segunda-feira, 3 de julho de 2017

Cidade Escola: Quem dança é mais feliz


Entre as diversas atividades oferecidas pelo Cidade Escola existe uma que é a mais procurada  por pessoas de todas as idades. São as aulas de dança do professor Marinho e seus “discípulos”. Elas acontecem em vários núcleos do programa, como nas escolas Tancredo Neves, Beija-Flor, Caic e Caensa e, só nestes locais, o número de participantes já chega a quase 600.

Não é uma aula qualquer. Em algum ponto da cidade, todos os dias, haverá turmas enormes dançando ritmos variados e misturados como  axé, sertanejo, funk e salsa, tudo com coreografias trabalhadas cuidadosamente pelo professor Marinho e sua equipe.


A procura tão grande pelas aulas de dança não se deve exclusivamente à atração natural que a atividade causa nas pessoas. Há uma razão especial para tanto sucesso: o nome do professor responsável pelas aulas.

Mario Riuto, ou melhor, professor Marinho é nome para lá de conhecido em toda a cidade há 40 anos. A dedicação e paixão pela dança transformaram a Cia de Dança by Marinho, em uma grife, uma referência, não apenas em Alfenas, mas em diversas cidades da região e pelo Brasil. Um longo caminho de sacrifícios para conquistar tanto reconhecimento.


Uma viagem que começou em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, cidade em que nasceu em 1969. O pai também é muito conhecido em Alfenas desde 1976, ano em que a família chegou à cidade e montou o autoelétrico Tókio. Marinho tinha 7 anos quando conheceu Alfenas, por isso, costuma dizer que é “paulista de nascimento, mas coração alfenense”, por ter vivido a infância e adolescência por estas terras. Estudou nas escolas Samuel Engel, Polivalente, mas, a grande escola que ele iria enfrentar pelo restante de sua vida seria a da dança.

Mas como a paixão pela dança teria começado? “Desde criança sonhava ser um profissional de dança. Veio do nada, de ver a televisão, na época não havia programas voltados para a dança, só clipes. Uma referência ou outra era o Michel Jackson dançando, um show da Dana Summer, Diana Ross. Olhava isso tudo e dizia, ‘que legal’, mas, não sabia nada, não tinha noção de nada, ficava ali, só brincando”, recorda Marinho.


E não fosse a decepção sofrida, por não saber dançar, quando tinha 13 anos, Marinho talvez não tivesse chegado tão longe com a dança. “Comecei a frequentar festinhas, na casa de um e outro, e minha carreira acabou começando num ‘fora’ de uma menina. Cheguei para dançar (naquela época tinha a vassoura que ia passando, e ela sempre sobrava para mim). Disse a mim mesmo: ‘tenho que chegar nessa menina, vou ter que dançar’. Só que quando cheguei perto dela, para entregar a vassoura, pisei no pé dela. E então ela me disse: ‘primeiro você vai treinar, para depois dançar comigo’. Foi então que disse para mim mesmo que iria aprender a dançar, realizar esse sonho”.

Marinho foi atrás, mesmo. Passou a fazer aulas de todos os tipos como aeróbica, jazz, dança de salão, com as professoras Beth Vinhas, Luz Marina, Katia, mas descobriu, também, que não era bem isso que queria fazer.


Vôlei em Alfenas
Neste mesmo período da vida, Marinho descobriu outra de suas paixões, além da dança. “Montei uma escolinha de voleibol junto com amigos entre 14 e 16 anos. Era levantador. Criei um evento chamado Fest Vôlei, na necessidade de fazer alguma coisa, e que acabou se transformando em um dos eventos que mais lotavam os ginásios. Fiquei dois anos como organizador dos eventos e jogando. O professor Robson registrou para ele, deu continuidade no evento, e eu continuei com a dança. Sempre assim, batendo uma bolinha e levando a dança”.

Marinho sempre foi agitado, mesmo. Além do vôlei e da dança, havia ainda outra carreira que poderia dar certo, nas incertezas dos caminhos da vida a seguir. “Eu e meu amigo Davi Engel montamos uma banda chamada Contato Imediato. Nessa banda, o vocalista era o Rogério Flausino (futuro vocalista do Jota Quest); o guitarrista, Wilson Sideral; eu, o baixista; Davi, guitarrista; Fernando Margarida, o tecladista; e o baterista, Henrique. Eu tentava levar os três, dança, música e vôlei. Uma hora, tive de optar. Na música, era só vontade. Fazíamos shows em festas, bares, por toda a região. Eu queria estar no palco. Mas descobri que a música não era para mim”. Melhor para a dança.


Ele queria dançar. E seguiu atrás de seu sonho. Aos 18 anos chegou a oportunidade de dar sua primeira aula, de aeróbica, na Academia Six Estética. Não tinha formação nenhuma, só vontade, mas mesmo assim, convenceu seus alunos, pois, o boca a boca de que havia um garoto dando aulas de aeróbica correu as ruas. Depois, foi para a cidade de Elói Mendes, na Academia Corpore, dar aulas de aerofunk. Tudo na base do improviso. “Não sabia nada, aprendia na base dos livros, vídeos, ver os movimentos, como fazer. Na verdade, eu mais dançava para mim do que ensinava. Passava a coreografia, saía dançando e o pessoal acompanhava, no final virava uma aula. Era um improviso total. Ganhava quase nada, mas no começo era tudo para aprender. Tinha o dinheiro da passagem, da comida, meu pai falava para eu estudar, mas o que eu queria era a dança”.


 O professor de dança é o que se chama autodidata total. Até que percebeu a necessidade de se especializar em alguma área da dança. Decidiu pelo street jazz e pela dança de salão. Mas, como seguir em frente, sem ter um mestre, alguém para lhe dar os caminhos para a profissionalização? Marinho não poderia imaginar que este caminho estava bem distante de Alfenas, do Brasil. Em 1991, casou-se, teve a primeira filha e uma grande interrogação: como sustentar a família? A resposta estava em outro continente, outra cultura, longe de tudo e de todos, nas origens de seus antepassados. Apesar da ajuda da família, Marinho havia decidido. “Meu pai me ajudou muito. Construiu uma casa para mim, para começar a nova vida. Mas não era isso que queria, e fui buscar. Meu pai é nissei e eu sou sansei. Fui para o Japão. Deixei esposa e filha. Fui embora, seja o que Deus quiser”.





No Japão, Marinho começou a trabalhar como operário, em fábricas. Seus primos já estavam por lá havia algum tempo. Era a época dos Dekasseguis, brasileiros, descendentes de japoneses, que partiam em busca de trabalho. Viveu e trabalhou no Japão entre 1991 e 1995, sem nunca abandonar o sonho da dança. Mesmo só tendo uma palavra conhecida em japonês, “arigatô”, Marinho se virou como pôde, falou aos japoneses que ia conhecendo que tinha o sonho de se profissionalizar na dança. Surgiram, então, sugestões de algumas academias.

E lá foi ele aprender, ter aulas, a base de seu futuro na dança. “No começo, fiquei em trânsito no Japão, indo de uma fábrica a outra para trabalhar, até entender. De 1992 a 1995, eu busquei a disciplina, cultura, essa referência da dança por lá. É um país que dança muito. Desde criança todos tem oportunidade de dançar. Você vê uma senhora de 70 anos dançando com uma de 13. Tinha aulas lá, para aprender a como montar uma coreografia, como ter uma musicalidade melhor, como buscar uma alternativa de a dança ser um negócio para a sua vida. Essas aulas foram referências para mim”.


Marinho aprendeu de tudo um pouco, street dance, hip-hop, jazz. Morou em várias cidades como Yokohama, Fuji e Numazu. E chegou até a montar um grupo de dança, com nome muito estranho. “Leptospirose Júnior. Chegamos a ganhar concursos de dança. Mas não queria isso, só ganhar concursos, queria transitar entre a dança, um negócio, o bem-estar, ir além da sala de aula, trazer tudo isso para o Brasil”.








Apresentação MD Swing, no programa Raul Gil

A saudade do Brasil, bateu forte, após cinco anos vivendo e dançando pelo Japão. Marinho voltou em 1995 e no ano seguinte montou uma academia própria, com o amigo Davi, dos tempos de banda. Surgia, assim, a companhia de dança MD Swing. Foi um sucesso. Portas abertas para um novo mundo, novas oportunidades, sonhos maiores. “Foi com esse grupo de dança que fui parar em vários canais de televisão no Brasil. Tudo por conta da disciplina, conduta, forma de organizar uma equipe, logística de trabalho”.

Canais de TV? Como assim? Como o próprio Marinho afirma, uma “ideia que surgiu do nada”. Um dia gravou um vídeo com sua equipe de dança, pegou um ônibus e foi para São Paulo com a fita debaixo do braço para tentar fazê-la chegar às mãos de algum produtor da TV Record, emissora que organizava concursos de dança. Chegou às três da manhã, passou frio, mas conseguiu o que queria. Entregou o vídeo ao produtor Aranda, que lhe garantiu um retorno, pelo esforço incrível que havia feito. Marinho não acreditava, era só mais uma forma educada de dizer não. Mas, uma semana depois, o telefone de casa tocou. Marinho e equipe foram convidados pela produção do programa Raul Gil para participar de um teste. “Arrumamos uma Van e fomos. Éramos 15. Chegamos lá, um aparelho de som bem pequeno. Eles perguntaram: ‘o que vocês vão dançar? ’. Dissemos: ‘um remix’. O pessoal todo tremia. Mas demos o máximo. Foram 12 minutos de teste”.


                                                               
Duas semanas depois, a resposta, por telefone. “Vocês passaram, vão entrar no concurso. Fizemos cinco vezes o Raul Gil, porque era um concurso nacional. Entre essas apresentações, fomos convidados para participar dos programas “A casa é sua”, da Rede TV; “Super Pop´”, na época com a Adriane Galisteu; “Note e Anote”, da Claudete Troiano; chamados para casas noturnas em São Paulo, a Band FM chamou para um trabalho de abertura do Verão Vivo”.

E não foi apenas isso. “No concurso nacional ficamos entre os quatro finalistas. De 270 grupos de dança, ficamos em terceiro. Aí a MD, em Alfenas, deslanchou. Foi o primeiro grupo de dança daqui a entrar com o axé, mas o axé comportado, como costumava dizer. Através da dança a gente conseguiu conquistar muita coisa. Uma referência, uma base, uma disciplina, uma conduta”.

Foram quatro anos de sucesso, como a maior academia de Alfenas. Em 2000, passou a trabalhar na prefeitura, como chefe de divisão de esporte e dando aulas gratuitas por vários bairros da cidade pelo projeto que ele mesmo criou: “Quem dança é mais feliz”. 


                                                   Apresentação professor Marinho, no IB FOX, Japão.

Marinho estava feliz, mas, em 2003, o lado financeiro bateu mais forte quando surgiu uma proposta para voltar ao Japão. Foram mais seis anos no país. Começou, novamente, a trabalhar em uma fábrica, mas quis o destino que o proprietário também fosse dono de uma academia. “Ele me levou para trabalhar no grupo IB FOX. Trabalhei rodando o Japão inteiro dançando. Eram brasileiros, japoneses, peruanos, misturei tudo. A criança que nasce lá, não conhece a cultura brasileira. Trabalhei temas do Rio Grande do Sul até o Amazonas, todos os ritmos, mostrando um pouco da nossa cultura, do meu trabalho”.

Quando voltou ao Brasil, Marinho terminou seu primeiro casamento. Meio aéreo, não sabia que rumo tomar, viajou ao exterior, voltou e, em 2010, montou seu próprio estúdio de dança, do lado de sua casa, no bairro Parque das Nações. Foi aí também, em uma de suas aulas, que acabou conhecendo sua atual esposa, Érica, segundo ele, “seu braço direito em tudo, porque também é dançarina”.


Marinho e Érica
Desde então, a Cia By Marinho fez diversas parcerias com academias da cidade. Voltou às tevês, na TV Alfenas, e, uma vez por mês, na TV Aparecida, em um programa de Claudete Troiano. Agora, dá aulas na academia Top Fitness, no bairro Pinheirinho e em diversos núcleos do Cidade Escola.

E é dentro deste novo programa que Marinho está tendo dimensão da importância e reconhecimento que tem nas diversas comunidades da cidade. E mais do que isso, trabalhando algo que é um dos princípios norteadores do Cidade Escola: a inclusão. “O Cidade Escola está me permitindo resgatar a inclusão perdida por diversas pessoas, lá atrás. No Japão, constatei que quase todos conheciam a dança, porque desde pequenos tinham essa prática, nas escolas. Aqui, não. Nos bairros mais simples, os olhos dos jovens até brilham quando olham para gente. Querem estar do nosso lado, ter uma oportunidade para dançar conosco, em um palco. Não descartamos ninguém, velhos, jovens, gordos, magros, fazem o que podem, o que conseguem, sem discriminação”.


E os olhos clínicos do professor Marinho estão ligados na garotada do Cidade Escola. “Já existem várias ‘promessas’. Pelo menos 15 jovens, entre 11 e 17 anos, que tem muito talento. Já falei isso a eles. Eu queria ter tido um Marinho na minha vida, para poder me ajudar. Eu não tive. Esses já estou lapidando, estão participando de algumas apresentações que fazemos. Muitos não têm sequer condições de comprar um tênis, uma camiseta, mas eu digo: ‘vamos lá, vamos nos ajudando, que uma hora você chega lá’. Um deles, já levei para a TV, no programa da Claudete, chama-se Antony, é do núcleo Caic”.


"Goiabinha" (com fone, no pescoço)
E sempre foi assim, criando ‘discípulos’. O depoimento do primeiro deles, Luiz Gustavo Gregório, conhecido como “Goiabinha”, mostra a importância do mestre. “É o cara mais visionário que eu conheço. Sempre à frente do tempo. Tenho orgulho de trabalhar e estar ao seu lado há mais de 20 anos. Tudo o que sei sobre a dança, aprendi com ele. Nunca fiz curso, nada. Meu mentor é ele. Não o tenho como professor, mas, um irmão, amigo. Não sei se um dia conseguirei recompensar tudo o que fez por mim”.

Goiabinha é um dos atuais integradores culturais do Cidade Escola. Sem vaidade, Marinho sabe que sua trajetória de trabalho e vida inspiram não apenas seus “discípulos”, mas também, gente de cidades distantes. “A MD Swing foi muito grande para a cidade, para a região. Muitos dos meus alunos são chamados a dar aulas nas cidades vizinhas. Eu ia para essas cidades da região e as pessoas pediam um aluno meu para dar aula. Goiabinha foi para Caxambu, com salário fixo, transporte, alimentação e hospedagem, tudo por conta. Ficou 7 anos trabalhando lá, só vinha para Alfenas nos finais de semana. Areado, Conceição, Machado, Varginha, Paraguaçu, todas as cidades tinham um aluno nosso, e ganhando para isso. Todos com 16, 17 anos, ganhando salário. E a dança cada vez mais fortalecendo. Não existe reconhecimento maior que isso, tudo fruto do projeto que desenvolvi sobre a vida, sobre a dança”.


O professor de dança só teve dimensão de seu trabalho e da importância de suas aulas quando conheceu uma aluna para lá de especial. Uma senhora, que pagava, sem poder, aulas em uma academia particular da cidade. “Ela sempre vinha com a mesma roupa, sempre. Já estava incomodado, não sabia se era superstição, o porquê disso. Um dia, ela veio com uma folhinha e me disse: ‘hoje, eu tenho condições de comprar uma camiseta sua’. E eu perguntei: ‘mas por que? ’. A folhinha era o orçamento dela. Ganhava 540 reais por mês. Tinha tudo anotado, alimentação da família, isso e aquilo, e, então, ela falou: ‘sobrou 25 reais, e a tua camisa custa 30. Você não me dá um desconto? ’. Até hoje conto esta história e me emociono”.

Marinho chorou ao relembrar mais uma vez a história. Mas se recompôs rápido, animado com as novas perspectivas de projetos com a dança e o Cidade Escola. Em setembro, um grupo de 16 pessoas, dançarinos de sua equipe embarcam para o Japão, novamente, para participar do Brazilian Day, em Hamamatsu. Dos 300 mil brasileiros residentes no Japão, quase 70 mil estão nesta cidade.


Marinho e equipe não irão só dançar. A viagem promete muito mais. “Darei workshop também, para escolas, pois as crianças brasileiras que nascem por lá, não conhecem a nossa cultura. Eles não perdem a raiz, fazem questão de ter a dança, a música, a cultura brasileira, dentro do Japão, para não perder as origens. ”.

Aos 48 anos, não pensa em parar tão cedo. Segundo ele, “a disciplina, a conduta, a forma de lidar com o próximo, de dar oportunidades para todos conhecerem e se desenvolverem na dança”, ainda o fazem sonhar com novos voos, desta vez, por diversos outros países. Quer levar o seu conceito de dança, o Cidade Escola para o mundo conhecer, pelo menos uma vez por ano.


Marinho e todos aqueles que procuram suas aulas dentro do Cidade Escola ou em sua academia, sabem dos benefícios que a dança traz. Para ele, a dança deveria ser “a segunda opção na vida de qualquer pessoa, médico, engenheiro, qualquer um, porque ela ajuda a formar, dar o ‘centro’ que todos precisam”. Marinho sabe que a dança “dá um prazer diferente nas pessoas, um alívio, tira o stress do dia a dia, dessa loucura que está o país”.



E foi assim que acabou descobrindo porque decidiu entrar para o Cidade Escola. “Muitos chegam com diabetes, depressão, e em pouco tempo dizem que estão melhores. Além de espantar os males, de igualar, termos uma sociedade justa, a gente não tem esse preconceito, com crianças descalças, ou com tênis, com botinas. Entrei para o Cidade Escola por causa disso, trazer o menos com mais, essa somatória, dividir não, vamos somar sempre, quem divide, está fora”.

Marinho tem consciência da importância de seu trabalho na vida das pessoas e, decreta. “Tem hora que a gente nem é profissional de dança, mas um psicólogo. Não sou Augusto Cury, mas quem dança é mais feliz”.



























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