quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cidade Escola: Cambeta, 30 anos


Em um país que adora esquecer ou enterrar suas tradições, os 30 anos de existência do Cambeta, Campeonato de Bete de Alfenas, tem que ser muito comemorado. Uma brincadeira entre amigos que virou esporte e “febre” e acontece, todos os meses de julho, nas férias escolares, na Praça Getúlio Vargas.

Mas você, que não é mineiro, deve estar dizendo: “Mas isso é jogo de taco”. Não diga isso perto de um dos milhares de aficionados pelo Bete, em Alfenas. Aqui, o taco é conhecido como Bete, e jogado com regras próprias, em um campeonato único, no mundo inteiro.


Uma história de amor e paixão que começou há três décadas. Por que Bete? Parece simples a resposta, mas nem mesmo os estudiosos da Universidade de Coimbra descobriram as origens do jogo Bete, em Alfenas, e Beto, em Portugal, quando estiveram por aqui, há 12 anos, para realizar sua tese de mestrado. Isso mesmo, em Portugal, o jogo chama-se Beto e estava praticamente extinto, por isso os pesquisadores lusitanos tiveram tanto interesse em conhecer o maior campeonato de Bete do mundo. (este é o link da tese https://www.yumpu.com/pt/document/view/18866586/1-indice-de-quadros-quadro-i-estudo-geral-universidade-de-/16 )

E por que pode ser considerado o maior do mundo? Por conta de sua estrutura e organização, com arquibancadas, sistema de som, regras específicas, e, principalmente, pelo número de participantes e torcedores que comparecem ao evento, nos últimos 30 anos.


Sem entrar no detalhamento das regras, os princípios básicos do jogo são os mesmos do taco. Duas duplas se enfrentam, uma arremessando e outra de posse da Bete, para rebater o mais longe possível a bolinha. (Em Alfenas, também é permitida a inscrição de um terceiro jogador, reserva). Uma dupla, quer derrubar a “casinha” da dupla adversária, a outra, defender este pequeno obstáculo. Em Alfenas, esse obstáculo é feito em alumínio, na forma de uma pequena pirâmide, que, em outros tempos, era feito com qualquer tipo de graveto, palitos de sorvete, latinha ou garrafa plástica.


A cada “betada” –, expressão criada pelos alfenenses do Cambeta – bem dada, a dupla de posse da Bete pode (e deve) cruzar entre eles e tocar no espaço da casinha com a ponta da Bete, quantas vezes conseguir, até a dupla arremessadora ter a posse da bolinha. Cada “cruzada” vale dois pontos. 

Ou seja, tudo depende, de onde (distância) o jogador, de posse da Bete, conseguir rebater a bolinha. Algumas vezes, o jogo pode durar poucos minutos, caso o rebatedor “isole” a bolinha, em local que os adversários não consigam acesso. 

Mas, em Alfenas, a disputa e a qualidade de jogos é tão grande que já houve decisões feitas em mais de quatro horas de partida. O jogo só termina quando uma das duplas atingir 25 pontos.






 Os jogos são tão acirrados, no Cambeta, que até cartões são utilizados pelos árbitros. São três cartões: azul, amarelo e vermelho. O azul é advertência. A cada amarelo aplicado, a dupla perde 2 pontos. O vermelho, expulsão. O azul é para coibir o antijogo ou quando há reclamação contra o juiz da partida. E ainda dois bandeirinhas, que ficam nos fundos da quadra, para auxiliar a arbitragem.

Parece fácil, um jogo de rua, brincadeira de criança. Mas, em Alfenas, os 30 anos do Cambeta, mostram e provam o contrário. E tudo começou quando dois amigos, Joselito de Souza, o Lito, e Alessandro Dias Orsi, o Dinho, viram que a brincadeira na praça estava reunindo gente demais para jogar. 


Caio “Tuleco”, participante do primeiro Cambeta, estava entre esses jovens. “Era muita gente para jogar, no famoso ‘barranco’ (gíria que define os times que esperavam para entrar no jogo). Na hora que vimos que havia muita gente para brincar, resolvemos fazer um campeonato. Aí um arrumou um equipamento de som, para animar a turma, o outro, microfone. Tinha que marcar os pontos, então, criaram as súmulas. Tem até uma brincadeira em cima delas, ‘aprovada pela Liga de Bete de Alfenas’. A brincadeira deu certo. Jogávamos só no período da tarde, na praça Getúlio Vargas, do lado da fonte luminosa. Escada, bancos da praça, grama, tudo virava arquibancada, lotava”.


E a cada ano, desde 1986, o Cambeta foi crescendo cada vez mais. 

Das arquibancadas, entre os torcedores, surgiam meninos inspirando-se nos primeiros ídolos que viraram “lendas” vivas, até hoje. Nomes como Dinho, Valtinho, Gilbertinho, os irmãos Abdo e Anuar, Giraia. “Valtinho e Dinho eram os caras a serem derrubados. Jogavam muito, não tinha ‘betadinha’, só pancada, mesmo. Ganhar deles era quase impossível. 

Nos oito primeiros anos do Cambeta, só dava eles”, garante Abdo Zein, coordenador do Cambeta há mais de 20 anos.








Abdo Zein, coordenador do Cambeta
Abdo não é um “cartola” do esporte que apaixona milhares de alfenenses, todos os anos. 

Ele é um ex-jogador, uma das lendas vivas do Bete, na cidade. Ele e o irmão, Anuar. Abdo nasceu em Poços de Caldas, mas chegou para viver com os pais em Alfenas quando tinha apenas cinco anos de idade. 

Cresceu nas ruas da cidade jogando Bete e, aos 12 anos, disputou seu primeiro Cambeta, na categoria infantil (de 9 a 14 anos), criada na terceira edição do campeonato. “No segundo Cambeta, vieram uns meninos de São Paulo, junto com o Gibi, que era daqui, e montaram a equipe ‘Os jovenzinhos’. E entraram junto com os adultos. A torcida queria os ‘jovenzinhos’, porque eles eram ‘fraquinhos’ no jogo, mas encararam os maiores. Foi aí que os organizadores tiveram a ideia de criar a categoria ‘infantil’, no ano seguinte”.






Abdo e amigos do Cambeta
Abdo foi campeão seis vezes do Cambeta, uma na categoria infantil e cinco vezes pela categoria “livre”. Campeão pela primeira vez, em 1991, Abdo garante que Bete não é só um simples jogo ou esporte, para os alfenenses, mas um estilo de vida. “Devo muito ao Bete, sempre pratiquei e foi o esporte que me propiciou estudar gratuitamente em um dos melhores colégios particulares da cidade. Não pagava nada. Era patrocinado por eles, só para disputar o Cambeta. Estudava no Polivalente, e foram atrás de mim, quando fui campeão da categoria livre pela primeira vez. Estava na 8ª série e eles me disseram: ‘se quiser terminar o segundo grau no Promove, vai na segunda-feira lá que não vai pagar nada’. Não pagava material, nada. Jogava para eles todos os anos, davam bicho também”.


Tanta dedicação assim não era à toa. Quem quisesse se tornar um campeão do Cambeta, teria de enfrentar meses de preparação, na praça ou em lugares improváveis. “A paixão era tão grande que, quando criaram a categoria infantil comecei a treinar, um ano antes, na roça, nos campos de café, para poder correr muito mais e voar na hora do campeonato”.

No caso de Abdo, a rivalidade não era só com outros adversários, fortes como ele. Tinha seu irmão, Anuar, outra lenda viva do Cambeta. “Passamos a ser grandes rivais durante os campeonatos, aconteceu naturalmente. Anuar tem mais títulos do que eu. Das quatro finais que joguei contra ele, perdi três. As cinco finais em que fui campeão, nenhuma foi contra ele”, recorda Abdo.






Rivalidade, sim, mas cresceram aperfeiçoando o estilo próprio, como espelho um do outro. Criando até jogadas inéditas, que muitos copiaram. 

Para Abdo, jogar Bete exige muito mais do que talento. “Psicologia, porque sabia como jogar, freio; energia, porque não tinha bola perdida, ia atrás da bola, mesmo. 

E a terceira, o Anuar foi o primeiro cara que deu uma ‘betada’ de costas, girando o corpo e betando. Eu girava, ficando na mesma base, enquanto ele girava totalmente, no eixo do próprio corpo. Ele se inspirou no que eu fiz, mas inovou mais ainda”.











Jogador tentando pegar a bolinha, na fonte da Praça Getúlio Vargas
Em todos esses anos jogando e coordenando o Cambeta, Abdo já viu acontecer de tudo um pouco, na competição. Jogos históricos, como a final que teve dois campeões, porque o jogo nunca acabava e as duplas sem nenhuma força para continuar a jogar. Abdo era um deles. Ou ainda, “O jogo da fonte”, em que o personagem é um grande amigo dele. “Caio Tuleco tinha mais de 100 quilos, formava dupla com o João Sérgio. Um dia, o rebatedor adversário deu uma betada que a bolinha foi cair dentro da fonte. Tuleco saiu correndo, pulou e agarrou na primeira borda da fonte, mas esqueceu que ia ficar sem os pés para apoiar. Pum, caiu para trás, voou água para todo lado”.


E se o grande “barato” do jogo Bete é a “betada”, que isola a bolinha, Abdo não iria se esquecer das diversas histórias engraçadas, inéditas, perigosas, mas que nunca machucou ninguém. “Muitos jogos acabaram na primeira betada. Uma vez, um cara ‘isolou’ a bolinha na betada, e ela atravessou a janela de um carro que passava pela rua. O jogador saiu correndo atrás dela, mas não percebeu que a bolinha foi embora com o motorista. Quando o campeonato era disputado na “mão inglesa” (rua que separa a praça em duas partes), as betadas iam quase sempre dentro da farmácia Bernardes. E eles não devolviam a bolinha. A betada mais alta é do Eduardo Salgado, oitavo andar do prédio que existe na praça. O cara era tenista profissional. Jogava com uma mão só. A dupla fez 6 pontos com os adversários só olhando para cima, vendo onde a bola estava indo”, recorda Abdo.


Abdo também não se esquece dos anos em que a competição chegou a ter eleição da “Garota Cambeta”, festas grandes, em casas noturnas da cidade. Mas, mulheres não só desfilavam. “Teve equipe feminina que muitos homens não aguentariam enfrentar como a de Mila Tiso (sobrinha do Wagner Tiso), a irmã dela, Luiza Tiso, a Juliana, Tatiana Assunção e Mirela. A partir do 8º Cambeta começou o feminino”.

São três décadas de histórias de uma competição que surgiu de uma brincadeira e virou mais do que esporte. Cambeta, para quem é de Alfenas, significa fazer novas amizades, interagir, inspirar, conviver, manter viva uma cultura de rua, ensinar e aprender, princípios que também norteiam o programa Cidade Escola. Muitos namoros, paqueras e até casamentos também surgiram durante os 15 dias da competição. A realização desta trigésima edição do Cambeta, em 2017, tem três personagens que trazem histórias como essas.


O jovem Lucas Braga, ou melhor, Luquinha, de apenas 14 anos, e os veteranos campeões, Zé Rafael, 38 anos, e “Cabelo”, 33 anos, são o exemplo mais claro da paixão causada por esse esporte no povo de Alfenas. O roteiro parece sempre ser o mesmo: um inspirando o outro a se tornar um campeão. Um completando o outro quando entram em quadra para jogar Bete.

Luquinha nunca havia jogado Bete até completar 11 anos de idade. Assim como muitos outros jogadores que surgiram nesses 30 anos do Cambeta, Luquinha foi levado pelo pai, Luciano Maradona, para ver os jogos. Até que Luquinha viu Zé Rafael jogar. E se inspirar. “Achava legal, chamei um amigo de fora e comecei a brincar. No primeiro ano já ficamos na final. Eu falei: ‘caramba’. Fui pegando gosto e quando vi, no primeiro ano já ganhei, a dupla era com o Vinicius Jacob. Aí mudei de parceiro, passei a jogar com o Pacheco, ganhamos dois campeonatos. Mas ele mudou de cidade, neste ano. Aí chamei o Jairo. Estamos sem perder, até agora. E se Deus quiser, vamos ganhar”.


Luquinha e Phelipe, parceiros no Cambeta
Luquinha é daqueles “fenômenos” no esporte. Tudo que começa a praticar, se dá bem, pela dedicação e técnica. É campeão mineiro de tênis, na categoria até 17 anos, joga o sul-mineiro de futebol de campo e futsal, além de já ter jogado vôlei, pela seleção de Alfenas. No Cambeta, não foi diferente, no ano passado jogou pela primeira vez na categoria livre, mesmo sendo da infantil e foi vice-campeão, junto com Phelipe e Jairo, que formam a equipe de nome curioso: Power Guido. Um trocadilho com o instrumento utilizado para jogar Bete: “pau erguido”. E Luquinha foi vice-campeão jogando contra quem o inspirou a jogar. “Ano passado, chegamos na decisão, invictos. Na final, disputada em três sets, ganhamos o primeiro, perdemos o segundo, porque o ‘Cabelo’ deu uma ‘betada’ que acabou com o jogo. A dupla ‘Cabelo’ e Zé Rafael. Tínhamos ganhado deles, antes, durante o campeonato, mas na final não deu”.


Zé Rafael (esquerda) e "Cabelo"
Luquinha é jovem, terá muitos anos pela frente para se igualar a Anderson “Cabelo” e Zé Rafael, dois veteranos imbatíveis do Cambeta nos últimos anos. Campeões nove vezes e desde 2011, invictos. E lá se vão 20 anos de parceria, amizade e muitos títulos. Zé Rafael, 38 anos, começou a disputar o Cambeta tarde, quando tinha 24 anos. “Cabelo”, apelido por conta dos cabelos grandes que tinha quando jovem, tem 33 anos e começou a disputar o Cambeta em 1996.




"Cabelo", 20 anos de Cambeta
“Cabelo” é o exemplo claro do quanto o Cambeta representa na vida de muitas pessoas. Muitos vem passar férias em Alfenas, como um pretexto para jogar Bete. Com ele é assim, há vários anos, desde que se tornou técnico de som de grandes bandas brasileiras. Vive viajando pelo país, mas quando é hora do Cambeta, tudo para. “Peço férias sempre em julho para participar. Minha mãe mora aqui. Teve um ano que um chefe disse para mim que não iria conseguir me liberar para vir para cá. Virei para ele e disse: ‘não tem problema, não, amanhã eu trago a carteira profissional para você dar baixa’. E ele: ‘como assim?’. Disse que iria para Alfenas, ele liberando ou não”.


Zé Rafael, em mais uma "betada"
Com Zé Rafael, não foi diferente. Disputar o Cambeta sempre exigiu disciplina, treinos intermináveis. “Quando comecei a jogar, era muito mais competitivo. O pessoal competia com garra, não tinha bolinha perdida. Antes, quando o Anderson (Cabelo) morava aqui, em junho, a gente começava a treinar. Chegava na praça, duas, três horas da tarde e saia dez, onze da noite. Tinha até papel para marcar os jogos treino das equipes, tanta gente que juntava. Enchia de gente, competidores. Não era como hoje, que arma as arquibancadas e tem os jogos. Havia muito treinamento. Um mês antes a gente estava aqui, treinando, pegando condicionamento, porque só de pegar a bolinha, o braço dói demais, arrebenta tudo, dói muito”.


E assim, treinando, a dupla fez jogos inesquecíveis. Por incrível que pareça, uma derrota, na primeira final que disputou do Cambeta, o faz chorar até hoje, só de lembrar daquele dia. “Tenho um jogo que me marcou muito, contra o Anuar e o Vitinho. Foi nossa primeira final, com o Cabelo parceiro. Foi ali, na mão inglesa (rua que separa as duas metades da praça). Perdemos por um vacilo, mas foi o melhor jogo que fiz no Cambeta, até hoje. Mais de 4 horas de jogo. Chovia e parava, mas o jogo seguia. Eles eram os caras a serem batidos, Pelé e Maradona, juntos. E nós fomos a equipe destaque do Cambeta. Chegamos na final, sem perder para ninguém, arrebentando com tudo. Na arquibancada, todo mundo torcendo para nós”.

Neste instante, Zé Rafael começa a chorar, de emoção, pois no final deste jogo, em vez da torcida correr para abraçar os campeões, foram abraçar a dupla revelação. “Foi bom demais, inesquecível. É por isso que continuei jogando tanto tempo depois. Pretendo parar neste ano. Se Deus quiser, quero fechar com chave de ouro, sendo campeão”.

Campeão ou não, Zé Rafael e Cabelo, Luquinha e todos que participaram dos 30 anos do Cambeta, já são vencedores. 

Carregam na alma um dos elementos fundamentais do programa Cidade Escola: a diversão. 

E, se divertir, sem deixar uma cultura de rua morrer. Parabéns Cambeta, vida longa à competição e ao jogo de Bete.

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Crédito fotos de antigas edições do Cambeta: Arquivo Jornal dos Lagos, Marilson Ottoni e Isabella Alves

                                          




























quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cidade Escola: Unidos, por Santa Luzia


Uma das principais características do programa Cidade Escola é ter entre seus coordenadores de núcleos gente que seja, prioritariamente, do próprio bairro ou da região. E mais do que isso, que os moradores o conheçam e confiem nele.

Entre os vários coordenadores de núcleos, há um que tem um vínculo para lá de especial com a comunidade. Se alguém procurar por Bruno Pereira, no bairro de Santa Luzia, certamente não o encontrará. Mas, se chamar por Bruno “Mocotó”, todos saberão de quem se trata.

Ele é jovem, tem apenas 29 anos de idade, mas parece que vive no bairro há muito mais tempo. Todos o conhecem e a recíproca também é verdadeira. Qualquer coisa que se faça ou pense em ser feita no (e pelo) bairro, Bruno estará no meio, com certeza. A paixão pelo Santa Luzia é maior do que tudo.

Hoje, Bruno coordena o núcleo do Cidade Escola, no bairro Santa Luzia, instalado no mesmo prédio onde funciona o Centro Vocacional Tecnológico (CVT). São quatro salas, no andar superior do prédio e ainda uma quadra poliesportiva, em frente ao CVT, e as instalações da creche do Santa Luzia, bem próxima dali. 








Nunca o bairro esteve tão movimentado com as diversas atividades trabalhadas pelos dez integradores culturais como capoeira, manicure, violão, viola caipira, tênis e atividades recreativas na quadra (futsal, pingue-pongue, jogos de tabuleiro, bete/taco). Os participantes do Cidade Escola também podem aproveitar a estrutura do CVT e utilizar os computadores utilizados nos cursos de formação da Uaitec (Universidade Aberta e Integrada de Minas Gerais), e ainda a lousa digital, para exibição de filmes e apresentações de trabalhos dos jovens da comunidade.


Em poucos meses de atividades, já são quase 100 participantes, com destaque para a creche noturna, única nos diversos núcleos do Cidade Escola espalhados pela cidade. “A maioria aqui são jovens abaixo dos 15 anos. Temos também muitos alunos do bairro Santa Edwirges, que fica colado aqui. Os resultados são muito bons até agora. As mães comentam que não ficam mais preocupadas, sabendo que seus filhos estão aqui com a gente. Com a creche noturna, a mãe vai trabalhar ou fazer o que tem que fazer, despreocupada. Tem noites que recebemos até 30 crianças”, confirma Bruno Mocotó.


Mas, quais seriam as razões para tanta confiança de mães e pais pelo jovem coordenador? Primeiro, a herança do respeito deixada pelos pais, moradores dos mais antigos, há mais de meio século, do Santa Luzia. A segunda razão é o envolvimento de Bruno, desde quando ainda era bem pequeno, com eventos de rua, culturais, educativos, musicais, ou, simplesmente, pelas festas organizadas pela comunidade.





Bruno começou a se envolver em atividades culturais quando tinha apenas 8 anos de idade. Isso mesmo, 8 anos. Era apenas uma criança quando se interessou espontaneamente pelas Companhias de Reis, festa que um dia já foi bastante tradicional em Alfenas. Para quem não sabe, nas festas de Santos Reis são feitas representações dos Três Reis Magos por meio da música, dança e versos. Há vários integrantes nas companhias como os Três Reis Magos, Coro, Mestre ou Embaixador, Bandeireiro ou alferes da bandeira, Festeiro e os Palhaços, também chamados de bastiões. Bruno era um bastião, aqueles que se vestem com máscaras e realizam acrobacias usando um bastão. “Comecei pulando bastião na companhia do seu Libertino, depois sai para o Toninho, depois para o Pontalhete, para o Pedro Augusto, difícil qual a companhia que já teve aqui em Alfenas que não saí. Andei pela cidade inteira, sou muito fã, devoto dos Três Reis Santos”, relembra com saudade, Bruno.


Mas não foi tão simples e fácil, assim. Um fato ocorrido neste período de folia de Reis, marcou definitivamente a personalidade de Bruno. Eram as primeiras festas de que participava e, por ainda não saber cantar os versos, acabou “preso”, dentro do quarto de uma das casas visitadas pela Companhia de seu Libertino (uma das mais famosas da cidade), uma tradição nestes eventos. Levou uma “dura” do pessoal, mas decidiu, mesmo sendo uma criança, aprender tudo que envolvia as festas de Santos Reis. “Aprendi os versos de tanto ouvir, tinha interesse, ia na casa dos mais velhos para aprender. Sei dezenas de versos, do Cruzeiro, do Presépio. As companhias me ajudaram a chegar onde estou hoje. Graças a Deus. Pelo conhecimento que tenho, por tudo que vivi, por não ter sido aquelas pessoas que ficam presas em casa, sem aprender nada. E se fosse outra pessoa no meu lugar, como foi nas primeiras vezes, não voltaria mais. Foi ali, naquela humilhação de ficar preso em um quarto, que aprendi, de verdade, os versos. Hoje, onde chego, o povo bate palma. Eu sou assim, o que tenho vontade de aprender, vou atrás, corro e aprendo mesmo”, garante Bruno.


E foi exatamente assim, vendo, aqui e ali, aos 16 anos, que Bruno descobriu outra de suas paixões nas artes das ruas. Gostava de dançar. E não só aprendeu, como passou a dar aulas de street dance, dança de rua, e ter o próprio grupo. “Começamos a dançar com o Vardinho, um dos pioneiros na dança no bairro. Fui aprendendo, era o mais novo de todos. Acabou o grupo e comecei a dar aula por minha conta, fui evoluindo. Depois, montei meu próprio grupo, o The Over Boy’s, que depois passou para Comando de Rua”.



Bruno começou a dar aulas nos porões da igreja Santa Edwirges. Tudo, como voluntário. “Quando começamos, tinha no máximo 10 alunos, depois foi para 30, 40, cheguei a dar aula para 50 alunos, sem cobrar nada, só voluntário. Usava o som da minha casa, pegava o som das minhas irmãs e levava. Corria atrás de tudo”, relembra Bruno.

E foi assim, sempre, correndo atrás que o coordenador do Cidade Escola começava a ficar cada vez mais “famoso” nas ruas da cidade, especialmente, no Santa Luzia. “Juntava todo o povo do bairro, criançada toda. Com as aulas, acabamos montando um grupo para disputar concursos de dança. Ficamos em terceiro no melhor do sul de Minas, realizado em Machado. Depois ganhamos em primeiro, também em Machado. Tem troféu de Carvalhópolis, Divisa Nova. Viajamos o sul de Minas inteiro”.



Bruno é inquieto, festeiro por natureza. E se há algo que envolva a comunidade de Santa Luzia, e ele possa ajudar, pronto. E lá se foi ele comandar a bateria que toca em jogos importantes do Chapadão, a equipe mais tradicional do bairro. Vai onde o time for, não importa a distância. 





Também foi criador e jogador de uma outra equipe no bairro, o Esporte Clube Santa Luzia. No bar que leva o seu apelido famoso, Mocotó exibe com orgulho os vários troféus conquistados.

Mas o que tornou Bruno Mocotó de fato, “famoso” no bairro e na cidade foi o pagode. Junto com outros amigos, criou o grupo Mistura de Raça. Tocou nos quatro cantos da cidade, em quase todos os bares. Ele é o vocalista do grupo, paixão que começou bem cedo. “Já tenho experiência com música, gosto desde criança, fui gravando as músicas na cabeça.


Começamos a ensaiar, tocar só para curtir, mas aí foi melhorando, melhorando, e já começamos a ganhar cachê num bar e outro. Fomos juntando, comprando nossos instrumentos, iluminação. Antes, era tudo emprestado, de um e outro. Fomos ganhando 130, 150 reais, aqui e ali, e sempre juntando, compramos microfone, caixa, cavaquinho”.

E a música acabou levando Bruno para algo que sempre havia sonhado: ter um bloco de carnaval. A experiência como líder de bateria do Chapadão e o grupo de pagode fez surgir o Unidos do Santa Luzia. 


No carnaval 2017 foi o compositor do samba-enredo do novo bloco que se apresentou na Praça Getúlio Vargas. No início, o sonho de Mocotó era bem menor, mas como tudo em que se envolve no Santa Luzia, o sonho acabou tomando outra proporção. “A gente ia sair num bloquinho, de uns 5 ou 6, só para dizer para as pessoas que estávamos chegando. Quando começamos a ensaiar, o povo do bairro pedia para parar com a barulheira de lata. Passava outro, e pedia para parar com isso. Foi passando o tempo, de 5 foi para 10, de 10 para 20, de 20 para 30, e aquele que criticava também resolveu se juntar com a gente. Os vizinhos também resolveram se juntar, e montamos um ‘trem’ que todo mundo curtiu, porque saímos, no carnaval, com mais de 150 pessoas”.


Viver de música e cultura neste país é para poucos. Com Bruno não foi diferente. Tinha de ajudar no sustento da família, seis irmãos, três homens e três mulheres. Não conseguiu realizar o sonho de se formar em Educação Física. Teve de ir à luta, trabalhar em empresas com serviços braçais, pesados. Passou dois anos pela Alfechapas. Depois, mais um período na Tiph, fabricante de peças de caminhão. A aprovação para esta empresa tinha de ter o jeito irreverente e apaixonado por Bruno, pela música, criatividade pura. O apelido de “Peixe”, entre os amigos do trabalho, tem história. “Quando entrei lá, era feita uma seleção, uma peneira entre 20 candidatos. Eles organizam grupos para fazerem atividades, uma música, ou um teatro, tinha que inventar alguma coisa falando sobre as peças de caminhão, porque o desperdício de peças era enorme e o prejuízo muito grande para a empresa. 


Então eles bolaram essas atividades, para ver se saía alguma coisa criativa, para evitar o desperdício. Um grupo fazia teatro, outro inventando o que ia fazer. E o nosso, parado, pensando o que fazer. No meu grupo eram quase todos envergonhados, cabisbaixos. Aí, disse a eles: ‘se quiserem, faço uma música’. Escrevi a letra. O rapaz da empresa chamou os grupos para se apresentarem. Um fez teatro, o outro cartaz, e, na hora do nosso, fui para o meio do mato, peguei dois pauzinhos da árvore, coloquei o boné para trás, e o restante do grupo só com a boca: tumtumtá, tumtumtá, tumtumtá, e comecei a cantar. O cara da empresa ficou doido. Pediu que eu voltasse na outra semana para cantar para o dono da empresa. E ele veio mesmo. Ganhamos brindes, e todo mundo na empresa começou a me chamar de ‘Peixe’”.





Bruno e seus pais.
Tanta criatividade e força de vontade de viver tem fonte de inspiração. Bruno tem um respeito e carinho enormes pelos pais. Ele sabe do esforço e luta deles para criar os filhos em condições tão adversas. O vínculo forte com o bairro Santa Luzia vem desde os tempos, há 50 anos, quando as ruas do lugar, cheia de ladeiras, eram só terra e poucos casebres.

O pai se chama João Pereira, mas todos o tratam como “Paraguaçu”, terra onde nasceu há 75 anos. A mãe, Dulce Rocha. Paraguaçu é muito respeitado por todos no Santa Luzia, talvez o morador, vivo, mais antigo dele. Ver sua pequena casa onde sempre viveu e criou todos os filhos, em dois cômodos, arrumada e bonita, não esconde as dificuldades passadas por eles. “Em Paraguaçu era uma pobreza danada. Trabalhei na Paraguaçu Têxtil, aí minhas irmãs foram para o Rio de Janeiro, desesperadas, trabalhar, para tratar de nós. De lá, pagavam nosso aluguel. Meu pai sofreu muito na roça, trabalhava para os fazendeiros. Com 18 anos fui embora para o Rio. Fiquei 5 anos e vim para Alfenas”.


Paraguaçu e dona Dulce,
moradores mais antigos do Santa Luzia
Seu Paraguaçu veio para ensinar os tecelões da indústria têxtil Saliba, instalada em Alfenas, a fazer panos, pois desde os 14 anos, trabalhou com isso em Paraguaçu. A vida dura o levou a morar em São Paulo, por uns tempos, mas voltou, apesar das enormes dificuldades no bairro que escolheu viver. “Aqui, quando chovia, era uma encrenca, por causa das subidas e descidas, e tudo de terra. Numa chuva forte que teve no passado, derrubou várias casinhas, a minha ficou em pé. Não tinha água, nada, só uma cisterna com uma torneira para o povo usar a água. Às vezes, a gente chegava da ‘panha’ de café, trabalhamos eu e ela (apontando para dona Dulce), tinha dia de chegar às 10 da noite. As crianças tudo pequenininhas, junto. Aqui em casa era fogão a lenha, luz de querosene”.


Dona Dulce reforça a lembrança dos tempos difíceis, nas plantações de café. “Não tinha onde deixar os filhos, tinha que levar. A gente ia de caminhão, não tinha esses ônibus, como tem hoje. Trabalhamos a vida inteira, na roça. Chegava às 10 da noite, fazer comida, tirar água da cisterna, acender fogão a lenha. Enquanto eu fazia a comida, ele ia catar lavagem, porque a gente tinha uns porcos. Dava para contar nos dedos a quantidade de casas que tinha ao redor daqui”.

E mesmo com todas essas dificuldades, seu Paraguaçu não tem queixas do passado, muito menos do presente, pois viu os filhos crescerem, sem se envolver em problemas comuns entre os jovens atuais. “Vimos tudo isso aqui se formar. Foi duro criar os filhos, mas deu tudo certo. Parece que vem de berço, é Deus, é luz”.


Talvez, por tudo isso, Bruno Mocotó está tão entusiasmado e envolvido com o Cidade Escola no Santa Luzia. Sabe que os jovens de hoje estão tendo oportunidades que ele e amigos não tiveram, mas que nem por isso, deixou de se dedicar à comunidade, à cidade que tanto ama. “Em 2009 entrei para o Cidade Escola. Dava aula de dança de rua. Mexia com dança, teatro, música, era bem conhecido. O único que dava aula de dança era eu. Tinha meu próprio grupo de dança. Dei aula na APAE, no Instituto da Ipanema, nos Dias Melhores, no Tancredo Neves e o último lugar foi no Orlando Paulino. Dei aula para muita gente na cidade. Era trabalho voluntário, corria atrás, fazia a coisa acontecer, da mesma forma”.


E assim, Bruno Mocotó continua a fazer. A nova estrutura e os novos conceitos do Cidade Escola só o fazem acreditar em dias melhores. Voltou a dar aulas de dança, participa de diversas atividades como professor. “Sou apaixonado por isso aqui, pela comunidade. Estamos sempre juntos, interagindo, ajudando, participando. Sou nascido e criado aqui, na Rua Barão de Alfenas. Adoro este bairro, o que puder fazer por ele, faço. Tem gente que tem 50 anos no bairro, mas não tem as histórias que já vivi por aqui”.