quinta-feira, 25 de maio de 2017

Cidade Escola: "Camburão", uma vida sobre os tatames


Pode ser que alguém não o conheça, mas, no mínimo, “já ouviu falar”. E se o  encontrar em algum lugar e chamar pelo nome, Carlos Alberto Ferreira, talvez ele não pare e nem dê atenção. Mas se disser, “Camburão”, não tem erro. É ele. O homem que é visto quase todos os dias pelas ruas de Alfenas, com seu quimono azul, indo para lá e para cá, em qualquer lugar onde um tatame de Jiu-Jitsu estiver montado, nos vários núcleos do Cidade Escola.


Carlos “Camburão” é uma lenda viva do esporte alfenense, um supercampeão que levou (e continua a levar) o nome da cidade pelo planeta, nas diversas competições, locais, estaduais, nacionais e internacionais das quais participa.

E lá se vão mais de 25 anos de dedicação e paixão pelo esporte, pelas lutas, pelas artes marciais.

 Um caminho repleto de vitórias, persistência, e também de muita determinação e força para conseguir superar problemas pessoais e profissionais.






Aos 36 anos, “Camburão” e cinco de seus “discípulos” levam a atividade do Jiu-Jitsu para diversos núcleos do Cidade Escola. Por enquanto, as atividades acontecem em seis escolas: Napoleão Sales, Caensa, Caic, Tancredo Neves, Arlindo Silveira Filho e Polivalente. Mas em breve estará também em outros núcleos. Quase duzentos jovens já aprendem o Jiu-Jitsu com “Camburão” ou com um de seus “discípulos”.

Camburão poderia ter alçado voos maiores no mundo das competições, mas optou por ficar em sua terra, trabalhando por uma melhor formação para os jovens através do esporte. É uma longa história de amor, pelo esporte e pela cidade. Camburão começou a praticar esporte bem jovem, estimulado sempre pelo pai, Carlos Henrique Ferreira. Primeiro com a capoeira, passando pelo judô, taekwondo, até chegar ao Jiu-Jitsu e ao MMA.


Quem vê a lista enorme de títulos, medalhas, cinturões conquistados, não imagina o trajeto feito por esse guerreiro, negro, de apenas um metro e sessenta e três de altura, atarracado, forte, de orelhas machucadas pelos vários anos de lutas nos tatames de diversas cidades e países. 

Com certeza não caberia aqui, mas os principais títulos são: pentacampeão mineiro, bicampeão Brasileiro, bicampeão paulista, campeão pan-americano em 2007, disputado na Califórnia, Estados Unidos; campeão desafio Brasil x Europa, em 2009 e campeão sul-mineiro de MMA, no torneio Okinawa Fight, em 2010.





Toda essa carreira de títulos começou em meio a um drama familiar. “Meu pai faleceu novo, com 33 anos. Era PM, policial militar. Minha mãe não conta, mas meu pai se suicidou. Acho que foi a pressão do trabalho dele. Ela nunca contou detalhes e eu era muito pequeno na época, tinha 13 anos. Não lembro muito bem das situações. Eu já treinava, gostava do esporte, fazia judô, taekwondo, com um professor que veio do Rio de Janeiro, mestre Paulo Roberto da Silva”.

“Camburão”, porém, não esquece de agradecer a formação que teve em Alfenas, antes da chegada de mestre Paulo. “Professor Paulo veio para cá, na década de 1980. Foi ele quem implantou o trabalho com o Jiu-Jitsu aqui. Antes de ele chegar já fazia capoeira, desde os 9 anos, com mestre Suassuna, Buiu. Venho também da capoeira. Os mais velhos na modalidade, aqui, são o Osvaldo, professor de Karatê; o professor Reinaldo, da capoeira e o Carlinhos, de judô, que é professor hoje no Polivalente. O Jiu-Jitsu começa em pé, na competição. E a base, em pé, é o judô. Aprendi muito com o Carlinhos. Cheguei na faixa roxa do judô. O treino que dou hoje no Jiu-Jitsu, em pé, para a molecada ficar esperta, vem tudo do judô que eu aprendi com ele”.


"Camburão" (2º da esquerda para a direita),
e Mestre Iran Brasileiro (agachado),
durante 2ª Copa Iran Brasileiro, em Paraty
Para compreender a trajetória de quase todo atleta no mundo das lutas, de qualquer arte marcial, deve-se entender que todos são “discípulos” de algum mestre ou academia. “Discípulos” procuram o que há de melhor, sempre, para subir no esporte. E foi assim que Carlos “Camburão” acabou indo e vindo, entre Minas e Rio de Janeiro, durante seis anos, como um bom discípulo.  Mestre Paulo Roberto levou-o para a academia de mestre Iran Brasileiro de Alvarenga, em Divinópolis, faixa coral de Jiu-Jitsu (acima da faixa preta), um dos mestres mais respeitados no esporte. O taekwondo, que chegara a ter mais de dois mil praticantes em Alfenas, começava a ficar para trás.

E “Camburão” encontrava, assim, no esporte e no Jiu-Jitsu, uma forma de superar a perda do pai. “Nessa época, 1994, Jiu-Jitsu não era essa febre que é hoje. Não existiam faixas pretas na época. Eram quase todos faixas azul e roxa. Ele (mestre Paulo Roberto) fez o curso com o mestre Iran, e eu treinando junto. Tinha 15 anos. Falei com minha família que iria seguir no esporte. Tinha perdido meu pai, vou me agarrar no esporte. Íamos de Alfenas a Divinópolis, para treinar, graduar. Chegou uma hora que mestre Iran nos disse que era o momento de aprender com o Royler Gracie, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro”.


Começou a surgir aí a equipe que até hoje “Camburão” defende e ensina a seus alunos: Pantera Negra. No Rio, Camburão ficava na casa dos tios e avós, no morro do Cantagalo. “Foi lá que tive a base boa como atleta. Mas foi aqui, em Alfenas, que eu pude começar a base do esporte. Fiquei seis anos indo e vindo, Minas, Rio de Janeiro. De lá, fui para o Pan-americano, na Califórnia, tudo pela equipe CheckMat, da família Gracie”.


Era o ano de 2007, marco e divisor na carreira do jovem Carlos “Camburão”. O ano em que começava a conquistar títulos internacionais importantes como o de campeão pan-americano. Mas não foi nada fácil. A falta do preparo adequado para competições internacionais sempre existiu com atletas brasileiros. Com “Camburão” não foi diferente. “Quando cheguei nos Estados Unidos, não sabia, passei mal com o clima. Desci no aeroporto, senti falta de ar, desmaiei, tive que tomar injeções, fiquei num respirador artificial, mas fui campeão”.


Com a vitória, “Camburão” sentiu que era o momento de mergulhar de vez na carreira de atleta de Jiu-Jitsu. Mas, apesar do apoio da família que estimulava sua permanência nos Estados Unidos, para treinar e crescer no esporte, como muitos brasileiros fizeram e se deram bem, ele preferiu voltar a Alfenas. Era casado, tinha um filho. “Quase todos os meus amigos ficaram por lá, estão todos muito bem de vida, com academias próprias. 2007 foi o início da febre, todos chegando ao país para praticar o Jiu-Jitsu. Nós saíamos daqui, para trocar porrada com os americanos, e treinar eles também”.


Dois anos depois, em 2009, “Camburão” ainda teve outra grande conquista na carreira dentro do Jiu-Jitsu. Foi para a Alemanha, se preparar para o Desafio Brasil x Europa, que seria disputado em Lisboa e válido pelo campeonato europeu de Jiu-Jitsu. Tempos difíceis, precários, mas valeu a pena. Após três meses de muito sofrimento, “Camburão” voltou ao Brasil com o cinturão de campeão. “Na Alemanha foi duro, ruim de grana, precisava treinar, lutar, ganhar essa parada. Teve um mês que passava num sushi bar, onde um brother que eu conheci em São Paulo trabalhava. Eu trocava treino de Jiu-Jitsu por alimentação. O cara saía do sushi com bandejas de salmão, e eu o treinava numa academia próxima da casa dele, 11 da noite. Estava sem comer, varado de fome”.


“Camburão” teve nova chance de permanecer em terras onde o esportista é valorizado. Mas, desta vez, a decisão de retornar foi por outro motivo. A frieza no relacionamento humano falou mais alto. “Eles não têm é o calor humano, igual ao brasileiro. Uma coisa que não acontece aqui é ficar sem comida, pois onde come um, comem 20. Americanos e europeus não estão nem aí com você, o cara fecha a casa dele inteira e deixa você morrendo de frio do lado de fora. Passei muito perrengue na Europa”.

E não era só isso. “Camburão” já havia decidido. Queria se dedicar aos jovens de sua terra, na iniciação e formação deles em Alfenas e região. Já quando retornou do Pan-americano, em 2007, criou a AJJA, Associação de Jiu-Jitsu de Alfenas. Passou a se dedicar ao Cidade Escola, em sua primeira versão e a organizar eventos em sua academia. “Eu aposto na minha cidade, ajudar a molecada. Costumo dizer para minha mãe, se já passei por isso tudo, perdi muita coisa na vida como atleta, por Alfenas, pela molecada, para implantar a coisa aqui, vou ficar por aqui mesmo”.


E ficou. “Camburão” passou a dar aulas de Jiu-Jitsu em diversos núcleos do Cidade Escola espalhados pela cidade. E é assim até hoje. São centenas de jovens, talvez, milhares, se forem levados em conta aqueles que treinam em academias particulares onde “Camburão” é professor.

Mesmo trabalhando na formação de diversos atletas (vários chegaram a títulos importantes, locais, estaduais e nacionais), ele não parou de competir com a equipe Pantera Negra. Em 2010, estreou no MMA (Mixed Martial Arts) conquistando o cinturão de campeão sul-mineiro, no Okinawa Fight. Fez dezenas de outras competições, competindo ou organizando, sempre com a mesma dificuldade para levantar verbas para viagens e competições internacionais. Como a que pretende fazer em breve, em novembro. “Recebi um convite da federação para lutar o mundial de Jiu-Jitsu, master, na Califórnia. Porque fui campeão em 2007, no Pan-americano, me deram essa oportunidade. Já corri atrás da documentação, agora, falta o apoio”.


Se não conseguir, com certeza, “Camburão” não ficará triste. Seus olhos estão brilhando de alegria com o evento que está ajudando a organizar dentro do programa Cidade Escola. 

No dia 28 de maio, domingo, a partir das 10hs, acontece o primeiro campeonato de Jiu-Jitsu do Cidade Escola, nas quadras da escola Polivalente. 

Serão quase cem jovens, entre 5 e 12 anos, nas categorias, mirim, infantil e infanto-juvenil rolando pelos tatames que serão montados na quadra da escola. 

À tarde, todos os jovens vão poder acompanhar e aprender muitas das técnicas do Jiu-Jitsu, com uma competição entre atletas adultos, categoria absoluto, de várias academias da cidade.





Carro modelo "camburão", utilizado pela PM.
A torcida que estará presente no Polivalente, vibrando e cantando gritos de incentivo aos competidores fará “Camburão”, certamente, recordar algo marcante em sua trajetória de vida. Todos devem se perguntar: mas por que “Camburão”? É algo que faz amenizar a dor da perda precoce do pai. “O apelido veio pelo pai. Tinha o carro veraneio, que era chamado de camburão. Ele almoçava naquele carro, eu tinha 6 anos e comia junto com ele. Quando minha mãe vinha me pegar, não queria descer do carro, começava a chorar. Aí a galera começou a apelidar de camburão. Você não quer andar de camburão? Nas competições, um dia surgiu isso aí. Os caras de Minas foram comigo para o Rio de Janeiro, na final do brasileiro de 2002. Tinha feito nove lutas, cheguei na final, era quinze para meia noite, e a galera começou a agitar, com as frases de apoio: “Uh, f*, o camburão apareceu, uh, f*, o camburão apareceu”. Aí a galera do Rio foi na onda e acabou pegando. Quanto mais eu reclamava, mais pegava”.


Flavio Reis, "cria" de "Camburão
No domingo, quando estará trabalhando no primeiro campeonato do Cidade Escola de Jiu-Jitsu, bem que a torcida poderia prestar a mesma homenagem de quando estava no auge da carreira de atleta. “Teve umas competições que eu coloquei meu nome, Carlos Ferreira, mas ninguém sabia quem era. Na hora em que me chamavam no microfone, a galera gritava: uh, é camburão...uh é camburão”.

O sonho de “Camburão”, na verdade, não é a busca de títulos pessoais, nas competições que ainda deve participar (em julho, lutará novamente pelo MMA, em Varginha), mas ver vários jovens se destacando nas competições esportivas pelo Brasil e mundo a fora. Como é o caso do jovem Flavio Reis, 18 anos, medalhista em competições brasileiras e que está com “Camburão” desde bem pequeno. E mais do que isso, saber que jovens do Cidade Escola, praticantes das atividades do Jiu-Jitsu, estão mudando seus comportamentos, em casa e nas ruas, por conta do aprendizado que estão tendo. “As crianças quando chegam nos locais em que damos os treinos, percebem que há uma energia especial ali. Tem conversa boa, tem propósito de evolução para eles. Um menino, aqui no Polivalente, era o maior ‘brigão’. Veio para o Jiu-Jitsu e em pouco tempo já fala calmo, não é mais arrogante, escuta. O Jiu-Jitsu traz muita concentração para quem o pratica. Eu mesmo, tenho uma concentração tão grande que eu luto de olhos fechados. Sinto na pegada onde estou tocando no adversário”.


Para os que não são praticantes de artes marciais, especialmente do Jiu-Jitsu, existe um cumprimento tradicional, de reverência (entre alunos e mestre ou entre dois adversários), em que todos devem colocar os braços esticados para baixo, ao longo das pernas, reclinar a cabeça e pronunciar a expressão japonesa, Oss.  No vocabulário mundial do Jiu-Jitsu, ela é dita, sempre, com o coração, expressando respeito, compromisso e confiança.

Oss, para Carlos “Camburão”. Oss, para o Cidade Escola.


Clique aqui para ver uma das lutas na carreira de Carlos "Camburão"


























sexta-feira, 19 de maio de 2017

Cidade Escola: CEME, um lugar especial


Em Alfenas, é difícil encontrar alguém que não saiba onde fica o CEME, Centro Esportivo Municipal de Educação, um dos núcleos mais importantes do Cidade Escola. Ele ocupa quase todo um quarteirão, próximo à Santa Casa, na região central da cidade. Um lugar histórico, ponto de encontro de diversas gerações de alfenenses, que sempre buscaram no lugar a prática de esportes e, principalmente, as piscinas ali instaladas.


O CEME é um núcleo do Cidade Escola, mas também é aberto para todas as pessoas, basta se inscrever, fazer uma carteirinha e participar das diversas atividades esportivas, físicas e recreativas à disposição da população. O lugar é enorme, com duas quadras de futsal, basquete, vôlei e handebol (esportes coletivos), quadra de vôlei de areia, quadrinha de peteca e um conjunto aquático com piscina olímpica de 25 metros, outra redonda, grande, e uma outra menor.


São várias as opções de atividades como natação, hidroginástica, treino livre (para os que já sabem nadar), recreação (atividades lúdicas, psicomotricidade, dama, xadrez, futebol de dedos, peteca, tênis de mesa), ginástica localizada, funcional, zumba, ritmos e esportes de quadra (futsal, vôlei, basquete e handebol).





Por ser “aberto a todos”, o número diário de frequentadores, entre jovens e adultos, é enorme. “Em abril foram 562 participantes por semana, só a turma da tarde, até 17hs, sem contar as turmas dos núcleos do Cidade Escola. Se juntarmos tudo, são quase mil pessoas”, afirma a vice-diretora e professora do CEME, Julyana Rodrigues.






Integrantes do núcleo Gaspar Lopes, nas piscinas do Ceme.
Com a chegada do Cidade Escola ao CEME, centenas de jovens e adultos que antes não conseguiam usar, principalmente, as piscinas no verão, podem passar horas se divertindo e praticando natação, além das demais atividades de quadra e recreativas. “Um dia, só com o pessoal do núcleo Caic, chegaram 219 pessoas. Com a turma do Residencial São Carlos (Predinho) e Primavera, também não foi diferente. Quatro ônibus, quase 200 pessoas. A média semanal, só com o Cidade Escola é de 200 a 300 pessoas a tarde e quase 200 pela manhã”, contabiliza Julyana.






Julyana Rodrigues, vice-diretora do CEME.




É muita gente e trabalho. E para dar conta disso tudo, o CEME conta com 23 profissionais para os serviços gerais, além de 12 professores. Mas não foi sempre assim. “Até Luizinho assumir, eram apenas cinco professores para atender todas as demandas de atividades. A gente dava conta porque eram pessoas experientes, mas sempre pedimos mais estrutura, e nunca nos foi dado”, revela Julyana.




Só mesmo com profissionais experientes como a professora Julyana Rodrigues para dar conta de tantas atividades. E há ainda agendamento semanal para escolas e até mesmo para os estudantes da Unopar, faculdade de Educação Física a distância, fazerem suas aulas práticas. “A escola Dirce Moura Leite, agenda uma tarde no CEME: nadam, jogam bola, fazem recreação. Em junho, por exemplo, acontece o torneio de futsal do Polivalente. Eles trazem as crianças aqui. Outro colégio, o Ismael Brasil, teve aqui esses dias. Eles amam vir no CEME. Porque enquanto 12 estão jogando, na quadra, outros 20 têm outros espaços para se divertir e praticar alguma atividade”, afirma Julyana.

E os resultados, de melhoria na qualidade de vida, na prática, aparecem rapidamente. “Um garoto entrou aqui, briguento, agressivo, hoje, não dá trabalho na disciplina, é educado, ajuda a gente arrumar o material das atividades, mudou muito. Um aluno especial, com síndrome de down, tinha problemas sérios com bronquite, respiração, estava gordinho, hoje, faz mergulho, respira melhor, teve um desenvolvimento motor e a mãe disse que ele melhorou demais. E temos também uma família, no período da manhã, avó, avô e sua filha, que vão para a natação e a hidro, enquanto as filhas e netos praticam outras atividades”, lembra Julyana.





Rodrigo Freiria, coordenador
do Cidade Escola e diretor do Ceme.
Quem coordena o núcleo do Cidade Escola é o diretor do CEME, Rodrigo Freiria, professor de Educação Física desde 2012, e que também coloca a mão na massa, dando aulas para diversas turmas. Rodrigo conhece bem os princípios integradores do Cidade Escola, porque já havia participado da primeira versão do programa, entre 2008 e 2012, como professor de futebol, na Vila Formosa. E na nova versão do Cidade Escola, nada de separação. “Temos muitos frequentadores especiais, com síndrome de down, autismo, mas fazem tudo junto com os demais, nada de turma ‘especial’. A turma da terceira idade, por exemplo, é uma das mais atuantes, são centenas, mas que se misturam também com pessoas de 24, 25 anos. A zumba também mistura todas as idades. Temos uma mãe que faz aula junto com a filha de 4 anos”, confirma Rodrigo Freiria.

Além da integração, um dos princípios fundamentais do Cidade Escola, há outra atitude que não pode ser esquecida, em qualquer dos núcleos do programa espalhados pela cidade. “Não dizer não para ninguém. É isso o que o prefeito Luizinho nos pediu, abrir as portas para todos, acolher toda a população em geral. Aqui, nunca falamos não, para ninguém. Às vezes, chegam crianças sem shorts adequados para a natação, mas não é por isso que não farão a atividade, porque emprestamos o material até que possam adquirir o seu”, afirma Rodrigo.

Quem iria adorar ver o que acontece atualmente na rotina diária do CEME é um vizinho especial do local. 

Não é qualquer morador, mas a pessoa que mais lutou e se dedicou para ver todo o espaço bem cuidado e disponível para todos alfenenses. 

Não é à toa que seu nome esteja grafado nas paredes que cercam o CEME. 

Desde 2008, na administração Pompilho e Luizinho, o Centro Esportivo Municipal de Educação passou a homenagear Celso Moura Leite.



Celso, esposa e filha, na Praça de Esportes
Arquivo Família Moura Leite
A razão para eternizar seu nome no CEME? Simples. Celso era apaixonado pelo lugar, entregou 20 dos seus 94 anos de vida, para cuidar, preservar e resgatar o espaço que surgiu na cidade conhecido como Praça de Esportes. 

O patrono do CEME morreu há quatros anos, mas deixou uma longa história de amor.

Quem entra nas dependências do CEME e observa a enorme caixa d’água existente no local, pode ver o registro do ano de 1931 em suas paredes, além de uma placa comemorativa de sua inauguração. 

Mas foi somente três décadas depois, no ano de 1962, que a Praça de Esportes seria criada oficialmente. Um começo ruim, porque apesar de ser mantida por funcionários do Estado ficou praticamente abandonada até o ano de 1966.

É neste ano e pelos próximos vinte seguintes que surge o nome de Celso Moura Leite na história do CEME. 

Em 1966, ele assumiu a administração, saiu por 6 meses no ano seguinte, e, em 1968, assumiu definitivamente a administração e a presidência com a criação da AEA – Associação Esportiva de Alfenas. Sim, para quem não sabe, as três letras gigantes instaladas à beira das piscinas têm esse significado.

Não foi fácil o trabalho de Celso pois, logo que assumiu, a situação da Praça de Esportes era precária. De imediato, ele organizou um cadastro de associados, que pagavam uma espécie de mensalidade, chamada de “joia”. Em pouco tempo, o lugar começou a mudar de ares. Construiu uma piscina murada para mulheres, comprou cadeiras para banho de sol, alugou as quadras para visitantes, e, com tudo isso, triplicou o quadro social. A Praça de Esportes funcionava das 6 às 24hs. Era o único clube funcionando na cidade. Ponto de encontro diário para milhares de alfenenses durante as décadas seguintes.

A casa de Celso Moura Leite,
em frente a antiga entrada da Praça de Esportes.
A Praça de Esportes virou praticamente uma extensão da casa de Celso Moura Leite, já que morava bem em frente onde era a antiga porta de entrada do CEME. 

Não era só um administrador, vivia intensamente a rotina do lugar. Em depoimento dado ao Jornal dos Lagos, no ano de 1996, Celso dava a receita para o sucesso de sua administração. 

“Para a gente assumir a direção de uma entidade, tem três coisas fundamentais: primeiro, gostar. Eu gosto de esportes. Segundo: idealismo. E o mais importante, a honestidade. Foi assim que o clube se tornou a sala de visitas da cidade de Alfenas”.


Dos itens mencionados, o esporte transformava o comportamento dele em dias de competições na Praça de Esportes. 

“Ele acompanhava as disputas acirradas que aconteciam entre as cidades da região, Machado, Paraguaçu, Areado e outras. Gritava, torcia, corria em volta do alambrado das quadras para apoiar as equipes de Alfenas. Minha mãe diz que eu sou ele de saias, pelo temperamento, alegria, agitação, extrovertida”, recorda sua filha mais nova, Cilene Fonseca Moura Leite.




Odila e seu filho Aldrio, nora e neto 
mais velho de Celso na piscina da Praça de Esportes
Dona Maria Aparecida Fonseca Moura Leite, aos 94 anos, da varanda da mesma casa onde sempre morou com o marido Celso, ainda se emociona ao recordar da paixão que o companheiro tinha pelo CEME. Chorando, ela garante. “Ele entregou a vida a este lugar. Plantou quase todas as árvores existentes ali. Tirava dinheiro do próprio bolso para manter tudo direito para as pessoas se divertirem e praticar esportes”.




Cilene, a filha, também se emocionou e chorou ao recordar do pai. 

Não só pela entrega que ele tinha pela Praça de Esportes, mas também pela profissão de bancário e, sobretudo, pelas causas sociais, como presidente e fundador da Apae, durante 16 anos, e provedor da Santa Casa.






Família Moura Leite, na inauguração do CEME.








As lágrimas da esposa e da filha também foram pelos problemas de saúde vividos por Celso quando deixou a administração da Praça de Esportes, em 1986. Entrou em depressão, por causa da perda de parte do terreno. Seu sonho era construir no lugar uma quadra coberta e um campo de futebol. Dez anos após sua saída, em 1996, o Jornal dos Lagos trazia matéria mostrando a deterioração do local e toda a decepção de Celso. “Delapidaram a Praça, destruíram a sauna, o barracão onde funcionava uma academia, o bar, a geladeira, o freezer. Depredaram os vestiários. Me entristece muito quando eu vejo a Praça de Esportes no estado que está, porque eu levei 20 anos e, em dois meses, eles acabaram com ela”.


Mas, felizmente, Celso foi homenageado ainda em vida por toda dedicação à Praça de Esportes. 

Muito mais do que o nome grafado nas paredes, com certeza, ele ficaria feliz em ver que o CEME, com todo o trabalho do Cidade Escola, voltou a ter todo o cuidado e respeito que merece.




O sonho de Celso, de ver a Praça de Esportes ser frequentada por pessoas de todas as idades e classes sociais, não só vive, como foi ampliado com a chegada do Cidade Escola. O CEME sempre foi de todos e para todos.