segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Cidade Escola: Ti Rob, o fazedor de pipas


No próximo dia 24 de setembro um pedacinho de céu da cidade de Alfenas, mais especificamente, no bairro Pinheirinho, estará mais colorido. Após ser abandonado pela antiga administração pública, o Campeonato de Pipas, evento tradicional da cidade há 10 anos, retorna com força e apoio total do Cidade Escola.

Sim, Cidade Escola não é construído somente com atividades físicas, esportivas e culturais, mas também com eventos, gente na rua, convivendo, aprendendo e se divertindo. E quer coisa melhor do que empinar pipa, resgatar e preservar essa brincadeira que encanta de pequenos a marmanjos?


E a produção desta edição do Campeonato de Pipas não poderia ser feita por outra pessoa com apelido para lá de curioso: Ti Rob. Só por ele não, mas também pela inseparável esposa, Simone.

Este casal não é só apaixonado por pipas, mas, principalmente, por todas as experiências diárias que passaram a ter com crianças de quase todos os bairros da cidade. Pipas e crianças, duas paixões na longa e emocionante história de vida deste casal.


 Ti Rob além de ser apelido de um homem virou marca da loja que o casal toca com tanto esforço e carinho há mais de 15 anos na cidade. 

Mas, afinal, por que Ti Rob? A pronúncia correta de Rob é com o som de acento circunflexo na letra “ô”, e não agudo, de Rób. “Me chamo Roberval, ficou Rob porque os sobrinhos da Simone começaram a me chamar de ‘tio Rôb’. Outras pessoas ouviram e o apelido pegou, porque eles falavam rápido, e parecia estarem dizendo Ti Rôb. As pessoas passam, aqui, na rua, e me chamam: ‘ei Ti Rob, ei Ti Rob’, às vezes nem sei quem é, mas respondo”.










E ainda hoje, Ti Rob  nos telhados
Ti Rob já teve outro apelido, aos seis anos de idade, quando começou a paixão por empinar pipas. 

“No bairro Aparecida, próximo a igreja, existe o bar do meu pai, seu Nenê. Foi onde nasci e me criei. Ficava o dia inteirinho em cima de um telhado. Meu apelido no bairro até hoje é ‘caquinho de telha’. 

Era muito magro, petitico, e ficava lá em cima do telhado, empinando pipas, com a ‘flechinha (modelo de pipa no formato de um peixinho) na mão o dia inteiro”.











E Rob cresceu assim, sempre soltando e fazendo pipas, até chegar a adolescência e se apaixonar por Simone, sua esposa há 20 anos. Ele conta que conheceu Simone aos 16 anos. “ A gente brinca, porque digo que iria denunciar ela um dia por ‘abuso de menor’. A vida inteira ela mexeu com roça e minha família inteira também. Montava em boi, na roça do Ernani, na Companhia de Rodeio 5 Estrelas, que fica próximo do Clube do Banco do Brasil, no Pinheirinho. Trabalho até hoje, lá, como salva-vidas, quando acontecem os rodeios. Meu trabalho é chamar a atenção, distrair o boi, quando o peão cai, para não deixar ele se machucar”.


Rob, salva-vidas em rodeios
E as afinidades do casal pelas coisas da vida na roça os aproximou ainda mais. A paixão pelas pipas era algo ainda impensável. “Desde pequeno ele acompanhava meu cunhado, que levava bois do rodeio para outros lugares. O Rob gostava muito e ia atrás dele. Morei sempre no centro, mas a infância cresci na roça, no bairro Capoeirinha. Minha mãe teve 15 filhos, sou a caçula, me teve com 41 anos. Vivemos na roça, vida boa, dura, mas boa. Trabalharam a vida inteira na roça. Meu pai plantava e vendia de tudo: alho, batata doce, amendoim, tudo que se pensar ele plantava. E é vivo até hoje, 90 anos”, relembra Simone.












Rob namorou Simone até completar 18 anos. No ano seguinte, teve de servir o Tiro de Guerra, mesmo a contragosto, porque estava a caminho um personagem fundamental no surgimento do comércio com pipas, o filho Gabriel. Simone estava grávida e por isso Rob queria largar o Tiro de Guerra. Segundo ele, foi difícil conseguir a dispensa. “Teve concurso para ir para o Rio de Janeiro, Angra dos Reis, passei em tudo, era bom de correr, nadar, passei na aptidão física inteira. Eles me disseram: ‘você passou, mas para ir, não pode ter filho registrado em seu nome. Você decide, se for, não pode registrar seu filho’. Claro que não quis ir”, recorda Rob.


Gabriel e Rob, pai e filho, paixão por pipas.
O filho Gabriel foi também um dos responsáveis pela paixão do casal por pipas. Rob trabalhou durante quase oito anos na Unifi (Indústria de Tecidos), como “manipulador”, pegava caixas movimentando-as para lá e para cá, o dia inteiro. Até que um dia... “Deu tendinite, nos dois cotovelos, não aguentava erguer mais nada, tomava remédio, injeção. Cheguei a ir até Campinas para me tratar, mas nada resolvia, até que um dia, o médico da Unifi me disse: ‘Olha Roberval, sinto muito, não tem cura. Você vai ter que sair do serviço se quiser parar de ter dor’. Então respondi a ele: ‘Mas doutor, como é que vou sair se tenho que sustentar minha família?’”





Gabriel, sempre empinando pipas.
Não teve jeito, Rob teve de deixar o trabalho. Em um final de semana, quase 10 anos atrás, Rob saiu de casa, para comprar pipas, para brincar com o filho Gabriel. Foi até a Vila Betânia, na casa de um senhor de apelido “Paulista”, o único lugar de Alfenas que se vendia pipas. E a decepção foi enorme. “Quando cheguei lá, não quis vender e respondeu bravo para mim: ‘Vem depois, não tá vendo que estou lavando a grelha, agora é hora de churrasco, não é hora de pipa, não’. Fiquei sentido, voltei, vim embora”.

Rob estava desempregado; havia acabado de receber o que tinha direito da Unifi. Era pouco dinheiro, mas o suficiente para que o sonho de um casal começasse a acontecer, sem eles mesmo saberem. “Fizeram o acerto dele. Ele pegou um dinheirinho e me perguntou: ‘Por que você não vai para São Paulo, comprar roupa para vender, aqui?’, conta Simone. Nesse mesmo dia, Rob contou à mulher a história do vendedor de pipas. Isso parece que acendeu uma ideia na cabeça de Simone. “Foi quando disse a ele: ‘Poxa, só tem esse cara que vende pipa aqui e vocês gostando tanto disso. Por que não começa a fazer pipa para vender, então?’, questionou a mulher.



Ti Rob no início da loja
E assim começava a surgir a Ti Rob. “Não me esqueço disso. Fomos para São Paulo. Tinha sobrado uns 3 mil reais da rescisão do trabalho do Rob. Compramos 2 mil em roupas e 500 reais em pipas. Meus irmãos queriam nos matar, por ter gastado 500 reais em pipas”, lembra Simone, com um sorriso.

Com os 500 reais, Rob e Simone compraram de tudo um pouco, 250 pipas, carretéis de linha, rabiolas. O resultado do pequeno investimento, assustou o casal. “Chegamos aqui, colocamos todas as pipas na sala, aí, o Gabriel, nosso filho, falou para os amiguinhos dele daqui da região. Acabou tudo em 3 dias. Uma semana depois tivemos de voltar para São Paulo e comprar mais. De 500 reais, a segunda compra já foi de 1.200, tenho as notas fiscais até hoje. Dos 2 mil de roupas, tem gente devendo pra gente até hoje, enquanto os 500 reais das pipas, foi só aumentando. Graças a Deus”, relembra com orgulho Rob.





Deus e muito trabalho e suor do casal. “Era longe o lugar para comprar as pipas, muito complicado, pegar ônibus, metrô, com aquele tanto de coisa pra trazer. Era pra lá de Diadema, Vila Missionária, uma verdadeira ‘missão’ chegar até lá, muito sacrifício e sofrimento. Aí arrumamos um carro de um sobrinho da Simone pra ir, um Fiat, pequeno, mas eu e ele não tínhamos habilitação, então, a gente tinha que pagar um motorista pra ir com a gente. Quatro num carro pra trazer as compras de pipas”, recorda emocionado Rob.




Simone, fascinada pelos desenhos das pipas, lembra-se das primeiras compras em São Paulo. “Fomos no ‘escuro’, pesquisamos e encontramos uma loja de atacado na internet. Nenê Pipas, mesmo nome do pai do Rob. Era linda, enorme, faziam pipas com desenhos artesanais”.















Foi uma explosão de cores, desenhos e modelos. A loja de Ti Rob tornou-se rapidamente a alegria de milhares de crianças de Alfenas. Gente de todos os cantos da cidade e toda a região descobriu que havia uma loja de pipas “de verdade” em Alfenas, e a notícia se espalhou por cidades como Campos Gerais, Areado, Machado, Campo do Meio. “A gente vai a outras cidades soltar pipas, nos finais de semana, porque vendemos pra toda essa região. Tem muito freguês, compram para revender. A gente acaba fazendo amizade, aí todo mundo vai”, afirma Simone.



O casal compra as pipas em grandes quantidades, no atacado, mas Rob passou a produzir suas próprias pipas também e por uma razão simples, como empinador e fazedor de pipas desde os seis anos, ele sabe muito bem o que fascina uma criança. “Como vendem para o Brasil inteiro, eles colocam nos pacotinhos as mais bonitas do lado externo, mas, no meio, como não tem como abrir o pacote fechado, sempre acaba vindo várias rasgadas, feias, estragadas. O prejuízo era grande, então, comecei a fazer também, porque a gente gosta de boniteza, beleza. Fomos estudando e começamos a comprar as varetas, folhas, faço mais barato, sai mais no jeito. Faço desenhos também, tudo na mão, recorte por recorte. Chego a fazer 200 pipas num dia”.









Construir pipas é uma arte, exige técnica e conhecimento. Nos tempos de infância de Rob, os acessórios para construir uma pipa eram bem mais simples. Hoje, só estão mais sofisticados, mas continuam com a mesma finalidade. Antes, eram as latas de óleo, azeite, extrato de tomate, agora, são os carretéis coloridos que facilitam na hora de enrolar a linha. As latas hoje são pintadas e mais bonitas.

Os carretéis de mão são de plástico e chamados de “cones”, é possível encontrar em vários tamanhos, cores, modelos. Existem também as carretilhas, pequenas, médias e, enormes, que chegam a ter 24 mil jardas de linha.


Máquina para transferir linhas
dos carreteis para latas ou cones.
A tecnologia chegou também no mundo das pipas. Até enrolar a linha na lata, que era complicado no passado, ficou muito fácil. Nem esse trabalho as crianças têm. Com uma máquina, Rob transfere em segundos a linha do pequeno carretel para a lata, cones ou carretilhas. Outra máquina faz a “rabiola”, espécie de calda com fitinhas de plástico que vai amarrada no final da pipa.

E as próprias pipas, o que mais interessa a todos, também ganharam nova “tecnologia”. Antes, eram feitas em bambu ou varetas finas chamadas de “japonesa”. Agora, utiliza-se também varetas de fibra sintética.












Um modelo de raia
Os modelos continuam os mesmos, com nomes diferentes nas diversas regiões do país. Antigamente, existiam basicamente três tipos de pipas: “peixinho”, que pode ser chamado de flechinha; “raias”, um formato maior de peixinho e “maranhão”, a pipa tradicional. Em Alfenas, Rob constrói a “Chupão”, a antiga raia, só que bem maior; pipa “estilo pizza”, mais ligeira, larga, flexível, para pegar vento mais fácil e a pipa “murcha”, mais larga, com vareta mais mole, no ar, chega a murchar.

Tantos formatos de pipas são para permitir que elas voem mais rápido, e, também para debicar, ou seja, fazer a pipa ir para os lados, direito ou esquerdo com pequenos trancos na linha do empinador, ou realizar o ‘retão’, que é fazer a pipa debicar em linha reta para baixo por um longo tempo.









O modelo que Ti Rob prefere nas pipas
Entre tantos modelos de pipa, Ti Rob tem o seu preferido, criado por ele. “A estética tradicional é diferente, a vareta da horizontal, de baixo, é menor, para que a pipa fique mais ligeira, é bem mais ‘mole’, levanta e debica mais fácil, mergulha, faz de tudo”, garante Rob.

Ti Rob pode ser considerado um “designer” de pipas, pois ele garante que tudo é tirado de sua própria cabeça. “Minhas pipas foram todas construídas na intuição. A ‘centopeia’, por exemplo, nunca vi em lugar nenhum, fiz da minha cabeça. 



Centopeia criada por Ti Rob
Só tinha visto um dragão chinês, mas do formato daquela centopeia, nunca ninguém fez, e fiz no escuro”. E também com vários outros desenhos diferentes como a do Palhaço, Cowboy (vestido com calça de couro, cinto de fivela), Coração, e a Brasileira (pipa com quase 7 metros de altura que solta fumaça verde e amarela).









Foi com essas pipas, enormes, coloridas e lindas, que Rob e Simone conquistaram, em Alfenas, todos os campeonatos de pipas dos quais participaram desde 2011. A mesma competição que, eles ajudarão a organizar junto com o programa Cidade Escola. A expectativa é enorme. “Faz quatro anos que não acontece. Esse campeonato foi criado pelo Elvis há uns 10 anos. Antes, existiram outros (décadas de 1980 e 90), organizados pelo Paulinho “Gasolina”, no motocross, indo para a Vista Grande, próximo aos predinhos do Jardim São Carlos”.




 As regras da competição, continuam as mesmas. “São quatro categorias: a maior e menor pipa, a mais criativa, a mais bonita. E uma regra obrigatória: tem que ficar no ar pelo menos 2 minutos, cronometrados. Vamos premiar também o pipeiro mais novo, mais velho, categoria feminina. Eles ganharão vários tipos de prêmios, mas o mais importante são os 500 kits que o Cidade Escola vai distribuir, gratuitamente, com uma pipa flechinha, rabiola e linha”.




E assim as pipas de Ti Rob vão continuar a colorir o céu de Alfenas, integrar e aproximar pessoas, princípio norteador do programa Cidade Escola. Rob e Simone conhecem essa rotina há muitos anos, viram gerações crescerem diante dos seus olhos, tudo por conta da paixão que eles e a garotada têm pelas pipas.






A foto que até hoje emociona Rob e Simone.
Emocionados, Simone e Rob fazem questão de mostrar uma foto que revela exatamente isso, os princípios do Cidade Escola e a paixão deles, pelas crianças, pelas pipas. “Olha isso, estão todos grandes, quase homens feitos hoje. Essa foto resume muito a cidade, garotos de vários bairros como Vila Betânia, Pinheirinho, Santa Rita, e outros, cada um de um bairro, comprando pipas aqui, na mesma hora. Às vezes, ficamos eu, o Rob e o Gabriel (nosso filho) vendendo, e a loja lotada, com gente até fora, na calçada, na rua. Junta muita criança”.


E a razão para tanta emoção pessoal é simples.  “Todos nos chamam de tios, tia Simone, tio Rob, pegamos tanto carinho que acabam virando quase filhos da gente”, reconhecem, com lágrimas nos olhos.








































segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Cidade Escola: Evoé, muito mais do que teatro


Entre as dezenas de atividades oferecidas pelo programa Cidade Escola à população de Alfenas, existe uma “especial”, pelo que propõe e pelo lugar onde é realizada. Trata-se da Oficina de Teatro Evoé, desenvolvida no Teatro Municipal, um espaço histórico da cidade.

Em 40 anos de vida, jamais o palco do teatro alfenense esteve tão ocupado, em todos os dias da semana e com as portas abertas para toda a comunidade. Nos últimos meses, circulam por esse local histórico uma média semanal de 80 pessoas, entre crianças, jovens e adultos, só nas oficinas do Teatro Evoé, sem contar o curso de oratória do professor Nivaldo Martins, ensaios e apresentações de peças.


É lindo (e importantíssimo) ir ao teatro, assistir a uma peça, sentado confortavelmente em uma cadeira, porém, ao conhecer o trabalho proposto e desenvolvido nas oficinas do Teatro Evoé, percebe-se que esta atividade do Cidade Escola vai muito além de um espetáculo.

Poucos sairão dali artistas, mas, com certeza, terão uma nova postura de corpo, mente e visão de sociedade, especialmente, de cidadania. Tudo acontece em torno de uma série de exercícios ou atividades realizadas em grupos, no palco, extraídos de várias técnicas de preparação de atores. Os grupos são divididos por faixas etárias, de 6 a 14 anos e de 15 anos em diante. Nada fechado. “O conceito das oficinas é aberto. Se uma criança quiser entrar hoje, ela entra, a porta não fica fechada. Não é necessário fazer matrícula no começo do ano, embora quase todos estão aqui desde o começo. Se alguém descobrir, no meio do ano, que tem essa oficina, entra. Nós não voltamos para esse aluno que entra no caminho. Ele vai assimilar o que está acontecendo e se adaptando”.


Anselmo Cesário, em atividade da Oficina de Teatro Evoé
A afirmação é de Anselmo Cesário, diretor do Teatro Municipal, coordenador do Cidade Escola e da Oficina de Teatro Evoé. Anselmo “respira” teatro 24 horas por dia, mas não apenas com a visão de formar atores. Pelo contrário. É formado em História, fez especialização, MBA, em Planejamento e Gestão Estratégica, Gestão e Organização da Escola, além de ser tutor, há 7 anos, no curso de Pedagogia, na Unopar (Universidade Norte do Paraná). Anselmo é uma pessoa preocupada com o ser humano. Teatro sempre foi sua paixão. Dos seus 36 anos de vida, metade foi dedicada ao teatro, como ator e diretor teatral, um dos mais experientes e respeitados em Alfenas. 


Parece impossível, mas mesmo trabalhando grupos de crianças e jovens que, na grande maioria, nunca foram a um teatro, ele conseguiu, em pouquíssimo tempo, fazer com que tomassem contato com alguns nomes importantes como Augusto Boal (criador do Teatro do Oprimido, metodologia que utiliza o teatro como ferramenta de trabalho político, social, ético e estético, contribuindo para a transformação social), Viola Spolin (diretora norte-americana, considerada a avó do teatro improvisacional, explorando as relações entre o ato da experiência e a metodologia de improvisação dos jogos teatrais), Stanislávski (um dos mais influentes pensadores teatrais do século XX, seu “método” de preparação de atores e criação de personagens representou uma verdadeira revolução no fazer teatral ocidental), Grotowsky (criador do Teatro Pobre, um teatro praticamente sem vestimentas, baseado no trabalho psicofísico do ator) ou Brecht (criador do teatro épico antiaristotélico, sua obra fugia dos interesses da elite dominante, procurando esclarecer as questões sociais de sua época), todos, nomes consagrados de várias escolas do teatro mundial.  


 Assim, a ideia é transmitir um pouco de cada escola teatral na Oficina de Teatro Evoé. “Enfocamos bastante o aspecto físico, a questão da concentração, respiração. Trabalho com dois métodos, costumo misturar Viola Spolin, que é o teatro-educação, e o Teatro do Oprimido, que é do Augusto Boal. Dentro desse espaço, trabalhamos também com outros conceitos. E vamos misturando. Sem eles saberem, estão ‘consumindo’ tudo isso, todos esses saberes, essas escolas de teatro do mundo”, afirma Anselmo.


E que exercícios são esses, afinal, que mexem com criatividade, concentração, comportamento e autoestima? “No exercício das cadeiras, por exemplo, se formarmos um grupo com três crianças, colocamos quatro cadeiras, uma do lado da outra, no palco. As três crianças têm de ficar em pé, em cima das cadeiras. A primeira, sem tirar os pés do lugar, tem que pegar a cadeira vazia e passar para o companheiro em pé, ao lado, e assim, sucessivamente, até dar uma volta inteira no palco”, explica o coordenador Anselmo.

Parece fácil, não é mesmo? Mas não para todos. “Para nós, adultos, é superfácil, mas para uma criança é bem mais difícil. Ela trabalhou a parte física, a parte de concentração, porque precisa concentrar. Olhando de fora, parece muito simples. Só que você está num espaço de desequilíbrio quando está em cima de uma cadeira. Também vou exercendo uma certa pressão durante o exercício: ‘dez segundos, gente, vamos lá’, que é para aprenderem a trabalhar sob pressão”.


Em outra atividade, que faz parte da mesma oficina, começam a surgir respostas diferentes das habituais. A ideia é incentivar o jovem a desenvolver opinião. “No final das oficinas, fazemos as ‘considerações finais’, cada um fala sobre o que sentiu ou observou. Temos um método de ‘cortar palavras repetidas’. Não pode responder, apenas, ‘gostei’, ‘adorei’, ‘legal’, que é o vocabulário utilizado por eles. E assim começam a formular respostas. Quando digo que é ‘legal’ é porque não quero dizer mais nada, encerrar o assunto, ou seja, eles começam a criar repertório para emitir opinião”, garante Anselmo.



Certo dia, uma dessas considerações finais, após o exercício das cadeiras, surpreendeu o coordenador Anselmo. “Temos uma criança pequena, mimadinha (como todas são) que teve muita dificuldade de fazer o exercício. No final, ela disse em seu depoimento ao restante da turma: ‘Quero agradecer a fulano, sicrano e beltrano, por terem me ajudado na atividade’. Disse isso depois para a mãe dela e ela não acreditou, pois não tinha esse hábito em casa. Uma atividade aparentemente simples, mas que ela teve dificuldade e precisou das outras. Isso é educação. E não precisamos ensinar nada a ela, muito menos dizer que precisava agradecer aos amigos que a ajudaram”.


Outro exercício que parece simples é o da “espada de pau”. De frente para o grupo, o coordenador da atividade simula os movimentos de uma espada imaginária, para a direita e para a esquerda, como se estivesse na altura do pescoço da pessoa. A cada movimento, o grupo deve se deslocar para a direção que ela aponta. “Parece uma coisa muito simples, mas você está desconfigurando o teu cérebro, porque a tendência, quando o grupo está de frente para a espada é acompanhar o mesmo sentido dela, quando, na verdade, deveriam ir no sentido contrário. Em vários momentos, acaba virando uma bagunça, com vários indo para um lado e vários para outro. Parece uma bobagem, mas os adultos ficam exaustos, porque trabalha a parte de concentração”.

Com base nesses exercícios aparentemente simples como estes é que os alunos da Oficina Teatro Evoé acabam entendendo a parte prática do teatro. “Quando se está no meio de uma peça, é uma ‘muvuca’, coisas dando errado, lá atrás das cortinas, coisas na frente não funcionando, luz e som que não saem na hora, e o ator precisando manter a concentração com isso tudo não funcionando para manter a qualidade do que está fazendo no palco”.


E assim, sutilmente, de conversa a conversa, aplica-se algo tão comum e que falta tanto para as pessoas no dia a dia: concentração. “Sobre esse desconcentramento no caos, costumo dizer a eles que ninguém é responsável pela sua concentração, só você. Tendemos sempre a jogar a culpa no outro. Não fiz uma boa prova porque a sala estava bagunçada. Não li meu livro, porque o vizinho estava fazendo festa. Se nos concentrarmos, e tivermos esse instrumento de concentração, não precisaremos do silêncio total. Se disser, aqui, ‘eu sou o centro do universo’, acaba, porque você é responsável pela sua concentração”.



Crianças preparando esquete na Oficina de Teatro Evoé
A Oficina de Teatro Evoé é lugar para interação, liberdade de expressão e criação. Apesar de Anselmo garantir que utiliza pouco a técnica de esquetes (pequena peça ou cena dramática) nos grupos, os resultados alcançados surgem rapidamente. “Hoje, por exemplo, com várias crianças pequenas, pedi para que cada grupo escrevesse uma frase, num pedaço de papel, e, sem eles saberem, na sequência, troquei entre eles. Um grupo tinha que fazer um esquete com a frase do outro. Saíram frases como: ‘Fui ao banheiro’, ‘A cortina preta me assusta’, ‘Estava sentado no banco’, a diversidade de temas é sinal de que o grupo já não está muito com o pensamento uniforme, não existe mais aquele senso comum”.


Relaxamento no final das atividades da Oficina
A criatividade não vem do nada. “Depende de algumas coisas. Primeiro deixamos eles com o corpo e mente livres. Encerramos, sempre, após o agito todo da oficina, com todos deitados, ouvindo vários tipos de música para relaxar, até da cultura indígena. Não é um relaxamento qualquer, existe uma técnica. Todos têm que ficar com os calcanhares juntos, a mão virada para cima. Com os pequenos, claro, o relaxamento pleno é difícil, mas, mesmo nesta fase, começam a perceber que é possível isso, o que a escola tradicional não consegue, ou não tem tempo, e, muito menos, interesse em fazer. É o que as escolas deveriam fazer todos os dias, antes e depois de terminar as aulas”.

É o que garante o coordenador Anselmo, que vai além, na relação teatro e escola. “Aplico muito do conhecimento adquirido com a pedagogia nas oficinas, assim como a oficina me fornece um rico material para utilizar na formação dos futuros (as) pedagogos (as)”.


De que forma? E qual a razão? “Trabalhamos a descontrução física, porque a escola obriga o aluno a ficar no senta e levanta da cadeira, parecendo um robô, levantando a mão para poder falar, não podendo se expressar. Isso tudo acaba transformando os jovens em robôs. Não há resultados científicos, mas o que formata as pessoas é o mapa de sala. Costumo perguntar aos alunos: ‘vocês perceberam que quando vão à igreja se sentam no mesmo lugar, sempre?’. Em casa, acontece a mesma coisa. É a escola que formata esse comportamento. Por que professores fazem mapa de sala? Porque colocam o arteiro e um quietinho, e isso vai privar o quietinho de também fazer alguma arte que o arteiro tem muito mais liberdade. Aqui, na Oficina, misturamos tudo”.

E histórias de superação surgem a cada dia, nas oficinas do Teatro Evoé. “Temos um menino que não queria participar de um grupo, é especial, mas é superdotado. Ele é capaz de dar uma aula de física quântica. Fizemos uma atividade de ‘corda imaginária’, que parecia uma aula de Física, pois tem força, velocidade e outros conceitos. Eu explicava numa linguagem para leigo, e ele começou a intervir, explicando toda a teoria da Física. É muito inteligente, mas, na convivência, não sabe se expressar de maneira simples, prática”.


E a sequência de oficinas do Teatro Evoé acabou mudando por completo o comportamento deste garoto. “Soube por uma professora que a mãe deste menino falou sobre a melhora do filho, que a escola onde estuda chegou a gravá-lo durante a apresentação de um trabalho escolar e enviado o vídeo para a mãe. Ele não tinha condição nem de apresentar trabalho em sala de aula, mesmo sendo tão inteligente. Digo tudo isso porque a professora da escola creditou toda essa melhora ao trabalho desenvolvido no teatro”.

Assim como esse, são inúmeros os casos de superação que o coordenador da Oficina de Teatro Evoé presencia quase que diariamente, o que mostra o quanto é importante essa atividade do Cidade Escola. “O conceito que trabalhamos aqui é o da liberdade. Essa transformação dos jovens é porque começam a se expressar, coisa que a escola, a educação tradicional, não permite. Um menino chegou aqui, tão tímido, com as mãos para trás, cabeça baixa, para falar com a gente. Perguntava a ele: ‘qual o seu nome?’. E ele não respondia. Vi seus olhos lacrimejarem, tamanha era a dificuldade dele se expressar. Ano passado, ele já fez apresentação na praça. Em menos de um ano, já participou também de uma peça no teatro daqui e no de Fama”.


O retorno para quem acompanha essas mudanças é gratificante, como conta Anselmo. “A mãe ficou tão impressionada e grata que fez um agradecimento público, em nossa página no Facebook, falando sobre o quanto o filho tinha mudado, quanto tinha melhorado na escola, e o quanto a família estava feliz, pois estavam muito preocupados com o sofrimento dele por ser tão fechado. Teve dias de ele chorar durante a oficina, a criança fica sensível. Digo a eles que quando estão no palco, estão nus, porque, aqui, não tem como ser personagem, é você. Nas oficinas, acabamos conhecendo todos, muito, intimamente, porque tudo que se coloca ali é sobre a pessoa, principalmente, as crianças. O palco te desnuda, ali você começa a se construir, perceber qual a sua voz real, teu limite, ou não, seus trejeitos”.

Casos como estes fizerem Anselmo descobrir o valor de seu trabalho. “Emociona, porque quem trabalha com arte, sempre se pergunta: ‘para que serve o meu trabalho?’. Um pedreiro, a gente vê a casa, mas, e o meu, para que serve? E quando ouvimos isso de uma mãe, publicamente, é incrível”.


"Vamos virar a esquina porque ninguém virou", no Jd. São Carlos
O trabalho da Oficina de Teatro Evoé não para de dar frutos. Os pequenos, menores do grupo, já se apresentaram em 12 escolas da cidade. Com os adultos não foi diferente. Da preparação e treinamentos feitos nesta atividade do Cidade Escola já surgiram dois grupos que começam a “voar” pelos palcos da cidade. Um é o coletivo “Vamos virar a esquina porque ninguém virou”. “Só pelo nome, percebe-se a criatividade. Fizeram, recentemente, no condomínio Jardim São Carlos, um espetáculo, ‘O cavaleiro branco, do cavalo preto e branco’, sem a necessidade de figurino, cenário, luz. Criaram um espetáculo só com a criatividade, sem ficar reclamando da falta de recursos. Já foram convidados para participar de um Festival, na cidade de São Lourenço. Começaram a ganhar ‘asas próprias’”, diz com orgulho, Anselmo. O outro grupo saído das oficinas do Teatro Evoé é o Quimera. Nos dias 18, 19 e 20 de agosto, estrearam no Teatro Municipal a peça “O Casarão”.


Anselmo Cesário,
na peça "Cortiço Madame Suhja"
Anselmo tem razões de sobra para estar orgulhoso com o trabalho desenvolvido pelas oficinas do Teatro Evoé, afinal, sentiu na pele durante toda sua trajetória, como ator e diretor de grupo teatral, todas as dificuldades e restrições impostas para quem sonha com os palcos. “Meu primeiro curso de teatro, aqui, era quase impossível de se pagar, um salário mínimo para 10 horas de curso. Mas foi decisivo, porque minha mãe chegou e me perguntou: ‘você quer fazer? Vai’. Era caro demais, o salário mínimo era 120 reais e o curso em 10 horas também. Mas essa resposta dela foi definitiva para mim. Ela não questionou se era caro, que seria bobagem gastar tanto dinheiro com isso”.

O sonho de viver do teatro, contudo, começou antes de virar realidade. “Uma coisa que falo com orgulho e ninguém vai contar na história é que o teatro em Alfenas sempre foi de elite. Só comecei a fazer teatro com 18 anos, porque era muito fechado. Lembro de um dia, quando tinha 14 anos e passei na frente do teatro, de ônibus. Olhei para ele e disse para mim mesmo que um dia iria me apresentar ali”.


A afirmação de Anselmo sobre o histórico elitista do teatro alfenense não é baseada em achismo. Como diretor do Teatro Municipal, pesquisou a fundo, incluindo visitas ao Arquivo Público, para conhecer e entender sua origem e evolução. “Foi inaugurado em 1977 e criado para as peças do Waldir de Luna, um dramaturgo, que tinha seus textos sempre interpretados por um grupo de teatro bem forte na cidade chamado TAC, Teatro Alfenense de Comédia. Eram só eles, a elite. O palco do teatro era todo pintado de branco, as portas azuis, janelinhas pintadas na parede, ou seja, era uma fazenda, e de gente rica, um teatro monotemático, todos os conflitos aconteciam em uma sala. Só depois da primeira reforma que esse cenário foi retirado, pintaram de preto, aumentaram o proscênio”.


Souza Filho e Raul Pichitelli, do Grupo Guarani.
Mas Anselmo também encontrou em suas pesquisas a importância de outros nomes nas origens do Teatro Municipal. “Existiam grupos como o Guarani, do Souza Filho, e o Raul Pichitelli, além de outras pessoas. Se os dois hoje são nomes conhecidos na TV local é por conta deste trabalho deles no teatro. Souza Filho tinha um trabalho interessante, com um teatro itinerante, ia para os bairros, transformando um caminhão em palco. Tem que se fazer justiça a eles, o teatro deles era muito popular, bem-feito, roteiros bons, com a preocupação de trazer mais gente, não ficar só preso ao palco do teatro”.




Cine Alfemas, também utilizado para peças teatrais
Antes da construção do Teatro Municipal, em 1977, o teatro alfenense era apresentado em vários espaços. 

“Tinha o antigo Centro Católico, que fica na avenida São José. Existia um palco, ali, bem pequeno, mas bem arrumadinho. 

Teve também o Cine Alfenas, que também era utilizado para se fazer teatro. 

Mas o mais interessante é que Alfenas teve um teatro ‘particular’, da família Lomonte”.


A partir do ano 2000, Anselmo começou o seu  longo percurso na história do teatro alfenense, sempre com o objetivo de “misturar tudo, gente de todas as classes, idades”. São inúmeros projetos, como “Histórias e Estórias do Brasil”, “Prazer em conhecê-lo” (teatro itinerante), “pãofogehomemmigracadêlei” (em parceria com a Unifal), “Cortiço Madame Suhja”, “Cara... vela”, “A terra desencantada do Bu” e várias outras.

Com seu grupo chamado Mundo, Anselmo levou Alfenas para terras distantes, Moçambique, na África, quando apresentou a peça “Cara...vela”. 

A peça fala do tráfico negreiro, mas como se os escravizados estivessem fazendo o trajeto de volta à África.








Apresentação de "Cara...vela", no presídio de Alfenas
Foi em uma exibição desta peça, aqui, em Alfenas, em um lugar incomum, que Anselmo teve a certeza de uma das coisas que considera mais importante no teatro, na vida, e que também é um princípio integrador do programa Cidade Escola: não subestimar as pessoas. “Meu grupo de teatro já se apresentou duas vezes no presídio, sem ter grades para nos separar. Isso é raro. Eram 300 presos, no pátio, se apresentando com duas meninas, com roupas, que para esse pessoal do presídio, era sensual, e nós não subestimamos. Não chegamos lá, pensando em fazer uma ‘peça para o presídio’. Quando apresentamos ‘Cara...vela’, foi decretada trégua, sabe o que é isso? Trégua representa todos eles juntos. É uma coisa que nos deixou profundamente tocados, separou um sistema inteiro de agressões”.


E assim, no palco do Teatro Municipal, pelas ruas, escolas e onde houver espaço para a reflexão e integração, Anselmo levará os frutos que a atividade do Cidade Escola tem conquistado até agora com a Oficina de Teatro Evoé. 

É como ele define: “a arte tem que servir as pessoas”.