terça-feira, 26 de setembro de 2017

Cidade Escola: Se veja nos 30 com Mikelino


Um projeto que fez enorme sucesso na primeira versão do programa Cidade Escola, entre 2009 e 2012, está de volta e muito mais atraente. “Se veja nos 30” é um festival de vídeos de curtas-metragens criado e desenvolvido pelo atual coordenador do Cidade Escola, Matheus Paccini, e que teve em sua primeira versão a adesão de centenas de estudantes da rede pública municipal.


Mikelino, no Caic, convidando as crianças
para participarem do "Se Veja nos 30" 
Agora, em 2017, ele retorna de “cara” nova e com um parceiro de peso para torná-lo ainda mais interessante. “Dessa vez, ele vem mais completo, e com a gestão superprofissional do diretor e coach Rodrigo Mikelino. Os alunos/comunidade produzirão curtas-metragens, sobre um tema. Daremos toda a estrutura para a elaboração, com oficinas, rodas de aprendizado. Um site será criado e toda cidade irá votar. Em dezembro, faremos a exibição dos vídeos e teremos diversas premiações, para melhor filme, ator, fotografia, roteiro e vários outros. Mas o mais importante: a integração dos bairros, das pessoas, a percepção do outro”, garante Paccini.


Rodrigo Mikelino é um dos alfenenses que ganharam projeção nacional com o trabalho desenvolvido como bailarino, ator, produtor cultural e diretor. Mikelino mora no Rio de Janeiro há vários anos, mas nunca deixou de retornar à terra natal, para visitar a família e desenvolver peças e projetos culturais na cidade. A motivação, agora, com o “Se veja nos 30”, é total. “Naquela edição, não havia nada conceitual, era cada um por si, fazendo como podia. O legal, agora, é que vamos dar oficinas para os jovens, até novembro.


Primeiro, vamos até as escolas, explicar a eles o que é o projeto. A seguir, começaremos as oficinas, onde vamos ensiná-los a criar e a executar um roteiro, como fazer um roteiro técnico, como fazer a captação de imagens e a edição. O papo é direto. Dizer a eles que farão um filme, utilizando apenas um celular. Eles terão de se juntar em grupos de até 10 pessoas. Cada grupo forma uma equipe, que terá um nome”.

Outra novidade nesta edição do “Se veja nos 30” é o tamanho dos vídeos e filmes que podem ser produzidos. De 30 segundos até 6 minutos, no formato ficção, documentário ou animação. O tema também foi definido: Alfenas tem seus feitiços. “Com esse tema, eles poderão falar de tudo quanto é coisa, mas desde que se refiram a Alfenas. Já fizemos um regulamento, imenso, para permitir que todos, mesmo aqueles que não farão as oficinas do Cidade Escola, também possam participar”, confirma Mikelino.


Rodrigo Mikelino pode ser definido como uma “pessoa inquieta”. Energia e disposição total para os desafios que a vida apresenta. Não é para menos, sua trajetória de vida confirma esse perfil.

Mikelino, 34 anos, é filho do senhor Valdeli Miquelino e de dona Sônia Miquelino. O pai é alfenense há 63 anos e bastante conhecido na cidade, por ter sido professor de matemática em colégios particulares da cidade. A mãe cuidava da casa, dos seis filhos da família. Mikelino é o terceiro filho do casal. Seus pais tiveram importância fundamental em sua carreira de bailarino. O pai, por querer ver o filho lutador. 






A mãe, por acobertar a paixão do filho pela dança, desde os 7 anos de idade. E a Academia Adágio começava a ver se formar um artista. “Eu era muito tímido, minha mãe me colocou numa aula de dança, aliás, antes, na luta, eu e meu irmão, mas na luta (taekwondô) eu não me adaptei. Na sala vizinha a da luta, tocavam músicas clássicas e eu ficava louco. Comecei a sair toda hora da aula, dizendo que ia ao banheiro, só para ver a aula de dança. Ficava no vidro, vendo as bailarinas e bailarinos. Dizia para mim mesmo: ‘quero ser isso”.




Para ele fazer o que realmente queria foi preciso fazer um acordo, um pacto de silêncio, entre professora, mãe e Mikelino. “Um dia a professora me disse: ‘vem, entra’. E respondi: ‘não, não posso, porque estou fazendo luta e meu pai me mata se souber’. A professora então me disse: ‘chame sua mãe para fazermos um acordo’. Chamei e ela foi. O acordo era ela dizer para o pai que eu estava fazendo aula de luta.

Somente oito anos depois o segredo seria descoberto. “Aos 15 anos meu pai descobriu minha ‘mentira’, porque teve uma mostra de dança, no final do ano, da Academia Adagio, e nas reportagens começaram a dizer que havia um bailarino despontando na cidade. Foi aquela confusão. Meu pai dizia que eu não podia ter feito isso, mas acabou aceitando”.





Mikelino (1º, no alto, à esquerda) e a turma da professora
Maria Esther Rosa, a Esterzinha, do Centro Católico.
 
Neste período, entre infância e adolescência, Mikelino descobriria outra figura fundamental no seu futuro profissional e também como pessoa. “Fazia parte da Igreja Matriz, São José e Dores. Comecei a fazer a 1ª eucaristia lá. Era a ‘Esterzinha’ que dava aulas. Era professora de canto, e lá fazíamos teatro, cantávamos, dançávamos, fazíamos de tudo, porque tomávamos conta da missa das crianças, aos domingos, 8 da manhã. Fomos crescendo e após dois anos, ela criou a ‘Perseverança’, um grupo de jovens adolescentes. Fiquei com ela até os 17 anos. Ela é extremamente representativa para mim, me ensinou a cantar, dançar, tudo”.





Mikelino, jovem, no teatro alfenense.
Mikelino formou-se no balé clássico, mas mal sabia ele que uma nova paixão iria mudar completamente sua vida daquele momento em diante. “Minha professora recomendou que também fizesse teatro, para melhorar a performance como bailarino. Ser bailarino era meu sonho, mas quando comecei a fazer teatro, me apaixonei loucamente. Comecei no Teatro Municipal só assistindo, vendo as aulas do Nivaldo (diretor de teatro), de outros atores, assistia às peças do pessoal antigo, como o Zé Broinha. E ali fui crescendo, até que um dia o Grupo Fogazan me chamou para dar uma oficina de expressão corporal. Eles dominavam a questão do teatro, mas não a expressão corporal”.











Paixão pelo teatro, desde os tempos de escola em Alfenas.
E como diz o dito popular que “da primeira vez, ninguém esquece”, com Mikelino foi assim também no teatro, com o Grupo Fogazan. “No final, sugeri montarmos um musical, “Saltimbancos”, e nisso o menino que iria fazer o personagem do ‘cachorro’, adoeceu no dia da apresentação. Todos ficaram desesperados, mas disse: ‘eu entro e faço’. Me apaixonei de vez, porque essa foi a primeira interpretação profissional que fiz, antes, era tudo amador”.





Mikelino também dançou por um bom tempo na companhia de dança MD, do professor Marinho. Participou, inclusive, de um festival de dança, na Itália. Mas, aos 18 anos, enveredou completamente para o teatro. Rapidamente, destacou-se, em dois festivais de teatro ocorridos em Alfenas, recebendo troféus, como melhor ator amador e ainda como melhor diretor e melhor texto. E correu atrás dos seus sonhos. Mais uma vez, o destino colocaria outra pessoa fundamental em seu caminho. “Fui fazer uma oficina de teatro do Wolf Maia, em São Paulo, sozinho, queria ser ator de verdade. Foi quando conheci a Malu Valle, atriz da Globo, e uma das professoras do curso. Ela se apaixonou por mim e me disse: ‘quero te apadrinhar, e aí?’”



Mikelino e Malu Valle, amizade eterna.
Mikelino não sabia o que responder, pois para isso Malu colocou como condição a sua mudança para o Rio de Janeiro, para que pudesse entender e conhecer melhor o teatro. “Disse que não podia, que meus pais não iriam deixar, porque não tínhamos dinheiro. Arrumei um monte de desculpas, mas ela se virou para mim e disse: ‘dinheiro não será problema, porque você ficará na minha casa’. Acabei indo. Fiquei três meses na casa dela, sem comprar um alfinete, uma alface, me deu toda estrutura que precisava. Me orientava para assistir a essa ou aquela peça em cartaz, me tratava mesmo como um filho”.



Três meses depois de chegar ao Rio de Janeiro, uma atitude de Malu também seria decisiva para o futuro de Mikelino. “Ela se virou para mim e disse: ‘é hora de fazer tuas coisas, voar sozinho’. Morri de medo, chorei, mas foi maravilhoso. Lembro-me de ela deixar na cabeceira da minha cama, um texto, sobre uma águia. Dizia que a mãe águia para proteger seus filhotes do perigo, voa até o pico mais alto, escolhe o local mais adequado, e, ali deixa suas crias. Entre um carinho e outro, busca comida para alimentá-los e, assim, o tempo vai passando, entretanto, determinado dia, ela sente que já está na hora deles mesmos se entenderem como águias e os empurra lá de cima. Nesse momento, eles descobrem que tem asas para voar e voam. Foi o que aconteceu comigo, no Rio de Janeiro”.



Mikelino e seu personagem
na novela da TV Record.
E não parou mais de voar, mesmo. Pouco tempo depois, Mikelino estreava na peça “O Mágico de Oz – The Dark Side”, com direção do consagrado ator Cadu Fávero. E logo a seguir, em 2007, fez os testes e foi convidado para fazer a novela da TV Record, “Vidas Opostas”. Parecia estar tudo muito bem, mas... “Comecei a ter um início de depressão, morava na zona sul, mas ali é área só de turistas, ninguém olha na sua cara direito, e eu um cara daqui, do interior, ‘mineiraço’, sentia falta de proximidade de gente. Fui contratado para fazer trinta capítulos, depois me chamaram para mais trinta, e quando ia terminar a novela, não consegui ficar. Ligava para minha mãe, chorando, carência afetiva total, porque estava ganhando bem, na TV, fazendo o que gosto. Enquanto estava lá, na TV, era tudo lindo, mas quando saía para as ruas, era um vazio imenso. Nessa época, morava em uma república, em Copacabana”.


Mikelino na peça "Diário de um louco"
Mikelino decidiu voltar para Alfenas e se cuidar. Poucas semanas depois, a depressão sumiu. “Fiz terapia, mas uma semana depois já estava bem, porque percebi que o que precisava mesmo era só de ‘colo’ da mãe, família, minha terra. Foi quando a Alessandra, coordenadora do Centro de Convivência, me viu nas ruas, pois ela já me conhecia do teatro, e me convidou para ser monitor. Eles precisavam de alguém que não fosse da área de saúde. Foi a experiência mais incrível da minha vida, porque tinha acabado de passar pela depressão. Fiquei quase dois anos por lá. A experiência de estar ali, com os usuários, era como um ‘tapa na cara’. Acabei virando defensor deles nas ruas, brigando com gente que tinha preconceito e falava mal deles. Fazia oficina de teatro. Era a coisa mais incrível do mundo”. Essa experiência foi tão forte que Mikelino acabou, pouco tempo depois, criando uma peça teatral inspirada nos usuários do Centro de Convivência: “Diário de um louco”.


Refeito, Mikelino retornou ao Rio de Janeiro, disposto a mudar, literalmente, de vida. E o acaso, novamente, conspirou a seu favor. “Fui visitar um amigo, na zona norte do Rio. O convite era para passar um final de semana inteiro, mas disse que ficaria apenas um dia. Ficava na Praça Seca, do lado de Madureira. Foi maravilhoso. Quando encontro a zona norte, eu me encontro. E disse para mim mesmo: ‘não saio nunca mais daqui”.








Alexandre Castro (esq) e Mikelino
Foi ali que um amigo mudaria por completo sua vida. “Conheci uma pessoa que me apresentou ao verdadeiro Rio de Janeiro, porque, até ali, só conhecia o lado totalmente burguês do Rio. E passei a me perguntar: ‘onde estava esse tempo todo, meu Deus?’. Foi quando comecei a ver a ‘negrada’. O nome dele é Alexandre, tenho total veneração por ele, no sentido de que não precisava ter feito nada do que fez por mim”.

Neste retorno, agora, no subúrbio carioca, Mikelino começou a se questionar e a se perguntar sobre a razão de tantos jovens não fazerem teatro, igual a ele. “Cadê a galera para fazer os cursos que fazia na zona sul? Falei para mim mesmo: ‘vou passar o que sei pra essa galera’”.


Mikelino e a turma de "Enquadrados", no Sesc Madureira.
E tudo aconteceu rapidamente. Tornou-se parceiro do amigo Alexandre e criaram, juntos, uma empresa chamada “Criouluz”. Até agora, ganharam “quase nada”, mas as sementes que plantaram já começaram a brotar. “A proposta é fazer oficinas de teatro, cinema, tudo que venha dar autoestima, não só para os negros, mas para toda a comunidade. Com pouco tempo do projeto, o Sesc me contratou. A galera da comunidade se envolveu. Conhecemos também uma outra galera do cinema, onde também fazemos cursos. Já formamos quase 100 pessoas, e entre elas, pelo menos 20 já estão em condições de fazer testes para teatro, cinema, porque o projeto quer formar cidadãos, pessoas, não apenas atores”.

E foi neste contato com as comunidades do subúrbio carioca que Mikelino começou a “se entender como artista”. “Porque, até então, eu era apenas ator, ficava esperando o telefone tocar, com convite para alguma peça”.

As experiências vividas nas oficinas do Sesc Madureira, transformaram a vida de Mikelino, ele viu muitos jovens e adolescentes que, sofrendo de depressão, chegavam a se machucar, cortando os braços. “Fizemos uma peça que ‘bombou’ com esse pessoal, ‘Enquadrados’, a ponto do Sesc liberar o espaço para novas apresentações (coisa que não costumam fazer). A peça conta a história destes meninos e meninas com problemas de depressão e se cortam. As pessoas acham que depressão, ou se cortar, é ‘palhaçada’, mas não é, vai muito além disso. Teve dias nas oficinas que mexi, provoquei demais e era uma choradeira incrível. Mas, com o tempo, eles foram entendendo o que estavam fazendo. Dias atrás, recebi um telefonema de uma das alunas participantes da peça que me disse: ‘professor, toda vez que penso em me cortar, lembro da peça, aí eu não me corto’. Pensei comigo mesmo: ‘não fui eu quem causou isso, foi o que ela sentiu o que contou, no teatro, para outras pessoas’. Era disso que ela lembrava para não se cortar novamente. Eram jovens suicidas, vários, meninas, principalmente, de 15 a 18 anos. O teatro tem isso, o papel de melhorar as pessoas”.


Mikelino e Camila Pitanga
E novas portas começaram a se abrir para Mikelino, no Rio de Janeiro. Há três anos, foi convidado para ser o coach da atriz Camila Pitanga. “Comecei a fazer a preparação dela para a novela Babilônia, isso a gente chama de coach, bater textos juntos, fazer a decupagem do texto, separar o que é cena de um e outro, o que é externa, estúdio, horário de chegar, sair. Fiquei a novela inteira, foi um caos, mas aprendi muito, minha primeira experiência fazendo este tipo de trabalho”.



Um ano depois, Mikelino deixou este trabalho e retomou com força total as oficinas de teatro e cinema. “Foi aí que trouxe o cinema para cá, no segundo semestre de 2017. Trouxe a Malu para ser a madrinha da 1ª Mostra de Cinema em Fama, em parceria com a Aryanne Ribeiro e Clarissa Veiga. Nestas oficinas ensinávamos tudo, desde preparação de atores até montagem, gravação, tudo. Fizemos um curta metragem, “Jalí” (https://www.youtube.com/watch?v=Rka57H3B3pA&feature=youtu.be ), fui o ator principal. Foi lindo, para onde levamos o filme ele encanta. Já tivemos menção honrosa em festivais, é sempre muito bem falado”.










Na zona norte carioca, Mikelino (re) encontrou suas raízes e passou a criar uma nova forma de transportar tudo que vem aprendendo para as telas, para os palcos. “É um cinema diferente, da periferia mesmo, um cinema de ‘rataria’, isso mesmo, porque a gente pega a câmera de um, o gravador de outro, a luz de outro ainda, fazemos um mutirão e vamos gravar. Gravamos, editamos e mandamos para os festivais. É assim que a gente descobre esse lado B do cinema, não só o cinema rico, europeu ou americano. É uma outra linguagem, é o cinema ‘negro’, a raiz do negro, tendo o negro como protagonista da história, sempre”.



Não é à toa que Mikelino está trabalhando as questões de resgaste da cultura negra. Desde que partiu para o Rio de Janeiro, há mais de 10 anos, descobriu no subúrbio carioca sua gente, sua raça. Em Alfenas, sua terra, onde nasceu e cresceu, Mikelino passou a perceber que algo de errado aconteceu em sua formação e com sua gente. “Percebi que não tinha amigos negros, em Alfenas. Não tinha, não porque não queria ter, não tinha, mesmo. E achei tudo isso ‘normal’. Alexandre que me traz essa reflexão”.










E já começou a trabalhar de maneira intensa, como sempre fez em sua vida, todas essas questões. Primeiro, com uma peça que apresentou em seu regresso à Alfenas, “A cor que tenho”, e a produção de um novo filme, já em andamento. “Dia 18 de outubro, começamos uma oficina para interpretação no cinema, porque estou fazendo um filme com a galera daqui, que se chama ‘Os filhos da terra’. 








Mikelino e atores de seu novo filme, "Filhos da terra".
Uma história que tem o negro como protagonista da sua própria história. Eles contarão essas histórias e nós vamos dar vida a elas. A intenção é fazer com que essa galera negra de Alfenas, se entenda como negro, porque, caso contrário, acontecerá o que aconteceu comigo, de não se enquadrar, quase perder a identidade. Essas oficinas não serão só oficinas, será um processo de injeção de autoestima neles”.






Mikelino, na Comissão de Frente da União da Ilha.
Com experiências e vivências tão fortes, tanto em sua terra natal, Alfenas, como no Rio de Janeiro, Mikelino não consegue escolher entre uma e outra cidade para se fixar. Nem mesmo o estandarte de ouro conquistado, no carnaval de 2017, quando fez parte da comissão de frente da escola de samba União da Ilha do Governador, a convite do consagrado Carlinhos de Jesus, o fez optar em definitivo pelo Rio.

A resposta à pergunta, Alfenas ou zona norte do Rio? Ele suspira, solta uma imensa gargalhada e desabafa. “Nossa Senhora. É Alfenas e zona norte, porque em Alfenas, estou trabalhando o resgate da cultura negra. Quando fiz o chamamento pelo Facebook para atores trabalharem nesta última peça, para nos encontrarmos no pátio da prefeitura, em frente ao teatro, combinamos 10 horas por lá.



Eu imaginava que viriam umas 5 pessoas. Vieram 16 pessoas. Uma galera do tipo, ‘eu não sei fazer nada, mas tô aqui’. É exatamente disso que eu preciso, ‘porque eu faço você fazer, deixa comigo’. A gente percebe que a galera está com ‘sede’. O Rio de Janeiro é só um espelho para mim, de toda essa realidade de Alfenas. Aqui é o real. Nasci e cresci aqui. Por isso as duas são importantes, lá eu me alimento e jogo tudo aqui”.






E é exatamente isso que Mikelino está fazendo com o festival “Se veja nos 30”, do Cidade Escola. É esperar para ver, em dezembro, o resultado de suas oficinas com as dezenas de jovens que estão participando desta preparação.

É também esperar para ver Mikelino brilhar novamente, no teatro, no cinema, na vida.



















































quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cidade Escola e Move Dance: parceria do bem viver


A sigla Caensa é a abreviatura de um lugar que muitos já ouviram falar em Alfenas, mas poucos sabem responder qual é o seu significado.

Caensa é um dos núcleos do programa Cidade Escola localizado no bairro Aparecida, com atividades ao lado do PSF do bairro, numa pequena rua estreita chamada Travessa Dom Silvério e também na sede da Move Dance Brasil, bem pertinho dali, na Rua João Pinheiro, 581. 


Há meses o bairro voltou a ter vida, lazer, cultura, atividades para todas as idades como zumba, karatê, futsal, artesanato em E.V.A, teatro, flauta, xadrez, dança, após várias décadas de descaso de antigas administrações públicas com a comunidade.





Mais recentemente, três parcerias importantes aumentaram ainda mais o número de participantes das atividades. A primeira, com a escola mais tradicional do bairro Aparecida, a Escola Estadual Professor Viana, em que a partir de agora 150 alunos do colégio vão poder realizar as atividades do Cidade Escola no contraturno escolar em uma casa alugada bem próxima dali.

A segunda parceria, com a universidade mais tradicional da cidade, a Unifal, na qual toda a comunidade, incluindo alunos, professores e funcionários terão diversas atividades na quadra poliesportiva do local.


E a terceira, e mais importante, é com a Move Dance, uma Companhia de Dança que mudou completamente a história de vida do bairro e de toda a comunidade local por conta de sua trajetória nos últimos 20 anos na cidade. Mas, para entender a importância que passaram a ter é preciso voltar no tempo, nas origens do bairro Aparecida e do próprio Caensa.





Aparecida é um dos bairros mais antigos de Alfenas e leva esse nome por causa da igreja de Nossa Senhora Aparecida, construída na década de 1950. Bem antes desta data, porém, Aparecida já era famosa por causa de uma “igrejinha”, assim chamada por ser muito pequena, acanhada, ainda assim uma referência geográfica para todos na cidade.





A imponente igreja do bairro foi erguida com a ajuda e o suor de muitos e de uma figura em especial. Seu nome é José Alexandre da Costa, que ficou famoso pelo apelido de Juca Borges. Era descendente dos Martins Alfenas, fundadores da cidade. Herdou imensas áreas de terras, ali, em quase todo o entorno da Igreja de Nossa Senhora Aparecida e que se prolongavam até o bairro do Pinheirinho. Foi pioneiro também no comércio atacadista, plantador de algodão e ainda proprietário do primeiro posto de gasolina da cidade, Texaco.


E foi por conta da doação de parte de suas terras que surgiu a nova igreja de Nossa Senhora Aparecida. Não só da doação, mas também do empenho em sua construção, durante vários anos. 

E o bairro foi crescendo, com o aumento da população, mas sempre com imensas áreas de terras, fazendas, plantações de café e lavouras. Geograficamente, a parte de cima do bairro, mais próxima ao centro, seria a das melhores casas, famílias com maior poder aquisitivo, enquanto a parte debaixo, mais próxima ao Caensa, do cemitério, a das pessoas mais simples, humildes, pobres.








Gente como dona Isaura, 80 anos de vida, metade deles vividos na mesma casa na rua Maciel Junior, número 495. Mesma casa é modo de dizer, porque quando chegou por ali a vida era bem diferente. Da sua janela, ela viu o bairro crescer. “Quando comprei aqui era uma ‘taperinha’ (casa simples feitas de barro e madeira), tudo terra. 




O Pinheirinho, ali, era tudo café, aqui, também. ‘Panhei’ café muitos anos. Tinha poucas casas, dava para contar nos dedos. Criei a família nesta casinha, seis filhos. Tinha fogão a lenha, era difícil demais, não tinha luz, água, muita dificuldade. Levei anos pra deixar ela assim. Comércio quase não existia. O bairro cresceu muito nos últimos 20 anos”.





Dona Isaura é vizinha de outro morador muito antigo no bairro, o seu Zé, o dono do bar e a sua família que estão ali desde 1963, ano em que chegaram a Alfenas vindos de Conceição de Aparecida. O pequeno comércio vendia de tudo um pouco, alimentos a granel pesados nas balanças. 







O bar do seu Zé,
esquinas das ruas Marcial Junior e Carlos Chagas
Seu Zé assumiu o bar de casa centenária na década de 1980 e viu de perto o cenário do bairro mudar porque quando chegou era tudo bem diferente. “Fui motorista da Santa Cruz durante vários anos. Em 1987 assumi o bar, antes, o pai tocava, a família toda, irmãos, somos sete. Aqui, para baixo, era tudo pasto e uma lavoura de café”.






E, afinal, qual a razão do núcleo do Cidade Escola ser chamado de “Caensa”? Porque Caensa, ou melhor, o Centro de Atividades Educacionais Nossa Senhora Aparecida, fundado em 12 de outubro de 1996, passou a ser uma referência geográfica de Aparecida, quando o bairro começou a crescer.

Hoje, no local, funciona a Emei Prof. José Eduardo de Oliveira Prado (alunos da pré-escola de 4 e 5 anos), também conhecida por Raios de Sol. Um lugar que foi criado para ser uma creche, e que, na verdade, nunca funcionou como tal. Quem confirma é a professora Alessandra dos Santos, a primeira a cuidar das crianças do bairro e que continua lá até hoje. 










Alessandra dos Santos, a primeira professora do Caensa.
“Construíram esse prédio, mas ele ficou parado uns tempos após ser inaugurado. Estou há 17 anos aqui. Tínhamos duas salas de pré no Professor Viana e precisávamos de mais uma, só que lá não tinha lugar, espaço físico. Aí vim para cá, fiquei praticamente dois anos sozinha, cuidando de 30 crianças. Aqui nunca foi utilizado como creche pelo município, quem utilizou o prédio, no início, emprestado, foi a creche que existia na Vila Betânia e que pertencia à Maçonaria. Depois que acabaram a reforma deles, voltaram para lá. Foi quando trouxeram crianças da pré-escola do Professor Viana, do Coronel (3 turmas) e do Levino Lambert (2 turmas)”.


Professora Alessandra e a turma que viu crescer.
E Alessandra viu diversas gerações de crianças passarem pelo Caensa, desde os tempos em que a “creche” era chamada de Pequenos Brilhantes. E, agora, remexendo os álbuns de antigas turmas, ela se emociona ao ver uma delas. “Vi diversas gerações crescerem aqui, gente que está fazendo Odontologia, Medicina, Direito, meninas que foram ser nutricionistas, meninas e meninos que já viraram pais e mães, bailarina, algumas até já morreram, mas, graças a Deus, a maioria está bem, estudando, trabalhando, todos formados aqui”.



Muro do cemitério, no final da rua Carlos Chagas.
Alessandra se emociona porque sabe das dificuldades que a região conhecida como Caensa sempre teve ao longo de seu crescimento histórico. E, principalmente, pelo preconceito que cerca o lugar até hoje. “Sempre morei por aqui, até depois de casar. Lembro que quando era criança as ruas eram todas de terra por aqui, tudo barranco. Virou pejorativo a localização do Caensa porque fica logo após os muros do fundo do cemitério. Acabou virando ‘bairro do Fundão’, porque de certa forma, a cidade praticamente terminava ali”.

E é exatamente por causa deste apelido pejorativo dado àqueles que moravam próximo ao Caensa, a comunidade do “Fundão”, que surgiu o atual parceiro do Cidade Escola na região: Move Dance Brasil.


Os irmãos Rafael (esquerda) e Lucas, entregando doações.
É uma incrível história de superação de uma família, em especial, de dois irmãos, Rafael e Lucas. Histórias que passam pela desestruturação de famílias, de espaços da cidade não ocupados por aparelhos sociais, culturais ou de lazer. Como se viu, até aqui, desde seu surgimento como bairro, Aparecida (especialmente a futura região do Caensa), sempre esteve à margem de políticas sociais, e o crescimento rápido da região, nos últimos 20 anos, acabou gerando problemas que hoje a Prefeitura e o Cidade Escola, procuram ajudar a resolver.





O 1º grupo de dança de Rafael e amigos, "Dark Angels"
Rafael Rodrigues tem, hoje, 32 anos. Lucas Rodrigues, 25. Apaixonados pela dança de rua, Rafael, com apenas 14 anos, e amigos, montaram o primeiro grupo de dança, Dark Angels. “Quando começamos, o grupo tinha 9 pessoas (Tiago Reis, Sérgio Aparecido, Reinaldo Vieira Nenê, Éder, Petrochelys, Altyelis, Lucas Rodrigues, Rafael Rodrigues e Regiane). Dançávamos dança de rua, hip-hop, break dancing, dança urbana, não tinha nada a ver com os outros grupos que existiam na cidade que dançavam mais o axé. A gente nasceu e foi criado, aqui, no bairro Aparecida, e os meninos que dançavam com a gente moravam no ‘Fundão do Cemitério’, um lugar que tinha fama de ser um dos mais perigosos de Alfenas. Nosso ‘refúgio’ era a dança, para não entrar nesse mundo de drogas, violência, com tudo de errado que acontecia ali”.


Rafael e amigos, em reportagem da Rede Globo.
E justamente por ver tudo de errado na própria comunidade foi que Rafael e seu grupo de dança acabaram se envolvendo com o trabalho social desenvolvido até hoje. “Começamos a fazer o ‘Natal Feliz’, no Sesi. Eles perceberam que era uma necessidade, não só do bairro, mas da cidade inteira. O evento era uma vez por ano, só que arrecadávamos doações o ano inteiro. A Rede Globo veio filmar ‘nós’, na época, por causa das toneladas de alimentos que eram arrecadadas por um grupo de jovens entre 14 e 15 anos. Íamos para os bairros, não tínhamos carro, nada, íamos de bicicleta, carrinho de pedreiro, a pé, mochila nas costas, com um crachazinho no peito que o Sesi dava para ‘nós’. Voltávamos para o Sesi lotado de alimentos. Todo mundo ajudava porque as pessoas viam que éramos crianças, pobres, simples, pedindo para ajudar outras pessoas”.


E nunca mais pararam de dançar e ajudar os mais necessitados da comunidade. E de dançar também. O grupo de dança aumentando cada vez mais, com 30, 40 jovens, de várias idades e nomes diferentes. “Foi Dark Angels, Companhia de dança Scorpions, depois juntamos com a Rosana Moterani (Companhia Mineira de Balé, a maior do sul de Minas), que fazia balé, e nós ajudávamos com a dança de rua. Antigamente, quem gostava de dança de rua não eram os burguesinhos, eram os ‘malucos’, pobres, que gostavam de hip-hop. Íamos para os bairros pobres, nas escolas, dançar com as crianças. A gente dançava no aniversário da cidade, em festivais em diversas cidades, mas o que mais gostávamos mesmo era estar com o povão”.



Paulo Roberto e sua oficina de carpintaria  
Até que Rafael completou 19 anos e a sua vida e a de toda a família mudou radicalmente. Seu pai, Paulo Roberto, um dos moradores mais antigos do bairro Aparecida, carpinteiro há 40 anos, tinha problemas graves com álcool, e as brigas em casa, com a esposa, estavam destruindo a família. Rafael não suportava mais ver tudo aquilo acontecer. Foi quando aceitou um convite de sua mãe, para algo que jamais havia feito ou pensado fazer na vida. “Pelos problemas aqui de casa, um dia, meu pai brigou com minha mãe, e ela pediu para irmos à missa, não estava aguentando mais. E fomos na missa, família e os amigos do grupo de dança. Eu não tinha primeira comunhão, nada com igreja, nem gostava de padres. Na época, usávamos calça jeans rasgada, corrente, bem punk mesmo”.


Apresentação do grupo de dança Dark Angels
E o segundo convite inusitado, desta vez, feito pelo padre que celebrava a missa, mudaria de vez a vida de Rafael e sua família. “Ele se virou e falou: ‘vocês, que estão aí atrás (ele sabia que a gente dançava e todo mundo na cidade sabia que éramos meio loucos), vocês que dançam pro mundo, se forem homens de verdade, venham aqui e dancem para Deus’. A igreja estava lotada, um olhou para o outro e disse: ‘Vamos quebrar esse padre’. Minha mãe disse: ‘vai, vai, Deus te chama’. E fomos. Acostumados com músicas agitadas, batidas, pá, pum, pá, pum, da dança de rua, e, ali, aquela calmaria. Mas, quando vi, o povo todo da igreja dançando com a gente, aquilo mexeu comigo. Vivíamos em festas, mulheres, festivais de dança, casa lotada de troféus, éramos famosíssimos na cidade, mas eu não era feliz, família destruída, e o povo feliz com aquela besteirinha da dança que fizemos na igreja. Foi neste dia que senti a presença de Deus muito forte. Senti que Deus me tocou”.


Rafael e amigos da Aliança da Misericórdia, em São Paulo.
Uma semana depois Rafael e seu grupo já estavam dando aulas de dança, lotando o salão paroquial da igreja Nossa Senhora Aparecida. E, novamente, um novo encontro seria definitivo para transformar sua vida. “Aconteceu um encontro da Thalita Kum (TK), que é da Aliança da Misericórdia (Evangelização do Movimento Aliança de Misericórdia feita por jovens para os jovens). Vieram de São Paulo, uma experiência muito forte. É uma comunidade, uma organização não governamental, uma Ong, com trabalho social, uma corrente da igreja católica, mas completamente diferente, um dom que Deus deu aos padres. Eles vieram da Itália, eram muito ricos, e queriam ajudar os mendigos, só que a congregação deles não deixou. Fugiram, pularam o muro, e foram para as ruas de São Paulo, dormiam na rua com os mendigos, até que uma mulher doou uma casinha para eles. E foi assim que começaram o trabalho deles”.


Rafael em musical produzido
na sede da comunidade, em Taipas, São Paulo.
Rafael foi para São Paulo conhecer o projeto TK, no bairro Parada de Taipas, em uma montanha, onde os missionários mantinham um abrigo e entregavam a vida para ajudar ao próximo. “Trabalhavam dentro da favela, vimos as crianças que eles ajudavam, construíam casas para elas, davam alimentos. Um mês depois minha família inteira também foi. Fomos dormir nas ruas, Vale do Anhangabaú, com as crianças, na Cracolândia, Favela do Moinho. Logo na primeira noite, andando pelas ruas, tocando violão, cantando para aquele povo desassistido. No final, levávamos um monte de gente para o nosso abrigo. Fiquei doido com tudo isso e disse para mim mesmo: ‘vou ficar aqui’.


Rafael e o grupo missionário, na Praça da Sé, em São Paulo.
Rafael chegou a voltar para Alfenas e terminar os estudos, mas quase dois anos depois, ele e toda a família mudaram-se definitivamente para a comunidade religiosa. O pai passou a construir as casas de madeira na comunidade, a mãe, em diversos serviços. “Ficamos lá quase 7 anos, dedicados a Deus, não recebíamos nada, trabalho totalmente voluntário. Se chegasse comida, a gente comia, se chegasse roupa, a gente vestia, mas se não tivéssemos nada disso, ficávamos sem. O padre de lá era assim. Tinha 2 sandálias, 3 camisetas, 2 calças, só isso, desapego total”.





Rafael e amigos do grupo missionário
Outro fator que fez Rafael se apaixonar ainda mais pelo trabalho dos missionários era a desvinculação dos padres com a questão religiosa. “A comunidade recebia pastores da igreja evangélica, batista, faziam cultos lá, apesar de serem ligados à igreja católica. Não havia a questão religiosa, os padres queriam tirar as crianças das ruas. Dormíamos sexta, sábado e domingo nas ruas, sem nenhum real no bolso, só com a roupa do corpo”.







Rafael em apresentação da Cristoteca,
na Canção Nova, em Cachoeira Paulista.
E foi exatamente por não haver vínculo religioso que Rafael não abandonou sua paixão pela dança durante este período de vida. “Não deixei a dança neste período. Criamos a ‘Cristoteca’, que ficava no bairro do Brás. Toda sexta-feira, uma balada, sem bebidas. Foi aí que ‘estouramos’, no lado Gospel, Brasil inteiro. Não existia dança de rua, dentro da igreja. Eram 2, 3 mil jovens por sexta-feira. Viajamos o Brasil inteiro, várias capitais, cidades. A gente ia, dava um curso, não ganhávamos nada, só o dinheiro de passagem, alimentação, transporte”.







Rafael, Lucas e amigos missionários, em São Paulo.
Rafael e sua família viraram referência dentro da comunidade. Entre 150 missionários, eram os únicos, em família, numa congregação religiosa. Viram a história de suas vidas ser levada para vários cantos do país, do mundo, pois a comunidade implantava seu trabalho em diversos lugares. A história de vida conturbada de uma família inteira e sua recuperação tocava o coração das pessoas que enxergavam nela a possibilidade de uma mudança em meio ao caos.









Rafael em apresentação com missionários de São Paulo
Mas, com o tempo, eles foram se cansando, fisicamente. E Rafael, descobrindo que já era tempo de começar uma nova vida. “A gente não dormia, mesmo, madrugadas inteiras cuidando de senhores, senhoras, crianças, dependentes químicos, com problemas de saúde, nas ruas. Não foi só o cansaço físico, quando fui para lá, estava com a família destruída, não sabia o que era uma família. Comecei a pensar em ter a minha, casar, ter filhos”.








Rafael e Lucas
entregando doações
E foi o que fez. Há três anos, voltou em definitivo para Alfenas. No início, amigos, familiares, vizinhos, achavam que haviam “enlouquecido”, mas com o passar dos dias, viram que uma mudança real havia acontecido. 

Eram uma nova família. Com a vida de missionários deixada para trás, tiveram de recomeçar a trabalhar para sobreviver. 

Rafael voltou a trabalhar com o pai, na carpintaria, fazendo telhados. Reformaram a casa em que viviam, subiram novos pavimentos para poder abrigar a nova família que Rafael começou a formar, com mulher e um filho já nascido.









Não demorou muito para que a dança voltasse a falar mais alto em sua vida. “O pessoal começou a pedir para gente voltar a dançar. E fomos para as academias da cidade, já como Move Dance. Ninguém conhecia. Meu irmão que criou esse nome, porque é movimento, e a gente não sabe ficar parado. Mas o nome não ‘pegou’, éramos conhecidos como Lucas e Rafael da Haltere-se, uma academia da cidade. Só que de repente, nossas aulas passaram a ter muita gente. E começamos a ser chamados para várias academias da cidade”.






Vários integrantes do grupo Move Dance Brasil
E o Move Dance se fixou, definitivamente, explodindo na cidade, desta vez com o funk, o ritmo da moda com os jovens. E decolou quando passaram a fazer vídeos da companhia de dança Move Dance Brasil em um canal próprio do Youtube. “A gente dançava, gravava e colocava lá, do celular mesmo, só que aí começou a ter 20, 30 mil visualizações, gente de outros estados pedindo para irmos ao Paraná, Rio de Janeiro, dizendo que tínhamos de ir para lá nos apresentar. Ficamos loucos. Ninguém nos conhecia e da noite para o dia ficamos conhecidos no Brasil inteiro. Viramos um dos canais de dança mais conhecidos do Brasil. Ganhamos a placa de prata do Youtube. De toda Minas Gerais, fomos o primeiro a ganhar essa premiação, 100 mil inscritos em tempo recorde. Em 3 anos, já temos 400 mil inscritos”.


Ao contrário do que se poderia pensar, o sucesso não subiu à cabeça de Rafael e seu grupo de dança. Rafael continua com o trabalho de doações, interrompido por sete anos, quando foi ser missionário em São Paulo com a família. E esse trabalho social só cresceu. “Nós gostamos de ajudar as pessoas. Antigamente, a gente pedia de porta em porta, só que desde nosso retorno, com tanta gente na companhia, todos começaram a bater na nossa porta. Nenhuma doação para aqui em casa, chegou, a gente leva e entrega para quem precisa. Documentamos tudo, fazemos fotos, vídeos, dizendo quem doou, quem recebeu”.


E Rafael não se arrepende da experiência vivida como missionário. “Olhando para o que fiz, e o que faço agora, são momentos diferentes. Voltaria a fazer tudo novamente, só que lá, não havia preocupação com nada, dinheiro, bens materiais, hoje, a gente tem que correr atrás para sobreviver. Tudo que aprendi, lá, tento aplicar, agora. A gente não só doa as coisas para as pessoas, a gente convive com quem está recebendo algo que foi doado. 





Fazemos mutirões, ajudamos o bairro inteiro, hoje, por exemplo, levamos 15 cestas básicas, 300 kits de pipa, bet, bola, muitas crianças são beneficiadas. 

Mas, tem fins de semana que a gente vai na casa de uma criança, apenas. Minha mãe faz o bolo, levamos lá, brincamos com ela, convivemos, damos um abraço. 

A gente gosta de qualidade, não importa se é muito ou pouca gente. Cansei de ouvir crianças dizendo que nunca tiveram momentos como esse que a gente propicia a elas. 

Tem que dar calor humano. Não adianta apenas doar. Quando doamos pipas, ficamos juntos, soltamos pipas juntos, brincamos, nos divertimos juntos”.





Regiane "Samambaia", a primeira mulher
a participar do Move Dance.
O exemplo de Regiane Alves, 27 anos, se encaixa perfeitamente dentro do trabalho que Rafael e Lucas fazem durante todos esses anos de história e evolução do Move Dance. 

Ela dança desde os seis anos de idade e aos 10 conheceu os irmãos Rafael e Lucas, ou seja, está há 17 anos com eles, dançando e ajudando na arrecadação e distribuição das doações. 

De família pobre, chegou a passar fome e foi uma das que receberam doações da dupla solidária. 

E mais do que isso, passou a ser a primeira mulher a dançar com eles, há 17 anos, quando ainda eram chamados de Dark Angels.








Rafael, Samambaia e Lucas
Regiane virou “Samambaia”, por conta dos cabelos caídos, esvoaçantes, e também pela energia que demonstra nas apresentações que faz ao lado da dupla. Agarrou como pôde a oportunidade de permanecer dançando com os irmãos Rafael, Lucas e com dezenas de outros meninos e meninas que atualmente fazem parte do Move Dance. Agora, já dá aulas de dança, juntamente com Rafael e Lucas em uma academia da cidade. “Muitas crianças chegam e me dizem: ‘eu te amo’, não tem dinheiro que compre isso. Dança para mim é tudo, entrego minha alma quando estou dançando”, afirma emocionada Regiane. 


É exatamente isso que Rafael e sua Move Dance Brasil vem fazendo desde que começou a parceria nas atividades com o Cidade Escola: integrando, dando chances para que novos talentos apareçam, fazendo tudo com a alma, quebrando preconceitos e gerando opções de lazer e cultura para a comunidade.





Logo no evento de inauguração da nova sede da parceria, centenas de pessoas, de várias idades lotaram a rua João Pinheiro para dançar e se divertir. 

E não parou por aí. As ruas ficam lotadas todas as sextas-feiras. Em parceria com a área de saúde, na frente do PSF Caensa, ocorre um grande evento com brincadeiras, teatro, capoeira, pintura de rostos, check-up com equipe da secretaria de saúde, e, claro, muita dança, com a Move Dance Brasil.


Rafael tem uma resposta bem mineira para explicar tudo o que vem acontecendo em sua vida e a parceria com o Cidade Escola. 

Onde vai parar tudo isso? 

“Sei lá, deixa o ‘trem’ andar”.