quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cidade Escola: Unidos, por Santa Luzia


Uma das principais características do programa Cidade Escola é ter entre seus coordenadores de núcleos gente que seja, prioritariamente, do próprio bairro ou da região. E mais do que isso, que os moradores o conheçam e confiem nele.

Entre os vários coordenadores de núcleos, há um que tem um vínculo para lá de especial com a comunidade. Se alguém procurar por Bruno Pereira, no bairro de Santa Luzia, certamente não o encontrará. Mas, se chamar por Bruno “Mocotó”, todos saberão de quem se trata.

Ele é jovem, tem apenas 29 anos de idade, mas parece que vive no bairro há muito mais tempo. Todos o conhecem e a recíproca também é verdadeira. Qualquer coisa que se faça ou pense em ser feita no (e pelo) bairro, Bruno estará no meio, com certeza. A paixão pelo Santa Luzia é maior do que tudo.

Hoje, Bruno coordena o núcleo do Cidade Escola, no bairro Santa Luzia, instalado no mesmo prédio onde funciona o Centro Vocacional Tecnológico (CVT). São quatro salas, no andar superior do prédio e ainda uma quadra poliesportiva, em frente ao CVT, e as instalações da creche do Santa Luzia, bem próxima dali. 








Nunca o bairro esteve tão movimentado com as diversas atividades trabalhadas pelos dez integradores culturais como capoeira, manicure, violão, viola caipira, tênis e atividades recreativas na quadra (futsal, pingue-pongue, jogos de tabuleiro, bete/taco). Os participantes do Cidade Escola também podem aproveitar a estrutura do CVT e utilizar os computadores utilizados nos cursos de formação da Uaitec (Universidade Aberta e Integrada de Minas Gerais), e ainda a lousa digital, para exibição de filmes e apresentações de trabalhos dos jovens da comunidade.


Em poucos meses de atividades, já são quase 100 participantes, com destaque para a creche noturna, única nos diversos núcleos do Cidade Escola espalhados pela cidade. “A maioria aqui são jovens abaixo dos 15 anos. Temos também muitos alunos do bairro Santa Edwirges, que fica colado aqui. Os resultados são muito bons até agora. As mães comentam que não ficam mais preocupadas, sabendo que seus filhos estão aqui com a gente. Com a creche noturna, a mãe vai trabalhar ou fazer o que tem que fazer, despreocupada. Tem noites que recebemos até 30 crianças”, confirma Bruno Mocotó.


Mas, quais seriam as razões para tanta confiança de mães e pais pelo jovem coordenador? Primeiro, a herança do respeito deixada pelos pais, moradores dos mais antigos, há mais de meio século, do Santa Luzia. A segunda razão é o envolvimento de Bruno, desde quando ainda era bem pequeno, com eventos de rua, culturais, educativos, musicais, ou, simplesmente, pelas festas organizadas pela comunidade.





Bruno começou a se envolver em atividades culturais quando tinha apenas 8 anos de idade. Isso mesmo, 8 anos. Era apenas uma criança quando se interessou espontaneamente pelas Companhias de Reis, festa que um dia já foi bastante tradicional em Alfenas. Para quem não sabe, nas festas de Santos Reis são feitas representações dos Três Reis Magos por meio da música, dança e versos. Há vários integrantes nas companhias como os Três Reis Magos, Coro, Mestre ou Embaixador, Bandeireiro ou alferes da bandeira, Festeiro e os Palhaços, também chamados de bastiões. Bruno era um bastião, aqueles que se vestem com máscaras e realizam acrobacias usando um bastão. “Comecei pulando bastião na companhia do seu Libertino, depois sai para o Toninho, depois para o Pontalhete, para o Pedro Augusto, difícil qual a companhia que já teve aqui em Alfenas que não saí. Andei pela cidade inteira, sou muito fã, devoto dos Três Reis Santos”, relembra com saudade, Bruno.


Mas não foi tão simples e fácil, assim. Um fato ocorrido neste período de folia de Reis, marcou definitivamente a personalidade de Bruno. Eram as primeiras festas de que participava e, por ainda não saber cantar os versos, acabou “preso”, dentro do quarto de uma das casas visitadas pela Companhia de seu Libertino (uma das mais famosas da cidade), uma tradição nestes eventos. Levou uma “dura” do pessoal, mas decidiu, mesmo sendo uma criança, aprender tudo que envolvia as festas de Santos Reis. “Aprendi os versos de tanto ouvir, tinha interesse, ia na casa dos mais velhos para aprender. Sei dezenas de versos, do Cruzeiro, do Presépio. As companhias me ajudaram a chegar onde estou hoje. Graças a Deus. Pelo conhecimento que tenho, por tudo que vivi, por não ter sido aquelas pessoas que ficam presas em casa, sem aprender nada. E se fosse outra pessoa no meu lugar, como foi nas primeiras vezes, não voltaria mais. Foi ali, naquela humilhação de ficar preso em um quarto, que aprendi, de verdade, os versos. Hoje, onde chego, o povo bate palma. Eu sou assim, o que tenho vontade de aprender, vou atrás, corro e aprendo mesmo”, garante Bruno.


E foi exatamente assim, vendo, aqui e ali, aos 16 anos, que Bruno descobriu outra de suas paixões nas artes das ruas. Gostava de dançar. E não só aprendeu, como passou a dar aulas de street dance, dança de rua, e ter o próprio grupo. “Começamos a dançar com o Vardinho, um dos pioneiros na dança no bairro. Fui aprendendo, era o mais novo de todos. Acabou o grupo e comecei a dar aula por minha conta, fui evoluindo. Depois, montei meu próprio grupo, o The Over Boy’s, que depois passou para Comando de Rua”.



Bruno começou a dar aulas nos porões da igreja Santa Edwirges. Tudo, como voluntário. “Quando começamos, tinha no máximo 10 alunos, depois foi para 30, 40, cheguei a dar aula para 50 alunos, sem cobrar nada, só voluntário. Usava o som da minha casa, pegava o som das minhas irmãs e levava. Corria atrás de tudo”, relembra Bruno.

E foi assim, sempre, correndo atrás que o coordenador do Cidade Escola começava a ficar cada vez mais “famoso” nas ruas da cidade, especialmente, no Santa Luzia. “Juntava todo o povo do bairro, criançada toda. Com as aulas, acabamos montando um grupo para disputar concursos de dança. Ficamos em terceiro no melhor do sul de Minas, realizado em Machado. Depois ganhamos em primeiro, também em Machado. Tem troféu de Carvalhópolis, Divisa Nova. Viajamos o sul de Minas inteiro”.



Bruno é inquieto, festeiro por natureza. E se há algo que envolva a comunidade de Santa Luzia, e ele possa ajudar, pronto. E lá se foi ele comandar a bateria que toca em jogos importantes do Chapadão, a equipe mais tradicional do bairro. Vai onde o time for, não importa a distância. 





Também foi criador e jogador de uma outra equipe no bairro, o Esporte Clube Santa Luzia. No bar que leva o seu apelido famoso, Mocotó exibe com orgulho os vários troféus conquistados.

Mas o que tornou Bruno Mocotó de fato, “famoso” no bairro e na cidade foi o pagode. Junto com outros amigos, criou o grupo Mistura de Raça. Tocou nos quatro cantos da cidade, em quase todos os bares. Ele é o vocalista do grupo, paixão que começou bem cedo. “Já tenho experiência com música, gosto desde criança, fui gravando as músicas na cabeça.


Começamos a ensaiar, tocar só para curtir, mas aí foi melhorando, melhorando, e já começamos a ganhar cachê num bar e outro. Fomos juntando, comprando nossos instrumentos, iluminação. Antes, era tudo emprestado, de um e outro. Fomos ganhando 130, 150 reais, aqui e ali, e sempre juntando, compramos microfone, caixa, cavaquinho”.

E a música acabou levando Bruno para algo que sempre havia sonhado: ter um bloco de carnaval. A experiência como líder de bateria do Chapadão e o grupo de pagode fez surgir o Unidos do Santa Luzia. 


No carnaval 2017 foi o compositor do samba-enredo do novo bloco que se apresentou na Praça Getúlio Vargas. No início, o sonho de Mocotó era bem menor, mas como tudo em que se envolve no Santa Luzia, o sonho acabou tomando outra proporção. “A gente ia sair num bloquinho, de uns 5 ou 6, só para dizer para as pessoas que estávamos chegando. Quando começamos a ensaiar, o povo do bairro pedia para parar com a barulheira de lata. Passava outro, e pedia para parar com isso. Foi passando o tempo, de 5 foi para 10, de 10 para 20, de 20 para 30, e aquele que criticava também resolveu se juntar com a gente. Os vizinhos também resolveram se juntar, e montamos um ‘trem’ que todo mundo curtiu, porque saímos, no carnaval, com mais de 150 pessoas”.


Viver de música e cultura neste país é para poucos. Com Bruno não foi diferente. Tinha de ajudar no sustento da família, seis irmãos, três homens e três mulheres. Não conseguiu realizar o sonho de se formar em Educação Física. Teve de ir à luta, trabalhar em empresas com serviços braçais, pesados. Passou dois anos pela Alfechapas. Depois, mais um período na Tiph, fabricante de peças de caminhão. A aprovação para esta empresa tinha de ter o jeito irreverente e apaixonado por Bruno, pela música, criatividade pura. O apelido de “Peixe”, entre os amigos do trabalho, tem história. “Quando entrei lá, era feita uma seleção, uma peneira entre 20 candidatos. Eles organizam grupos para fazerem atividades, uma música, ou um teatro, tinha que inventar alguma coisa falando sobre as peças de caminhão, porque o desperdício de peças era enorme e o prejuízo muito grande para a empresa. 


Então eles bolaram essas atividades, para ver se saía alguma coisa criativa, para evitar o desperdício. Um grupo fazia teatro, outro inventando o que ia fazer. E o nosso, parado, pensando o que fazer. No meu grupo eram quase todos envergonhados, cabisbaixos. Aí, disse a eles: ‘se quiserem, faço uma música’. Escrevi a letra. O rapaz da empresa chamou os grupos para se apresentarem. Um fez teatro, o outro cartaz, e, na hora do nosso, fui para o meio do mato, peguei dois pauzinhos da árvore, coloquei o boné para trás, e o restante do grupo só com a boca: tumtumtá, tumtumtá, tumtumtá, e comecei a cantar. O cara da empresa ficou doido. Pediu que eu voltasse na outra semana para cantar para o dono da empresa. E ele veio mesmo. Ganhamos brindes, e todo mundo na empresa começou a me chamar de ‘Peixe’”.





Bruno e seus pais.
Tanta criatividade e força de vontade de viver tem fonte de inspiração. Bruno tem um respeito e carinho enormes pelos pais. Ele sabe do esforço e luta deles para criar os filhos em condições tão adversas. O vínculo forte com o bairro Santa Luzia vem desde os tempos, há 50 anos, quando as ruas do lugar, cheia de ladeiras, eram só terra e poucos casebres.

O pai se chama João Pereira, mas todos o tratam como “Paraguaçu”, terra onde nasceu há 75 anos. A mãe, Dulce Rocha. Paraguaçu é muito respeitado por todos no Santa Luzia, talvez o morador, vivo, mais antigo dele. Ver sua pequena casa onde sempre viveu e criou todos os filhos, em dois cômodos, arrumada e bonita, não esconde as dificuldades passadas por eles. “Em Paraguaçu era uma pobreza danada. Trabalhei na Paraguaçu Têxtil, aí minhas irmãs foram para o Rio de Janeiro, desesperadas, trabalhar, para tratar de nós. De lá, pagavam nosso aluguel. Meu pai sofreu muito na roça, trabalhava para os fazendeiros. Com 18 anos fui embora para o Rio. Fiquei 5 anos e vim para Alfenas”.


Paraguaçu e dona Dulce,
moradores mais antigos do Santa Luzia
Seu Paraguaçu veio para ensinar os tecelões da indústria têxtil Saliba, instalada em Alfenas, a fazer panos, pois desde os 14 anos, trabalhou com isso em Paraguaçu. A vida dura o levou a morar em São Paulo, por uns tempos, mas voltou, apesar das enormes dificuldades no bairro que escolheu viver. “Aqui, quando chovia, era uma encrenca, por causa das subidas e descidas, e tudo de terra. Numa chuva forte que teve no passado, derrubou várias casinhas, a minha ficou em pé. Não tinha água, nada, só uma cisterna com uma torneira para o povo usar a água. Às vezes, a gente chegava da ‘panha’ de café, trabalhamos eu e ela (apontando para dona Dulce), tinha dia de chegar às 10 da noite. As crianças tudo pequenininhas, junto. Aqui em casa era fogão a lenha, luz de querosene”.


Dona Dulce reforça a lembrança dos tempos difíceis, nas plantações de café. “Não tinha onde deixar os filhos, tinha que levar. A gente ia de caminhão, não tinha esses ônibus, como tem hoje. Trabalhamos a vida inteira, na roça. Chegava às 10 da noite, fazer comida, tirar água da cisterna, acender fogão a lenha. Enquanto eu fazia a comida, ele ia catar lavagem, porque a gente tinha uns porcos. Dava para contar nos dedos a quantidade de casas que tinha ao redor daqui”.

E mesmo com todas essas dificuldades, seu Paraguaçu não tem queixas do passado, muito menos do presente, pois viu os filhos crescerem, sem se envolver em problemas comuns entre os jovens atuais. “Vimos tudo isso aqui se formar. Foi duro criar os filhos, mas deu tudo certo. Parece que vem de berço, é Deus, é luz”.


Talvez, por tudo isso, Bruno Mocotó está tão entusiasmado e envolvido com o Cidade Escola no Santa Luzia. Sabe que os jovens de hoje estão tendo oportunidades que ele e amigos não tiveram, mas que nem por isso, deixou de se dedicar à comunidade, à cidade que tanto ama. “Em 2009 entrei para o Cidade Escola. Dava aula de dança de rua. Mexia com dança, teatro, música, era bem conhecido. O único que dava aula de dança era eu. Tinha meu próprio grupo de dança. Dei aula na APAE, no Instituto da Ipanema, nos Dias Melhores, no Tancredo Neves e o último lugar foi no Orlando Paulino. Dei aula para muita gente na cidade. Era trabalho voluntário, corria atrás, fazia a coisa acontecer, da mesma forma”.


E assim, Bruno Mocotó continua a fazer. A nova estrutura e os novos conceitos do Cidade Escola só o fazem acreditar em dias melhores. Voltou a dar aulas de dança, participa de diversas atividades como professor. “Sou apaixonado por isso aqui, pela comunidade. Estamos sempre juntos, interagindo, ajudando, participando. Sou nascido e criado aqui, na Rua Barão de Alfenas. Adoro este bairro, o que puder fazer por ele, faço. Tem gente que tem 50 anos no bairro, mas não tem as histórias que já vivi por aqui”.



































sexta-feira, 14 de julho de 2017

Cidade Escola: Sonhar e acreditar no ser humano


Ele é jovem. Tem apenas 26 anos de idade, mas a paixão pela cidade e a vontade de transformar vidas tem feito o trabalho de Matheus Paccini, coordenador do Cidade Escola, parecer fácil.

Com apenas seis meses de execução, o programa Cidade Escola começa a transformar vidas. Pela abrangência e quantidade de pessoas envolvidas - moradores e quem trabalha nele -, é fácil supor que o trabalho para manter tudo isso funcionando, dia a dia, não é tarefa simples.

Nesta entrevista, Matheus Paccini, coordenador do Cidade Escola, faz um balanço do programa e revela os bastidores deste trabalho.


Blog Cidade Escola:

O programa Cidade Escola aparece na grande maioria das ações da prefeitura. Quais os resultados alcançados até agora?

Matheus Paccini:

Hoje, já temos um programa muito mais definido. Acabamos de fazer um levantamento, e estamos com 47 núcleos sendo atendidos. Esses núcleos são locais de atendimento. Há também as praças, parques, academias ao ar livre, que não contamos como núcleos, mas onde fazemos diversas atividades. As regiões, que eram 10, no início do programa, reduzimos para 8, porque aumentamos o tamanho, o alcance delas. Deixamos menos gente na coordenação geral, porque o trabalho fica mais fácil de ser conduzido, então, temos mais coordenadores de núcleos do que coordenadores gerais, para disseminar ainda mais o programa. Também fechamos diversas parcerias. Começamos do zero, e agora temos tanto com empresas privadas como com as secretarias de governo. Temos, por exemplo, parcerias na Ação Social, com o Cras e o CVT (Centro de Valorização dos Trabalhadores); na Saúde, com os PSF’s (mais de 15 postos).


A partir desta sexta-feira (14/07), e durante os próximos dois meses, começaremos o evento “Festa dos PSF’s e Cidade Escola”, duas por semana, fecharemos as ruas para fazer a comunidade se integrar com os profissionais da saúde. Vai ter pipoca, cama elástica, música. Começa às 15hs e vai até às 18hs. Vamos conscientizar a comunidade sobre as questões da saúde, tudo isso, porque precisamos humanizar mais a saúde. Serão feitos exames rápidos, como teste de HIV, pressão e glicemia. A partir das 18hs começa a parte cultural da festa. Teremos um telão para apresentar todas as ações realizadas na Saúde, até agora. Em apenas 6 meses de governo, as filas de diversos tipos de exames foram zeradas. O que o antigo governo não fez em 4 anos, Luizinho fez em 6 meses. Teremos também shows com duplas sertanejas, apresentações de dança do Cidade Escola, tudo para que a comunidade conheça também o que estamos fazendo pela cidade. No primeiro evento, teremos o Lucinho, mas vamos convidar também a dupla João Paulo e Juliano e diversos outros artistas da cidade. Todos artistas voluntários. 


Blog Cidade Escola:

Quem são os parceiros do Cidade Escola?

Matheus Paccini:

Temos parcerias com várias empresas privadas da cidade, que foram uma grata surpresa para nós. Começamos com a Academinas, a melhor academia de tênis da cidade. São 80 alunos, numa escola renomada de tênis, que não é de fácil acesso para todos, pelos custos do esporte. Deixamos essas vagas só para alunos das escolas públicas. Eles têm direito a duas aulas de tênis, por semana. É um projeto muito bacana, e a Julieta, proprietária e professora, está com a gente. Tem mais dois professores também atuando nesta parceria do Projeto Sementinha e o Cidade Escola. 


Academia Acquacenter, mais uma parceria do Cidade Escola
Além da Academinas, temos outra parceria bem bacana com a Acquacenter (natação), do professor Waguinho. Outra academia muito respeitada na cidade, que todos conhecem. Temos um grupo de idosos sendo atendidos pelo Cidade Escola. Teremos 10 alunos sendo preparados para a natação, para competição, mesmo, e assim formar atletas. Também teremos um grupo de saúde do trabalhador. Vamos focar nos profissionais da educação, professores, serviços gerais das escolas, que poderão fazer aulas de hidroginástica e natação.





Oficina de Teatro Evoé
Temos parceria também com o Conservatório Municipal de Música. Eles fazem atividades pelas praças e no Restaurante Popular. Também temos outra parceria, com o Teatro Municipal e a Oficina de Teatro Evoé, que atende mais de 100 alunos. Também fizemos (e continuaremos a fazer) parcerias pontuais, como aconteceu com os grafites, com a RN Tintas, que forneceu todo o material, para diversos grafites que estão feitos pelos muros da cidade.

Importante frisar que nossas parcerias e atividades chegam também às escolas estaduais, não apenas as municipais. Para nós, o aluno do município, não importa se é de uma escola municipal ou estadual. Ele é aluno de Alfenas. Já estamos atuando em diversas escolas, nas principais escolas estaduais como Professor Viana, Escola Estadual e Napoleão Sales, que são as maiores da cidade. Muitas atividades acontecendo.


Quadra Unifal Santa Clara
Alfenas é uma “cidade universitária”, por isso, a parceria com a Unifal é importantíssima. Eles estão participando ativamente. Estamos fechando parceria com eles para utilizar as quadras da universidade. No bairro Pinheirinho, por exemplo, temos uma quadra disponível, mas são tantas as atividades que acaba faltando espaço físico para tanta gente participar. Ali, a Unifal do Santa Clara, tem uma quadra coberta maravilhosa. No Centro, eles têm outra quadra muito boa que não é utilizada durante o dia. Os alunos da Unifal usam a quadra mais no período da noite. Vamos utilizá-la durante o dia, proporcionando atividades não apenas para os participantes do Cidade Escola, mas também para os alunos da Unifal.


Será muito importante essa parceria pois sabemos que a Unifal tem um número gigantesco de alunos com depressão, sei disso porque estudo lá. Essa é uma outra preocupação nossa, proporcionar atividades para o público universitário. Temos uma universidade pública grande, gente do país inteiro estudando ali. Não podemos esquecer que temos um governo federal que vem cortando praticamente todos os benefícios dos alunos que estudam numa universidade pública e que são jovens com baixa renda. Os estudantes chegam aqui, com uma expectativa grande, mas encontram uma realidade que não atende suas necessidades básicas, pois o dinheiro que têm, não dá para viver. Eles têm famílias que vivem longe e chegam num sistema acadêmico opressor, que força o jovem o dia todo. Quem está no meio acadêmico sabe que o sistema é opressor, não é natural o que se faz numa universidade. Por tudo isso, é uma preocupação do Cidade Escola atender também a esse pessoal.


Matheus Paccini, na apresentação da parceria com a Move Dance
Outra parceria importante que está começando, agora, é com a Move Dance Brasil. Eles acabaram de montar um escritório em Alfenas e nós precisávamos de um núcleo, no Caensa, para atender a população. E é nesse espaço que passaremos a ter aulas de violão, oficina de leitura e receber a população que quer se inscrever nas diversas atividades que já ocorrem no bairro. Neste espaço, funcionará a academia do Rafael e do Lucas, donos da Move Dance. Nossa parceria com eles não será maior na questão da dança, apesar de ser uma academia de dança. Eles têm um trabalho social bonito demais na cidade, vem de movimentos religiosos, fazem campanha de agasalho, campanha de cestas básicas. É um grupo muito grande que vai até as famílias carentes da cidade. Conhecendo o trabalho deles, fomos atrás, para construir essa parceria. Vamos fazer eventos juntos, arrecadações, trabalhar mais as questões sociais com eles. Mas é claro que eles vão ofertar aulas de dança gratuitas para os participantes do Cidade Escola. Eles também são pioneiros na questão da dança.

Também temos a parceria na dança com a Academia do professor Marinho, que também é um cara histórico, na cidade. Ele já disponibiliza vários professores que não são bolsistas do programa, mas estão dando aulas.


Escola Estadual, parceira Cidade Escola
Blog Cidade Escola:

No início do programa, houve “resistência”, por parte de algumas escolas, sobre o que seria de verdade o Cidade Escola. Essa impressão mudou?

Matheus Paccini:

Mudou muito. Os diretores das escolas começaram a perceber que não queremos “disputar espaço”, fazer barulho. Começaram a perceber que o Cidade Escola é um meio de fazer os alunos terem um rendimento melhor nas escolas. Melhorou muito a autoestima porque você faz atividade física, faz o que gosta, uma leitura dialógica, por exemplo, uma infinita gama de possibilidades, inclusive com a participação dos próprios educadores, professores e diretores destas escolas. Eles começaram a perceber que o Cidade Escola é um aliado da escola. Os diretores começaram a perceber que chegamos para integrar, sem disputar espaço com ninguém. Essa mudança de realidade é fruto de “confiança”, tanto da gente com as direções de escolas, como o contrário.


Blog Cidade Escola:

A prefeitura realizou um processo seletivo em que 180 integradores culturais foram selecionados para participar do programa. Qual o perfil destas pessoas? O que isso representa? Quais avanços para o programa?

Matheus Paccini:

Há um mês, concedemos bolsas para voluntários trabalharem como integradores culturais. Mas é voluntário, mesmo. Eles recebem um auxílio financeiro, não tem vínculo empregatício com a prefeitura, são bolsistas, mas um bolsista diferente, voltado para o voluntariado. É isso que buscamos, tanto que no processo seletivo, uma das coisas que mais contava era o tempo de serviço voluntário dos candidatos. É esse perfil de pessoas que buscamos. Gente que gosta de trabalhar com as pessoas, de interagir com a comunidade. Não é meramente uma coisa formal do diploma ou qualificação deste bolsista.


Nós procuramos o perfil de voluntariado. Conseguimos um perfil surpreendente, são pessoas que tem um histórico de luta, por justiça social, que lutam há muito tempo por isso. Temos integradores que tinham perfil de exclusão social, e que ocupam um papel hoje dentro da sociedade muito interessante. Elas procuraram o trabalho voluntário, mesmo com esses problemas, ao invés de se resguardarem, ficarem traumatizadas, procuraram o trabalho social. Temos gente com capacidade de entender as pessoas, de fazer sempre a troca que propomos: educar e aprender, o slogan do Cidade Escola.


Temos gente de todas as faixas etárias trabalhando: jovens, idosos, formadas, não formadas, muito variado. É quase um “exército”, de 180 pessoas. Estamos atendendo a 8 mil pessoas nos 47 núcleos instalados. E a expectativa é terminar este primeiro ano com 10 mil participantes. A meta para 2018 é terminar com 20 mil. É ousada. Vamos dobrar no ano que vem. Queremos terminar este ano com 10 mil pessoas, bem atendidas, porque não adianta atender por atender. No ano que vem, teremos o Cidade Escola Técnica também. Alunos do segundo e terceiro anos do ensino médio participarão das atividades do Cidade Escola e vão escolher um curso técnico de formação. Com essa parceria, temos a certeza que o número de participantes do programa aumentará muito. 

Blog Cidade Escola:

Nos primeiros contatos feitos com os núcleos visitados, há algum caso marcante?

Matheus Paccini:

Quando vou aos núcleos, não é só para resolver questões administrativas do programa. Uma ou duas vezes por semana, vamos despachar direto dos núcleos, como o prefeito Luizinho faz, no programa Prefeitura nos Bairros. É o Cidade Escola itinerante. Esses contatos, que já ocorrem nos núcleos, acabam sempre rendendo histórias bonitas. Fomos fazer um trabalho de parceria com os jovens do Creas, que tem de cumprir medidas socioeducativas. O que achei bacana é que fui até lá para divulgar os eventos que temos no Cidade Escola, os princípios do programa, e acabei descobrindo que, hoje, eles fazem atividades nada prazerosas. E qual é a ideia, para nós que somos defensores dos Direitos Humanos? Nós pensamos que as pessoas podem progredir, superar seus erros, fazendo atividades que possam realmente mudar suas vidas. Não adianta propor atividades que não façam esses jovens evoluírem. Queremos ofertar atividades que eles possam refletir sobre os erros que cometeram na sociedade. Oferecemos várias opções para que esses jovens possam trabalhar a autonomia, pertencimento, ‘eu sei o que estou escolhendo, eu sei o que quero fazer’.


Dona Neusa e Micaela, na entrega de materiais para o núcleo Caic.
Outra história interessante é da dona Neusa. Ela é mãe de uma das nossas integradoras culturais, a Micaela, do Residencial Alfenas. Micaela dá aula de xadrez, no Cidade Escola, e a mãe dela, dona Neusa, que é cadeirante, desde o início do programa, faz questão de sair lá do Residencial Alfenas e ir em todos os núcleos que a filha atende. Conversa com todo mundo, praticamente ajuda a filha a dar aula. Uma pessoa que tem uma enorme liderança de bairro. Uma história de vida linda. Dei dois exemplos, mas, diariamente, a gente se emociona com esse envolvimento das pessoas com o programa. Elas estão percebendo que é um ambiente harmônico, de amor, mesmo, prazeroso para as pessoas.

Blog Cidade Escola:

Como você se envolveu com a administração pública?

Matheus Paccini:

Sou alfenense e também sou músico, vocalista de banda há vários anos que toca por diversos locais da cidade e região. Tenho 26 anos, mas estou envolvido na política desde muito cedo, desde os 15 anos. Fui filiado a um partido e ajudei a criar a ala da juventude dele. Fui também presidente de Grêmio Estudantil da maior escola de Alfenas, o Estadual. Antes disso, já escrevia para um jornal sobre política, no Polivalente (EMEF Antonio Joaquim Valente), tinha 12 anos, no ensino fundamental. Me interessei por política muito cedo. Coisa natural, porque não é de família. Não tenho ninguém ligado a isso. Comecei cedo, muito rebelde, desde sempre, questionador, crítico. Quando fui para o ensino médio, conheci o partido político e me filiei. Algum tempo depois, por descordar das orientações deles, decidi sair da sigla. Ao sair do partido, conheci o Luizinho, quando tinha 16 anos. 


Matheus e Rolien
Pelo Grêmio Estudantil, era militante, ganhei a disputa como delegado e fui para a primeira conferência com o Lula [o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva], com outro companheiro, o Rolien, atual coordenador do Cidade Escola, no Pinheirinho, e amigo de infância. Militamos juntos, desde pequeno, desde o Polivalente, nós dois juntos, sempre.

Criamos um programa, no contra turno da escola, apresentações de violão, corremos atrás de patrocínio, viabilizamos tudo. Foi aí que conheci Luizinho. E foi aí também que deu o start do Cidade Escola. Neste primeiro momento, o programa atual ainda não existia. Fui, então, participar do governo e o Luizinho me perguntou: “Onde você quer atuar?”. Ele então me falou sobre o Cidade Escola.





Trabalhei com Luizinho, dos 16 aos 18 anos, voluntariamente, na escola Fausto Monteiro. Quando completei 18 anos, entrei para a prefeitura. Fui o primeiro a entrar para o Cidade Escola. Gilberto Faloni era o coordenador, como agora, ao meu lado.

Na primeira versão, o programa tinha outro conceito, mas os resultados alcançados foram surpreendentes, tínhamos 50, 60 professores, que chamávamos de educador social (agora, integrador cultural).

Deu tão certo, pela questão social, que na época recebemos o Prêmio Assis Chateaubriand de Responsabilidade Social. Foi um start. Tivemos 4 anos para pensar e elaborar o que hoje está sendo implantado nos quatro cantos da cidade, o novo Cidade Escola.


Blog Cidade Escola:

Qual é a sua condição social?

Os pais de Matheus: Laércio e Adriana
Matheus Paccini:

Sou de família humilde. Meu pai não tinha faculdade. Minha mãe é professora. Muito simples, mesmo, por isso essas questões sociais surgiram muito cedo em mim. E como a maioria das famílias, tornou-se classe média no governo do PT, de Lula e Dilma. Foi neste período que meu pai conseguiu montar uma empresa pequena, uma vidraçaria. Ele faleceu, e hoje tomo conta do negócio. Então, venho dessa ascensão social que aconteceu com muitas famílias no Brasil. Tenho 3 irmãos, 3 homens.

Blog Cidade Escola:

Onde você pretende chegar com esse engajamento?


Matheus Paccini:

Penso em transformar esses 4 anos do Cidade Escola em uma experiência que seja útil, tanto que faço licenciatura em Ciências Sociais, na Unifal. Já fiz Direito, mas tenho essa pretensão de provocar uma mudança social. É uma coisa pessoal mesmo, não é nada relacionado a crescer no poder público. Eu costumo dizer que a única coisa que o poder público pode te dar de útil é poder fazer alguma coisa pelo outro, principalmente, para as classes que mais precisam.


Blog Cidade Escola:

O Cidade Escola está mudando Alfenas?

Matheus Paccini: 

Já mudou. Sou muito incisivo ao afirmar isso. Alfenas está alegre. Alfenas estava parada. Hoje, temos essa leva de “prefeitos empresários”, pelo Brasil, cujo objetivo é deixar tudo cinza. É a política da higienização. E, aqui, nós somos totalmente contra. Temos vários integradores de grafite, pela cidade. Estamos, literalmente, pintando a cidade. Os alunos têm aulas, nos muros da cidade. Ao mesmo tempo que estão ali, fazendo a aula, aprendendo uma arte, estão deixando a cidade mais bonita. Fizemos no Restaurante Popular, a imagem de dois personagens históricos para a cidade, Índio Cachoeira e Zé do Arvino, dono da venda centenária do Gaspar Lopes. Agora, vamos continuar, os alunos vão retornar ao local e grafitar imagens de outras pessoas importantes para a história de Alfenas. A cidade está ficando linda. Por onde você andar, tem uma imagem do Cidade Escola.


O programa está mudando a “cara da cidade”, mudando a rotina da vida de muitas pessoas, porque temos atividades diárias, em todos os bairros. Você tem atividade para a sua avó, para a sua mãe, para você, ninguém fica parado. É lazer, cultura, esporte, diariamente, gratuitamente, e de qualidade. Você pode escolher: fazer zumba, natação, tênis e muitas outras atividades. Em qual cidade do país você pode ter tantas opções de atividades gratuitas?
Não existe em lugar nenhum, só em Alfenas.

Cidade Escola é um sonho do prefeito Luizinho. Comecei a sonhar junto com ele, em 2010. E agora ele está sendo concretizado. Não imaginávamos chegar tão perto deste sonho, em tão curto espaço de tempo, apenas 6 meses.


O Cidade Escola está mudando, efetivamente, a cidade de Alfenas. A aceitação é muito grande, em todos os bairros. Há muito ainda para ser construído, mas é o que tenho dito pelos vários núcleos que visito, que essa construção acontecerá com a comunidade, com os alunos.

Blog Cidade Escola:

Você ainda tem algum sonho a atingir, dentro do Cidade Escola?

Matheus Paccini:

É a satisfação de ver as pessoas se transformando. Elas mesmas se transformam. O Cidade Escola não tem que transformar ninguém. Ele possibilita as “ferramentas” para as pessoas mudarem suas concepções de vida. Na primeira versão, há 4 anos, já conseguimos mudar a vida de muitos jovens, a questão das drogas, a questão de criminalidade. A intenção é dar ferramentas. Meu sonho é isso, criar mecanismos para ajudar de verdade as pessoas. E que as pessoas se ajudem.


O Cidade Escola é isso, não é um programa de assistencialismo. É provocar a autoestima, o empoderamento das pessoas. Meu sonho é ver a autoestima dos bairros, das pessoas, trazer essa parte de voltar a alegria na cidade. O evento de abertura, no campo da Chapada, é um bom exemplo. A autoestima do bairro melhora. Uma coisa linda, correu tudo de forma tão pacífica. Os moradores colaboraram com tudo, com todo o processo.

Meu sonho é esse: ver uma Alfenas mais justa, que tenha mais igualdade e que, como servidores públicos, nós possamos dar essas ferramentas às pessoas para terem essa igualdade. Igualdade de oportunidade, igualdade de direitos, igualdade no se sentir digno, se sentir pessoa, cidadão. É uma decisão que a gente toma na vida, uma decisão pelo público. Gosto de citar um pensamento do Mojica (ex-presidente do Uruguai): “Se você quer ficar rico e ter poder, vá para a iniciativa privada”. O poder público só serve se for para fazer pelo próximo. As pessoas são boas, acredito no ser humano e em uma progressão coletiva.