoria adulta. Apesar de a idade dos competidores serem próximas, esse menino tinha muita experiência”.


Um resultado que surpreendeu até mesmo o experiente professor que o levou à competição. “O Vinicius não acreditava, lembro que, um dia antes, ele me disse: ‘tenta empatar com ele, porque classificam quatro para a etapa estadual. Se você ganhar, será primeiro lugar, mas, se perder, ficará no máximo em quinto lugar’. O risco de eu perder era grande, mas, durante o jogo fui ganhando e o menino não aceitou a minha proposta de empate (porque, no xadrez, pode haver a proposta de empate ao adversário). Na sequência, ele me propôs o empate e aí fui eu quem não aceitei. Acabei vencendo o jogo, classifiquei para a etapa estadual”.






E uma sequência incrível de resultados transformou a vida do pequeno Ronaldo. “No estadual, fiquei em oitavo lugar, disputado em Patos de Minas, um resultado bastante expressivo, porque foram 850 estudantes participando ao longo do ano. Chegar entre os 10 primeiros, na etapa final, é uma grande conquista, sem contar que era minha primeira participação em uma disputa estadual. Em 2013, disputei novamente, e fiquei em terceiro, no sul de Minas. Em 2014, repeti este resultado, e, no estadual, disputado em Uberaba, fiquei em terceiro lugar. Perdi só para o campeão brasileiro, Ezequias Morais”.






E foi neste ano de 2014 que Ronaldo teve a ideia de se transformar em professor e técnico, na escola Samuel Engel. Com o incentivo da diretora da escola e professora de matemática, Elaine Souza, Ronaldo levou o xadrez para as salas de aula e muito mais. “Criei um projeto, juntamente com alguns professores de lá. Começou com uma turma de quase 15 alunos e são eles, até hoje, que disputam os campeonatos atuais. E os resultados com essa turma não demoraram a surgir, porque, além de mim, surge um grupo, uma equipe, que até hoje carregamos este nome: ‘Equipe alfenense de xadrez’. A expressão ‘juvenil’ é porque fomos formados, sempre, por meninos de 15, 16 anos”.

Em 2015, Ronaldo deixa a escola Samuel Engel, mas não seu projeto voluntário com aulas de xadrez, para estudar no colégio particular CRA. Mais do que isso, para continuar a participar de diversas competições de xadrez. “Começo a ser apoiado para participar de campeonatos, porque todo mundo que me vê, pensa que estou ganhando dinheiro com o xadrez, porque estava indo bem em tudo, ganhando quase todos jogos. Mas, digo a eles que é o contrário, só há gastos com tudo, porque cada inscrição feita é dinheiro que se gasta”.


Ronaldo também teve apoio para estudar e conseguir entrar na Unifal, primeiro cursando Ciência da Computação, e, logo a seguir, Matemática, o que realmente sempre adorou estudar. Em todos os anos, Ronaldo seguiu vencendo, pessoalmente, e com sua turma de alunos. “Pelo CRA, fui campeão sub-17 do sul de Minas, e também fiquei, novamente, entre os 10 primeiros de Minas, no estadual. Todos os anos que participei fiquei entre os 10 melhores. A partir de 2015, também comecei a levar meus alunos para o Jemg, como técnico e atleta. Foi aí que começamos a ter os melhores resultados possíveis, medalhas na microrregional, ir para a etapa regional e ficar entre os 10 primeiros, com os meninos mais novos, que já era uma grande conquista.



Em 2016, quando entro para a Unifal, deu uma ‘quebrinha’, porque não conseguia manter tudo, mas continuei a treinar e a levar, novamente, a equipe para o Jemg. Fui com eles, mas não jogando mais, porque já havia encerrado minha fase escolar. Conseguimos vários resultados expressivos, passando, novamente, para a etapa regional. Neste ano de 2017, foi o ápice de todo este trabalho, porque estamos ganhando tudo. Fomos para o Jemg e passamos todos os alunos para a fase regional, uma coisa que jamais esperávamos acontecer”.










Ronaldo e Julia Maria
Entre tantos destaques de sua equipe, Ronaldo não tem dúvida de eleger a jovem que o faz continuar batalhando pelo xadrez de Alfenas. “Nossos destaques são o Guilherme Borges e a Julia Maria, porque eles despontam muito, mas quase todos da equipe estão se destacando nas competições. A Julia é heptacampeã da Copa Garden RBX Sul de Minas. Essa competição é reconhecida pela Liga Brasileira de Xadrez. A Julia tem um título que, eu, por exemplo, não tenho, que é de ‘aspirante a mestre de xadrez’. No Jemg, ela ficou em 10º lugar, mas foi a segunda melhor menina, porque os outros oito colocados eram meninos. Ano que vem, ela deve conseguir alcançar o título de mestre, e passar a ser reconhecida, no Brasil inteiro, como mestre enxadrista. Tem 15 anos e estou com ela desde os 13, a vi crescer, literalmente, porque é ‘gigante’, alta, bem maior do que eu. Ela é minha maior motivação para continuar com o xadrez”.





Ronaldo e sua coleção de medalhas e troféus
Ronaldo continua a jogar xadrez, agora, na categoria adulto, e também segue ensinando seus discípulos, dentro das aulas de xadrez do Cidade Escola. Não apenas técnicas ou regras do jogo. “Às vezes, pego alunos com algum tipo de déficit e porque não usar o xadrez para melhorar esse ou aquele aspecto? E sei que melhora. No Cidade Escola, já percebi comportamentos diferenciados de alguns alunos. Eles chegam com conhecimento zero sobre o xadrez. São crianças muito agitadas, porque tem excesso de atividades no dia a dia. O xadrez deve seduzi-las por conta da beleza estética do jogo, tabuleiro, peças. Muitos acham que é jogo de dama, mas não é, e começam a querer descobrir que jogo é este. Existe uma pequena evasão no início, mas é pequena, porque sei que o xadrez, para crianças, não é jogo tão simples de se jogar. E é um jogo onde tem que se ser muito ético, não há briga, discussão, tem todo um trabalho em dupla, mesmo não sendo colega do adversário, ser respeitoso com ele. No xadrez, quem não sabe, deve haver, obrigatoriamente, um cumprimento de mãos, no início do jogo, desejando boa partida um para o outro. E as peças pretas acionam o relógio para as brancas iniciarem o jogo”.


E a cada aula, Ronaldo acrescenta uma nova relação cultural ou histórica do xadrez aos seus jovens talentos. “O aspecto histórico do jogo é muito interessante. Temos várias ‘lendas’ como a de que o xadrez surgiu na Índia, há milhares de anos atrás, bem antes de Cristo. Na Índia, ele teria sido jogado com outras peças. No lugar do ‘cavalo e bispo’, seriam elefante e macaco. Na visão deles, olhando para os animais, enxergavam os deuses, onde entra a questão do hinduísmo, muito forte neste país. Mas, há também outras teorias, de reinados livres, fora do contexto, que tenham utilizado o xadrez. Outra lenda conta que um imperador pediu a um súdito que criasse um jogo para ele. O súdito disse que criaria, com a condição de que, para cada casa do tabuleiro construído, fosse dado a ele o dobro de milho. Na primeira casinha, ele colocava um milho; na segunda, dois; na terceira, quatro; e assim, sempre dobrando. Isso já é uma ‘progressão’, onde entra a matemática, que é o divertido desta história. E, no final, o súdito ficou muito rico, porque tinha muitos grãos. Xadrez tem todas essas histórias e caminhos interessantes”.


E muitas outras aplicações, nas salas de aulas, afinal, a atividade do xadrez no Cidade Escola está presente em diversas escolas. “Podemos trazer o xadrez para o aspecto da matemática, que acho o ponto mais incrível. Tem o aspecto do cálculo, raciocínio, lógica, mexe também com probabilidade, análise combinatória, todas questões que vemos no ensino fundamental e médio, nas aulas de matemática. Vemos uma aplicabilidade de toda a teoria que se aprende em sala de aula. Podemos falar sobre ‘área’, mostrando o tabuleiro, que tem 64 casas, 8 por 8, o que já traz a multiplicação. Conseguimos trazer para diversos contextos. Quantas casas são brancas ou escuras, além das figuras feitas nos movimentos das peças, diagonal, vertical, horizontal”.



Por ser tão jovem, e de ter crescido como professor, ao lado de vários integrantes da equipe de xadrez alfenense, com idades bem próximas às suas, Ronaldo costuma tratá-los como “filhos”. O melhor “espelho” que pode olhar todos os dias. Por isso, faz questão de lembrar os diversos integrantes que fazem parte desta equipe que vem se destacando de forma meteórica como jogadores ou integradores culturais do programa Cidade Escola. “Gosto de ressaltar o trabalho de toda a equipe com quem trabalhamos. Temos um destaque, na sub-11, que é o Virgílio Antonio, que começou comigo no Arlindo Silveira e agora é aluno meu no Cidade Escola. Tem outros meninos também, como o José Gustavo Mota, Guilherme Borges e o Kelvin Prado, que disputam a categoria sub-17. No sub-14, a gente tem o Fabio Hilário e o Felipe Augusto Terra. No feminino, a Julia Maria no sub-17. Tem a Myckaella Almerinda e o Rodrigo Benedetti, que são integradores do Cidade Escola na região do Caic. Os coordenadores de núcleo e do programa, Junior, Matheus Paccini e Gilberto Faloni. No adulto, eu, o Gustavo Borges e ainda o André Assis, que é um servidor da Unifal. Como estudo na Unifal, a gente tem treinos semanais por lá, mas a gente está aberto para receber toda a comunidade”.


Apesar de o xadrez carregar tantas oportunidades de aplicação em salas de aulas, sobre aspectos históricos e culturais, Ronaldo prefere definir toda a importância deste jogo, por um fator que o programa Cidade Escola trabalha diariamente em todas as regiões, bairros e dezenas de atividades espalhadas pela cidade. “A questão social é a mais importante. Achei interessante o que uma diretora de escola perguntou certa vez a uma turma de jovens e nunca mais deixei de utilizá-lo em minhas aulas. ‘O xadrez mostra como a sociedade é: vocês querem ser na vida, os peões, ou vão buscar ser os reis?’”.

Xeque-Mate, Ronaldo.
































quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Cidade Escola: Taekwondo, formando campeões


O programa Cidade Escola não foi criado para formar campeões no esporte, mas, se nesse caminho surgirem atletas, melhor ainda. E este fenômeno está acontecendo com a turma do Cidade Escola praticante do Taekwondo, no Cras Alvorada.

O que poucos sabem é que Alfenas pode estar prestes a ter um destes praticantes na Seleção Brasileira de Taekwondo. Este marco histórico para a cidade e a modalidade pode começar a acontecer, no próximo dia 24 de novembro, em Brasília, com o jovem Thales de Oliveira, um dos integrantes da atividade do Taekwondo do Cidade Escola. 


Thales de Oliveira e o técnico Wenderson "Carneiro".
Por já estar classificado para a seleção do estado de Minas Gerais, Thales lutará na Copa do Brasil, e, caso vença a competição, passará a ter direito a “bolsa atleta” e, o principal, uma vaga para disputar o Grand Slam, evento que forma a Seleção Brasileira de Taekwondo, em janeiro de 2018.

Thales não é o único jovem a obter resultados expressivos na modalidade. Entre os mais de 30 participantes da atividade, no Cidade Escola, vários estão se destacando em competições, regionais, estaduais e nacionais, como os jovens Wesley Florêncio, Gabriel Fernandes, Laura Rodrigues e Barbara Rodrigues. São mais de 10 atletas prontos para vencer.



Barbara e Laura Rodrigues, meninas brilhando no Taekwondo
O Taekwondo é uma arte marcial milenar de origem coreana, que tem como princípio básico o equilíbrio físico e mental. Significa “caminho dos pés e das mãos” e foi introduzido no Brasil na década de 1970.

E foi assim, caminhando com os pés, as mãos, e muito suor e dedicação, que Wenderson Aparecido Alves tornou-se o grande responsável por essa transformação do Taekwondo alfenense. O nome complicado de ser pronunciado acabou gerando o apelido pelo qual todos o conhecem na cidade. “Carneiro”, desde menino, tinha os cabelos loiros e enrolados, igual ao bicho, e ninguém mais o chamou pelo nome.


A história de vida e paixão pelo esporte é antiga. Filho do senhor Marcos Alves, um dos primeiros moradores do bairro Pinheirinho, “Carneiro”, 30 anos, nasceu e cresceu pelas ruas deste tradicional bairro da cidade. “Sempre fui apaixonado pelo esporte, pratiquei vários, futebol, handebol, vôlei, sei um pouquinho de cada. Quando era criança, no Pinheirinho, existia um lugar igual ao Cáritas, que era mantido pela Unifal. Tinha datilografia, pintura, tudo gratuito, e tinha também a capoeira, que era ‘febre’ na época. Foi em meados dos anos 90, tinha 9 anos. Estudava de manhã, no Grimminck, saia de lá, ia para casa, tomava banho, almoçava e ia pra lá. Ficava até 5 da tarde. O professor chamava-se Carlos, mais conhecido como ‘Gato’. Foi nessas aulas de capoeira que comecei a me apaixonar pelo esporte”, recorda Carneiro.

O encontro com uma nova modalidade aconteceu quando tinha 12 anos. “Queria algo diferente da capoeira, queria fazer karatê, mas, na época, minha família não tinha dinheiro para pagar. Era uma academia no centro, de um cara de apelido ‘Carioca’. E nesta academia tinha também o taekwondo, só que nem imaginava o que era esse esporte”.


Por muito pouco, a dificuldade financeira da família o fez desistir do sonho de lutar. Até que um dia... “Dois amigos me chamaram, Dedé e Marcelo. Chegaram em casa vestidos com a roupa de luta. Perguntei se lutavam e para mim eles faziam karatê. Disseram que estavam treinando taekwondo, numa academia próxima ao corpo de Bombeiros e fizeram o convite: ‘vamos lá pra você ver’”.

E o futuro de “Carneiro”, no esporte, começava a mudar. Passou a treinar firme, na academia pertencente a dupla Marquinho e Frank. A dificuldade financeira da família para mantê-lo no esporte acabou gerando sua primeira paixão no mundo do Taekwondo. “Se o treino fosse 5 da manhã, 4 e meia já estava na porta. Treinava muito, todos os dias, mas não tinha sequer roupa para treinar. Foi quando passei na porta de um brechó e vi um ‘dobô’ (no Taekwondo não se fala quimono, se diz ‘dobô’ e se escreve dobok). Custava 15 reais, fiquei louco. Cheguei em casa e pedi para o meu pai comprar. E ele disse: ‘não vou comprar esse trem procê não’. Fiquei ‘namorando’ esse dobô, passando todo dia na porta, um mês. Meu pai acabou comprando ele. Era branco, do jeitinho que queria. Não era o melhor uniforme, mas era o que meu pai podia comprar na época. Fiquei 6 anos com ele, treinei, viajei, era o meu maior xodó”.


“Carneiro” passou a disputar várias competições, mas, a falta de informação e desorganização de quem controlava o Taekwondo na cidade, por pouco não o fez parar com o esporte. “Começaram alguns problemas com as pessoas que nos treinavam, não tinha mais como confiar neles. Estava com 18 anos, e decidi trabalhar a noite, na lanchonete Ki Delícia. Fiquei afastado um ano das competições, até que passei a treinar em outra academia, chamada Garra. Treinando e viajando, disputando campeonatos, só aqui, pela região. Disse para mim mesmo: ‘é isso o que eu quero e é o que vou seguir’. Treinava sozinho, em casa, também corria atrás de patrocínio, porque sempre foi muito difícil”.

E “Carneiro” começava a despontar no taekwondo. Arrumou um novo trabalho, na Unifi, e após três meses conseguiu que a empresa patrocinasse sua vida de atleta. “Professor Burmin, da Unifenas, me deu uma grande força. Muitos me ajudaram, mas ele é um cara que devo muito e sou muito grato até hoje. Foi o primeiro cara a me ajudar para poder participar de competições a nível nacional, bancava tudo”.


O grande problema que “Carneiro” descobriu nesta trajetória de competições foi a divisão de comando existente no esporte. “Como tudo na vida, tem médico bom e ruim, jornalista bom e ruim, e com o taekwondo não é diferente. Gastei muito dinheiro nestas competições, sem necessidade. A gente lutava pela Liga Nacional, que é conhecida como ‘Inter estilos’, só que esta entidade não te dá suporte como a CBTKD, que é a Confederação Brasileira de Taekwondo. Por exemplo, num Brasileiro da Liga Nacional, em Recife, fui campeão, mas nem falo para os outros porque não tem valor nenhum. A gente era jovem, ia muito pela cabeça dos outros, que diziam ser a melhor federação, mas gastávamos muito dinheiro desnecessário”.


Até que, “Carneiro” e seus companheiros de equipe, acabaram descobrindo, da maneira mais dura, que estavam no caminho errado para conquistar reconhecimento dentro do Taekwondo. Uma aventura, no sul do país, que deixaria marcas profundas em todos, mas, também, ensinamentos inesquecíveis para o futuro. “Fomos competir em Curitiba, evento da CBTKD, que valia pontos para o ranking nacional. Eu, Bianca, Iuri e João Gabriel. Foi um choque de realidade. Nunca tínhamos ouvido falar de ranking. Chegamos no aeroporto em São Paulo e encontramos um monte de gente, com protetor de cabeça, todos uniformizados, descobrimos, ali, que haveria uma competição. Nunca tínhamos visto nada igual. Ainda no aeroporto, conhecemos a mãe da Natácia e sua irmã. A Natácia era a segunda colocada no ranking nacional, lutou vaga para a seleção, era do Mato Grosso. A mãe conversando com a gente e perguntava: ‘ué, não vi vocês na Copa do Brasil, não vi vocês no Brasileiro, não vi vocês em tal e tal competição’. Começamos a desconversar, dizendo que a gente era novo nesta história de competição grande. E arrematei: ‘para senhora ter ideia, a gente nem treinou direito’”.


Carneiro e equipe desembarcaram às 6 horas da manhã em Curitiba. No café da manhã, já no hotel, novo encontro com a mãe da atleta do Mato Grosso. E novas e tristes descobertas sobre o que vinham fazendo no esporte. “Conversamos mais e ela contou sobre a Natácia ter lutado contra a Natalia Falavigne, que foi medalhista olímpica, que o pessoal do ranking todo estaria lá para competir. A Bianca chegou para mim e disse: ‘Carneiro, onde você enfiou a gente?’. Desconversei e disse, vamos em frente. Fomos para a pesagem, mais tarde, e aí que nós vimos mesmo a ‘bucha’ que teríamos pela frente. Pessoal todo uniformizado, delegações todas de Santos, São Caetano, Rio de Janeiro, tudo organizado, de abrigos. E a gente, de bermuda, camiseta e chinelo. Fomos para o hotel, dormir, mas ficamos conversando. Uma hora da manhã, olhamos pela janela do quarto e vimos a delegação da Bahia, todos sem camisa, treinando forte, na cobertura de outro prédio. Lembro-me como se fosse hoje do Iuri falar: ‘amanhã, a gente tá tudo morto, vamos morrer de apanhar’”.




E apanharam, mesmo. Mas ficaram lições eternas, para o futuro vitorioso do esporte em Alfenas. “No domingo, lutei, apanhei do cara, não tive nenhuma chance. Bianca ganhou a primeira luta, mas, na segunda, pegou a primeira do ranking, que era de Santa Catarina e perdeu, também não teve nenhuma chance. Só que o treinador de Santa Catarina, Fugazza, chegou em nós e disse que queria levar a Bianca para treinar com ele. Nessa conversa, ele me falou uma coisa que jamais esqueci e me deixou furioso. Disse que éramos amadores. A gente treinava feito louco, em Alfenas, e o cara chega e diz que a gente é amador? Tem alguma coisa errada nisso. Ele percebeu que ficamos bravo e explicou a razão. Disse que as meninas que ele treinava tinham estrutura, academia, casa para morar, onde ficavam juntas, salário, fisioterapeuta, preparador físico, alimentação, suplementação, tudo que um atleta precisa ter para competir em alto nível. E então falou: ‘a Bianca, atleta de vocês, não vive disso. Mas a Daniela, que é minha aluna, vive, não poderia perder para a Bianca, de forma alguma”.


No avião, de volta para Alfenas, uma conversa entre “Carneiro” e Bianca, selaria o futuro dele e do Taekwondo na cidade. Decidiu que era hora de deixar a federação em que estava filiado e, mais do que isso, abandonar o colégio Anglo, local onde treinavam. “Me deu um estalo, por tudo que vivemos e ouvimos no campeonato. Falei pra Bianca que sairia do Anglo e trabalharia para disputar, de verdade, um Campeonato Brasileiro. Ia mudar tudo, não poderia mais ser do jeito que aprendemos, esquecer as competições que não valiam praticamente nada em toda a região, Borda da Mata, Conceição, Congonhal. Comecei a pesquisar, ver onde poderíamos competir de verdade, de forma organizada”.

Para correr atrás do sonho de participar de um Campeonato Brasileiro, “Carneiro” sabia que teria de tomar uma decisão importante. E a dúvida surgiu. “Decidi trocar de federação, sair da Liga Nacional e ir para a CBTKD. Fui muito criticado, até pelos mestres que ensinavam por aqui. Diziam: ‘CBTKD é para rico’. Sabia disso, só que descobri, também, que entraria em outro patamar do esporte. Corri atrás e troquei, queria provar para eles que estava no caminho certo”.


Parte da seleção de Minas, em 2013
E como estava certo. “Procurei o mestre Valdeci, de Lavras, e ele me ajudou na transferência de documentação da Liga Nacional para a CBTKD. Paguei 900 reais pela transferência e passei a lutar as competições estaduais, o mineiro. Fui em dois eventos, ganhei o primeiro e no segundo ganhei por W.O. Estava classificado para o Campeonato Brasileiro. Tudo que me haviam falado antes, para não trocar, querendo ou não, já havia conseguido, porque com esses resultados passei a fazer parte da seleção do estado de Minas. Isso foi em 2013, ano que disputei o Brasileiro, em Belém do Pará, representando o estado de Minas. Cheguei ‘voando’ na competição. Não queria saber se seria campeão ou ficaria em último. Terminei em quinto lugar, mas realizei meu sonho de disputar um Brasileiro. Até hoje, em Alfenas, ninguém conseguiu isso”.

Nesta mesma época em que realizou o sonho de participar de um Campeonato Brasileiro, “Carneiro” também iniciou seu projeto social com aulas de taekwondo para os jovens no Cras Alvorada. Nem mesmo a tragédia com um amigo mudou o rumo do projeto. “Comecei a dar aula com o Arley, só que ele sofreu um acidente de carro, no trevo de Fama e acabou morrendo”.


"Carneiro" e seus dois primeiros alunos no Cras Alvorada
E a receptividade da comunidade ao projeto surpreendeu ao próprio “Carneiro”. “Comecei com um aluno, o Carlinhos. Daí a irmã dele veio, as amigas da irmã vieram, e mais gente chegou. Os ex-alunos do Anglo também vieram e, graças a Deus, chegou em um ponto que tínhamos 40 alunos nas aulas de taekwondô. Não sabia mais onde enfiar tanta gente. E é assim até hoje. O taekwondo de Alfenas, está aqui, dentro deste espaço do Cras Alvorada, neste tatame”.

“Carneiro” seguiu lutando, como atleta, e também dando aulas no Cras Alvorada, até que teve de tomar outra decisão. “Lutei e lutei, mas fui diminuindo, porque tinha o projeto, aqui, no Cras. Disse para mim mesmo: ‘ou treino ou dou aula’. Segui dando aula, mas desde que voltei do Brasileiro, pensei em parar com tudo, porque não tinha apoio. Gente de fora reconhecia muito mais nosso trabalho aqui. Fiquei 3 anos trabalhando como voluntário, sem receber um centavo. Gilberto, que era coordenador da primeira fase do Cidade Escola, tentou de todas as formas me contratar, mas não deu certo. Pensei em largar tudo, competição, aula. Estava cansado de não conseguir dar estrutura certa para os meninos e meninas que treinam com a gente e não conseguiam competir da maneira correta. Daqui uns tempos, se não estivermos mais aqui, terão de reconhecer que nosso trabalho foi sério. Posso dizer a mim mesmo que coloquei o taekwondo de Alfenas em outro patamar, completamente diferente do que era há 10 anos”.


As primeiras aulas de "Carneiro", no Cras Alvorada
A ideia de abandonar tudo, passou rapidamente. “Em uma semana, passou a frustração toda e decidi continuar. Peguei firme com a molecada, fomos para vários campeonatos e só conquistando resultados bons. Em Lavras, numa competição, levei 9 alunos e os 9 foram campeões. Levei mais 12 para Santa Catarina, 9 primeiros colocados, dois em segundo e um em terceiro”.

Há três anos “Carneiro” abriu mão da carreira como atleta, das competições, para se dedicar exclusivamente aos jovens do Cidade Escola, no Cras Alvorada. Agora, luta por todos eles, para se destacarem nas principais competições do taekwondo pelo país. Mas, um atleta em especial, está ajudando “Carneiro” a transformar o taekwondo alfenense em uma referência. Para transformar o jovem Thales de Oliveira, em um atleta de ponta, “Carneiro” fez de tudo. “Falou em Taekwondo, no Brasil, falou em São Caetano. É uma cidade referência, tanto que o técnico da seleção do Irã, estava lá treinando recentemente. Liguei para o Cleiton Reginaldo, técnico das categorias de base da Seleção Brasileira, e ele falou para levar o Thales, porque haveria um teste para eles integrarem a seleção. Foi há 2 anos, passamos um ‘perrengue’ lascado. Thales saiu daqui de Alfenas com R$ 2,20 no bolso. Pegamos o busão, chegamos em São Paulo e não sabíamos nem como chegar em São Caetano. Pegamos um taxi clandestino e fomos. Os normais custavam mais de 100 reais e este 70”.


"Carneiro" e Thales de Oliveira, em São Caetano do Sul
E as dificuldades não pararam por aí. “Acabou o treino, na quinta-feira à noite, e vi que só tinha 100 reais, e ainda tínhamos que arrumar um lugar para dormir. Nossa sorte foi que, no dia seguinte, caiu na minha conta o pagamento do PIS, aí consegui pagar o hotel que arrumamos para a primeira noite. Não tínhamos dinheiro nem para comer direito. Depois, cheguei no Cleiton e pedi para nos ajudar com a hospedagem. Ele conseguiu colocar o Thales no alojamento dos atletas da seleção”.

E tanto sacrifício, valeu a pena. “Essa experiência foi importante demais, porque passamos a ficar muito mais conhecidos pela elite do esporte, tanto que, ano passado, o Thales voltou para lá e ficou uma semana em treinamento. Ia lutar o Grand Slam, competição que dá vaga para a seleção brasileira, mas acabou não dando certo. Mas, o aprendizado é enorme para ele. Só ‘apanhando’, quer dizer, aprendendo muito, porque, lá, só tem atletas de nível de seleção. É outro mundo, a mesma coisa de jogar bola na terra e sair para jogar no Maracanã. Hoje, tenho porta aberta para levar qualquer atleta nosso para lá”.


Thales de Oliveira em competição
Muito mais do que a experiência, “Carneiro” e seus atletas passaram a ganhar respeito por diversas comunidades do taekwondo. “Sábado, dia 11/11, por exemplo, teremos várias cidades dos arredores para treinar com a gente, como Itajuba, Ibitiura, Santa Rita. 

Hoje, queiram ou não, a gente virou referência em taekwondo. O Thales virou referência, os meninos querem treinar com ele, porque já é considerado um atleta de ponta, de alto rendimento. 

E não é só ele, o Wesley também. Querem vir aqui e ver como eles treinam, como conseguiram atingir resultados tão bons”.












"Carneiro" e Gabriel Fernandes, revelação alfenense
“Carneiro” não se arrepende de ter deixado o mundo das competições. “Estou realizado dando aulas. Teve uma época que trabalhava para formar campeões, mas, também tenho outro pensamento, que é o de formar não apenas atletas, mas cidadãos. Tenho esse dever, porque nem todos conseguirão chegar no topo do esporte, porque sei o quanto é difícil, mas muito difícil mesmo”.

Agora, resta a torcida para que Thales de Oliveira chegue a Seleção Brasileira de Taekwondo, levando o nome de Alfenas e do Cidade Escola para o topo do esporte.