quarta-feira, 29 de março de 2017

Cidade Escola: Promessa, novos tempos.

Sede do Cidade Escola, na Vila Promessa.
No que diz respeito às questões sociais, o abandono do poder público, em diversos bairros da cidade, acabou. Na região do Caic, mais especificamente, no bairro de Vila Promessa, o programa Cidade Escola conta com a experiência de um parceiro de peso nessa luta.

Decão e dona Mariô
Trata-se do Núcleo de Igualdade Racial, coordenado por Fabio Cruz, filho do senhor “Decão” e de dona Maria Olímpia, a “Mariô”, que há 32 anos lutam pela igualdade racial e social em Alfenas. 

“A experiência e o respeito adquiridos junto às comunidades dos bairros de Alfenas vão enriquecer ainda mais as atividades e os conceitos do Cidade Escola na região da Vila Promessa”, garante o coordenador do núcleo, Fabio Cruz.

 A casa bege, toda reformada, localizada na rua das Orquídeas n° 8, começa a ganhar nova vida, um novo espaço de convívio entre os moradores. Antes, na antiga administração, estava praticamente abandonada, servindo apenas para aulas de reforço escolar. Agora, terá atividades de capoeira, muaithai, taekondô, jiujtsu, percussão, artesanato, hip-hop, teatro, dança contemporânea, samba rock, xadrez, além de violão e esportes.

A escolha de Fabio Cruz para trabalhar na Vila Promessa não foi aleatória. A região é repleta de problemas sociais e desigualdades raciais. Apesar de quase todos o conhecerem nas comunidades pelo trabalho desenvolvido em várias comunidades da cidade, esse é um bairro que Fabio e os integradores culturais do Cidade Escola estão começando a conhecer. 

O trabalho de cada professor, agora, é ir, de porta em porta, pelas ruas do bairro apresentar-se, explicar o que é o projeto do Cidade Escola e convidá-los a participar: “Começamos com poucos jovens, mas serão esses que vão fazer propaganda para outros. Em 3 meses, serão 50, no mínimo. É diferente de um local que começa com 50 e vai caindo. Aqui será o contrário. Começaremos com 5 dizendo, ‘vamos jogar futebol hoje, Joãozinho?’. Ele responderá ao amigo: ‘hoje não vou porque vai ter muaithai, capoeira’. O amigo irá, com certeza, replicar, perguntando por que o amigo vai deixar de jogar futebol para fazer isso. E ele responderá: ‘vamos lá pra ver’”.

Aula de balé e postura corporal
Para Fabio, mais importante do que um número grande de inscritos neste primeiro momento, é enraizar os conceitos do programa nas pessoas que participarão das atividades, trabalhar para que não façam aulas só por fazer: “Primeiro, pedimos licença para a mãe. Em qualquer comunidade isso é o mais importante. A cidade inteira me conhece, por causa do movimento negro, e mesmo assim, a primeira coisa que eu fiz quando cheguei aqui, no dia 15 de janeiro, foi parar meu carro, subir a rua e ir até as casas das pessoas da comunidade. Cheguei e disse: ‘vou trabalhar ali, naquela casa, no Núcleo de Igualdade Racial. Vocês conhecem nosso trabalho, estou aqui pedindo a ajuda de vocês para olhar o local, porque vamos deixar computador, bola de futebol, instrumento musical, e ainda temos professoras, que são universitárias e vão chegar aqui andando sozinha, com celular. Falei tudo isso e eles disseram: ‘Pode dormir com a porta aberta, que ninguém vai entrar lá não’”.

Turma de hip-hop na primeira apresentação.
E assim, demonstrando confiança e respeito, o núcleo do Cidade Escola na Vila Promessa está começando suas atividades. Logo na primeira apresentação, pouco antes do Carnaval, a nova casa lotou. Fabio convidou meninos das comunidades da cidade, que não dançavam, não cantavam e nem faziam rap e hip-hop havia quase dez anos. Pelo menos quinze deles, “das antigas”, foram até lá. Crianças e jovens, que nunca haviam visto aquele tipo de dança, ficaram fascinadas, tanto que saíram para a rua e começaram a ensaiar movimentos semelhantes. De volta à sala de apresentação, os “profissionais” saíram de cena e convidaram os jovens da comunidade a praticar. Quando se viu, só os moradores estavam se movimentando. Vários conceitos do Cidade Escola acontecendo na prática. Olhar, gostar, querer aprender, sem forçar ninguém.

Mestre Buiu em sua aula inaugural no Núcleo Vila Promessa
Fábio Cruz está entusiasmado com o Núcleo de Igualdade Racial, dentro do Cidade Escola. Na mesma apresentação inicial, ele recebeu a visita de um parceiro de lutas dentro do núcleo, Mestre Buiu, que agora roda o mundo espalhando seus conhecimentos e estará por aqui, sempre que possível, envolvido no Cidade Escola.

A teoria do “fazer por fazer” as atividades, sem haver o enraizamento de todos os conceitos nos participantes, deixa Fabio Cruz ainda mais otimista sobre o futuro do Cidade Escola: “No dia do primeiro evento, vários pais participaram e aproveitamos para dizer a eles: ‘Entre todas essas crianças, pelo menos uma queremos que se torne um Gigante’”. 

Fernando, o "Gigante", integrador cultural
Fabio se refere ao professor e integrador cultural Fernando, apelidado de Gigante, 24 anos de idade, vinte deles dedicados à capoeira. E ele não se cansa de falar com orgulho da equipe de integradores que está formando na Vila Promessa, todos “criados” neste conceito de enraizamento de projeto: “O professor de hip-hop, por exemplo, poderia estar no tráfico há muito tempo. Ele só não foi porque está no hip-hop. Está com a gente há muitos anos, em trabalhos anteriores junto às comunidades da cidade. A Alessandra, dá aula de samba-rock, mas é cabeleireira. Era dentista, não quis mais ser dentista. Formou-se porque o pai queria. Quando se formou, entregou o diploma ao pai e disse que iria ser cabeleireira”.

Outro conceito do Cidade Escola aplicado. Fazer pelo prazer, não pela obrigação ou desejo de alguém. 

Logo após as primeiras semanas de atividades, Fábio fez uma experiência que, para algumas mães dos jovens parecia ser impossível acontecer.  

Falou com elas e disse que iria reunir jovens e crianças que mais trabalho davam em suas casas. Em um dia de atividades, estavam lá eles, todos juntos, das 13 às 17 horas, para fazer reforço escolar, capoeira e jogo de xadrez. 

O que parecia impossível para as mães, aconteceu. O princípio integrador do Cidade Escola se revelando.

Fabio também fala com orgulho de uma atividade que já é muito conhecida na cidade e em todo o Sul de Minas. O grupo de percussão e fanfarra, sucesso entre os jovens, terá novo formato na Vila Promessa: “Queremos fazer a banda com produtos recicláveis. Com latão, panela, baldes. Os meninos que estão se destacando nos instrumentos, nos outros bairros em que já damos aulas, uma vez por semana, farão ensaios aqui, à noite. Eles fazem parte da banda de percussão Mojuba, que significa ‘bem-vindo à roda’, no dialeto Yoruba”.

Apesar de toda a disposição para enfrentar os desafios do Núcleo de Igualdade Racial, na Vila Promessa, Fabio sabe que não será nada fácil. As experiências vividas por toda a cidade dão a ele essa certeza: “Você tem que ensinar para os jovens por que 930 reais por mês é mais do que 300 reais por dia nas drogas. Todo santo dia”. 

E apesar desta triste realidade, Fabio e seus pais sabem muito bem que no núcleo do Cidade Escola, na Vila Promessa e no Núcleo de Igualdade Racial, a conta que se deverá fazer sobre os resultados obtidos com as atividades propiciadas à garotada é bem diferente do que muitos imaginam: “Desses meninos, de cada dez que param as atividades, sete vão presos. Minha mãe, Mariô, cansou de ouvir deles: ‘Vou tentar arrumar um trampo e parar de consumir drogas’. Mas, depois de cinco ou seis dias estão consumindo drogas de novo. A reincidência é muito grande. Os que permanecerem no Núcleo de Igualdade Racial e no Cidade Escola, temos a certeza de que farão a diferença. Todos com quem já trabalhamos em outros projetos, estão empregados, todos. Os que não conseguiram, continuam procurando todos os dias. O Jobson, por exemplo, começou no núcleo com 15 anos. Hoje é casado, tem filho e dá aula de percussão, no Caic, aqui, na Vila Promessa e no Pinheirinho. A gente costuma fazer a conta aqui, não com o número dos que a gente resgatou, mas, sim, de quantos a gente perdeu”.

Fabio Cruz também tem consciência do que esses jovens de diversas regiões de Alfenas sofrem na pele. A discriminação e o preconceito racial não são novidades nem mesmo para a sua família. O episódio mais recente aconteceu cinco dias após a exibição de um documentário patrocinado e exibido na Unifenas, em abril do ano passado. A pichação feita no muro da casa do núcleo revela o grau de intolerância de algumas pessoas da cidade. Ao lado da sigla do projeto, a ofensa: Núcleo de Macacos. Nada que os assuste, pelo contrário, afinal, eles, negros, já eram discriminados há muitos anos: “O primeiro encontro organizado por meus pais foi feito na Concha Acústica, na praça, onde os negros não podiam ir. Eles foram com uma caixinha, tinha 8 pessoas. Hoje fazemos almoço para 4 mil pessoas. Naquele tempo, os negros não podiam nem mesmo atravessar a praça”, relembra Fabio Cruz.

Mas nem ele, e muito menos sua família inteira, sofrem por isso. Sabem do valor e dos trabalhos realizados pela cidade, desde os seus antepassados. Poucos em Alfenas devem saber que a Igreja de Santos Reis, a mais antiga do Brasil, foi construída também com o suor de seus familiares.

Em algumas semanas, os jovens da Vila Promessa irão assistir ao documentário produzido pela Unifenas sobre a consciência negra. 

É assim que Fabio prefere fazer, não disponibilizar o vídeo na internet, mas fazer sessões especiais, com os jovens que participam do Núcleo de Igualdade Racial e do Cidade Escola, para refletirem, logo após a exibição, sobre problemas que eles também sentem na pele e no dia a dia.

Fabio Cruz
Os moradores de Vila Promessa e região podem ter uma certeza. Se depender de Fabio Cruz, tudo que estiver a seu alcance será feito para construírem, juntos, uma nova realidade social naquele local. Fabio não é só apaixonado e dedicado pelo que faz pelas comunidades. Tem compromisso com todos, afinal, largou uma carreira promissora como jogador de basquete (jogou em grandes equipes como Minas, Corinthians, Mackenzie e até nos Estados Unidos) para retornar a Alfenas e se dedicar de corpo e alma à causa que abraçou.

Fábio não precisou nem da formação superior que possuí para descobrir a resposta para a pergunta que muitos se fazem pela cidade: por que Alfenas se tornou uma cidade com tanta desigualdade e preconceitos, raciais e sociais? Sua resposta foi curta, em uma palavra: “Coronelismo, literalmente. Os prefeitos que entravam eram grandes empresários, sempre os mesmos, médico fulano de tal, fazendeiro fulano de tal, vamos criando os bairros, e vamos na população perguntar: ‘o que você precisa’? ‘Eu preciso de um terreno, de uma casinha’. Toma aqui esse terreno pra vc. E só, mais nada. Foi o que aconteceu com a abolição da escravatura. Você está livre, mas para viver onde e como?

 Para Fabio Cruz, o Cidade Escola e o Núcleo de Igualdade Racial vão mudar radicalmente essas décadas de retrocesso. 

Um sonho não apenas seu e de sua família, há mais de três décadas envolvidos neste processo, mas de todos que dizem amar Alfenas de verdade.























































































































quarta-feira, 22 de março de 2017

Cidade Escola: Luizinho e as origens do programa


O programa Cidade Escola não foi “inventado” ou criado por ninguém, ele está no DNA há 7 milhões de anos. Mas como, então, Alfenas começou a se apropriar de práticas tão antigas? Neste papo com o prefeito Luizinho ele faz uma viagem no tempo, pela própria vida e pelas experiências pessoais e da humanidade, até chegar na teoria, na prática e nos resultados alcançados até agora pelo programa. Veja os principais pontos da conversa com o prefeito.

Embrião de ideias 
até chegar ao Cidade Escola

“O que me levou a pensar o Cidade Escola é o sentimento de não ter domínio, da vida não ser controlada. Tudo na vida tem um controle. Tem hora para trabalhar, dormir, almoçar. Isso não é natural. O controle da espécie humana não é natural. Não teve nada específico na criação do Cidade Escola. É o sentimento da liberdade, sempre fui uma pessoa rebelde, de não aceitar o controle. Você pensa de acordo com as coisas que você faz. Isso vem desde dos tempos da universidade, quando era do movimento social, na luta contra o trabalho escravo, ou seja, estávamos rompendo as barreiras da conformidade.

No mundo atual, todo mundo se conforma. A mãe tem que falar para o filho que ele tem que vencer na vida. O patrão fala que você tem que ter um horário. Se você viver nesse mundo, você vai pensar dentro deste mundo. As coisas serão criadas nos estritos limites da conformidade. O Cidade Escola é uma ideia de alguém que pensa fora do mundo das conformidades, das regras, das normas. A norma não é boa. Ordem não é uma coisa boa.

Não existe guerra por falta de ordem. A guerra acontece por conta da ordem. Quando Hitler fez a guerra foi por conta de uma ordem estabelecida. Ele estabeleceu uma ordem: ‘vou construir um império, que vai durar mil anos’. Quer ordem mais perfeita que essa? Tinha regra, tinha tudo certinho, formação, exército, propaganda, esporte, tudo bem regrado. Então, a ordem é que provoca a guerra, não é a desordem. Veja a Índia, por exemplo, as coisas lá são meio desordenadas, mas não tem guerra. Então, a ordem não provoca coisa boa. O progresso também não provoca vida, provoca exploração. Por que você tem que progredir? A sociedade tem que progredir ou ela tem que viver?”

Um jovem questionador

“Comecei a trabalhar com 13 anos. Sempre lembro do meu pai, que trabalhava numa companhia de asfalto e sofria muito. Sempre dizia a ele para parar com esse trabalho, mas ele não reclamava. A mãe trabalhava muito para sustentar os filhos. Trabalhei na Cooperativa de Guaxupé (Cooxupé). Chamava-se SOS, um serviço de assistência social, um ‘trem’ para explorar crianças. Colocavam você para ganhar meio salário mínimo e ainda era humilhado, porque quem era do SOS tinha que usar um uniforme. A pessoa mandava em você. Aquilo era muito humilhante, muito constrangedor. Você não podia nem sentar no banco do ônibus, tinha que dar o lugar para os outros. Era um empregado de todo mundo. Aquilo me incomodava. E tinha um rapaz, que se chamava João e trabalhava na contabilidade da cooperativa. E ele era muito rebelde, já questionava as coisas.

Foi aí que também comecei a questionar tudo. Trabalhei muito. Chegava antes do ônibus, ia de bicicleta, para chegar mais cedo para trabalhar. Morava em Guaxupé. Meu pai foi para lá porque a companhia de asfalto tinha trabalho por lá. Morávamos em uma casa popular, de 30 metros quadrados, seis filhos, muito pobre. Meu irmão também trabalhava lá, estava bem, mas, não é porque ele estava bem que eu iria depender dele. Queria viver sozinho. Trabalhei, trabalhei e quando mostrei serviço, arrumei os arquivos da contabilidade, ajeitei tudo e fui pedir aumento para o chefe. E a resposta foi que a cooperativa não tinha condição de dar um aumento. Argumentei que estava há dois anos trabalhando certinho e então por que não podiam me registrar? Não era nem dar aumento, era para ser funcionário da Cooxupé, porque a cooperativa terceirizava o setor onde trabalhava. Disse a eles que nunca mais voltaria ali. E nunca mais voltei mesmo. Minha mãe, de novo, argumentou que meu irmão estava bem lá, mas não me convenceu. Não fui, queria ter a carteira registrada. Saí de lá e logo mudamos para Alfenas. Fui emancipado aos 16 anos para poder ter o próprio negócio. Montei uma farmácia. Comprei fiado os balcões. E a farmácia começou a dar certo, no Jardim São Carlos. Fui sócio do Fransecio durante 20 anos. Ganhei muito dinheiro ali, mas também gastei tudo. Não guardei um real. Fransecio ficou bem com a farmácia. E eu fui mexer com política”.

O início na política

“Comecei na política trabalhando nas comunidades de base da igreja, com 16 anos. Conheci o Marcelo Pedreira, dentista, quando fui colocar aparelho nos dentes. Marcelo era da igreja e começou a me dizer que precisávamos conversar. Ele era da ala “esquerda” da igreja. E comecei a ir nas comunidades, era a época da “fé e política”. Depois, entrei no Movimento Nacional dos Direitos Humanos. Fui muito atuante. O movimento funcionava junto com a CUT [Central Única dos Trabalhadores] e os sindicatos. E lá, tínhamos muitas lutas. Acompanhei mais de 4 mil trabalhadores rurais em situação de trabalho escravo. Trabalhadores que chegavam do Norte para apanhar café. Os patrões prometiam mundos e fundos e, quando chegavam aqui, não tinham nem o fundo. Ficavam reféns dos empregadores. Comiam na loja do empregador, compravam na venda dele. Escravo, mesmo, nem similar ou algo parecido.

A entrada na política, então, foi natural. Nesta época, o PT estava começando, e quando entrei para o partido, a comunidade da igreja em que participava decidiu se filiar ao diretório daqui. Filiei o Eliacim (vice-prefeito), filiei o Eloísio (prefeito de Poços, irmão do Eliacim), filiamos quase todos da igreja, e entramos no PT. Aí ganhamos a direção do partido”.

Cidade Escola como modelo de sociedade

“O Cidade Escola surgiu em minha cabeça como um modelo de sociedade diferente. Um modelo que não fique preso às estruturas. Não tem prisão, não tem separação. O que todos dizem querer é que as pessoas não se separem, certo? Mas, na prática, as estruturas são separadas. Tem o Cras, o Creas, as escolas. Tudo é separado. Ninguém quer que o ser humano se separe, não é com isso que sonhamos? Não dizemos que todos têm de se unir? Não é isso? E na prática, o que fazemos? Criamos células para separar as pessoas. Para governar, separamos, com paredes, gabinetes.

Por exemplo: fui à uma reunião numa escola infantil e a briga, lá, era por que achavam que estávamos priorizando outra escola. Ou seja, separação por escola, essa é a minha escola, tenho meu grupo, minha tribo. Depois, falei com o pessoal de um PSF (Posto de Saúde da Família) e a diretora disse a mesma coisa: “esse é o meu PSF”. Aí tem a turma do Cras, tem a turma do Creas. Temos de tirar essas “paredes”. O Cidade Escola permite isso. Integrar a saúde. Claro que existem os grupos de terceira idade, de hipertensão, de diabetes, dos obesos, mas para que isso? No Cidade Escola, podemos misturar todo esse pessoal, dar uma aula de diabetes para todos os outros que tem outros tipos de problemas. Não precisamos segregar. A estrutura governamental é segregadora, dentro de pequenas células, prisões, mesmo, cada uma com seu pensamento. Isso divide as pessoas.

Só quebramos os preconceitos se formos sensíveis, não é isso? Só que a sensibilidade do ser humano é exógena (de fora para dentro) e não endógena (de dentro para fora). Para sentir o calor, temos que tocar em algo quente. Para sentirmos o frio, temos que tocar no gelo, caso contrário, o organismo se equilibra. Emocionalmente, também é igual. Temos de provocar a sensibilidade. Mas, se estivermos fechados, cada um na sua escola, cada um no seu quadrado, não há provocação. O Cidade Escola provoca. Porque ele mistura tudo. Tem o menino que é deficiente, o hipertenso, o adulto, jovem, o menino rebelde, que está fora da escola. Isso é misturar, trocar saberes, mas, sobretudo, a provocação da sensibilidade, ou seja, você é provocado para poder ter sensibilidade”.

O jeito de governar

“Prefeito que fica em sua redoma de vidro, seu gabinete, nunca terá sensibilidade. Às vezes, pode se tornar uma pessoa sensível, mas é claro que quando você vê uma mãe chorando, perto do filho porque não tem o que comer, e o filho de 5 ou 6 anos, sem entender nada, olhando para ela com aqueles olhos marejados, isso se torna uma prioridade imediata a ser resolvida. Mas se eu ficar no gabinete e alguém só me contar essa história, não vai sensibilizar a ninguém, porque você não entrou em contato com a realidade.

Por isso o Cidade Escola mistura. Se não misturar, acabamos endurecendo o coração, porque todos vivemos a mesma realidade. Se colocarmos num hospital, só doentes, aquelas pessoas vão se acostumando com aquele ambiente, e deixando de se sensibilizar e se insurgir contra aquela realidade. Se fizermos um manicômio, deixando os loucos só com os loucos, todo mundo que ali trabalha vai se acostumar com aquilo. Mas, se misturarmos essas pessoas, dentro da sociedade, que é o que o Cidade Escola faz, colocando, por exemplo, pessoas que não tem saúde mental, no meio da educação, a sociedade vendo aquilo ali, se sensibiliza. Ela não vai se acostumar com aquela realidade, porque ela não vive só aquela realidade. Por isso não podemos nos acostumar com as coisas, com a dor, por isso tem que misturar, ter gente que não conviva com tudo isso no dia a dia”.

Os resultados iniciais do Cidade Escola

“A avaliação do Cidade Escola nestes dois meses é positiva. Fizemos uma pesquisa recente e eu achava, sinceramente, que as pessoas ainda não conheceriam o programa. Mas pela pesquisa de opinião pública, 33% da cidade conhece o Cidade Escola. Pelo menos, ouviu falar. Dos 33% que conhecem, mais de 80% aprovam. Esses números me surpreenderam. É um dado científico. O que espero, num segundo passo, é uma maior participação dos integradores culturais, que são gente da sociedade se misturando ao povo. Esse é o ingrediente que falta. Não se pode ter uma coisa só estatal. A vida estatal é chata. O bom da vida, é a vida natural. Porque temos de mudar as vidas das pessoas? Às vezes, as pessoas não querem mudar. Nem sempre a escola formal é necessária para as pessoas viverem bem. Só a escola formal não garante que você vai se dar bem ou melhorar sua qualidade de vida. Depende o que é qualidade de vida para você.

Muitas vezes, as pessoas dizem para elas mesmas que não conseguem aprender matemática ou português. E daí? Será que elas precisam disso para viver? Ou precisamos conhecer o bairro? Precisamos de outros valores, como solidariedade, vida, participação. Então, isso tudo os integradores culturais fazem. Por essa razão eles não são educadores, apenas integram essas coisas todas, misturam. Esse integrador, não precisa ter a escolaridade formal, isso é diferente. Não é como Escola Tempo Integral, como o governo desenhou, onde se estuda de manhã e depois tem aulas no contraturno. Geralmente, tem artes, matemática e português. É o mais do mesmo. O Cidade Escola não é o mais do mesmo”.

Show de Saulo Laranjeira, na praça do Pinheirinho.
Os problemas enfrentados até agora

“Os problemas burocráticos e também o da integração. Porque temos uma sociedade formada em outro modelo, que é a questão da ordem. Todo mundo quer colocar regras. Todo mundo quer colocar ordem. As pessoas acham que se tudo estiver certinho, dentro do quadradinho, as coisas funcionam. Funciona assim: vou fazer educação física com 50 alunos, tirar foto, aquela coisa bonita, mas existem 2 mil alunos que fazem a mesma coisa. Eu preciso integrar todos, e não apenas aqueles 50. Não pode ser um programa apenas para “tirar foto’, é preciso integrar 20 mil pessoas nessas atividades. Este é o nosso objetivo.

Outra dificuldade, a burocrática, talvez nem seja tão importante. A dificuldade mesmo é “derrubar as paredes”. Tem que misturar. Se não tomarmos cuidado, daqui a pouco começaremos a ter um formato onde cada um pega o seu grupinho para fazer determinada atividade. A dança faz dança. O karatê faz karatê. Estou de olho, para não deixar voltar ao que era o antigo formato. Há uma tentação muito grande de “separar”. Enquanto queremos integrar, misturar, a sociedade capitalista, ou qualquer sociedade que tenha como princípio o domínio do pensamento, tenta dividir.

A divisão é feita para dominar. Dividir para controlar. A educação formal divide para controlar. Se quiser controlar as crianças, basta dividi-las. Colocá-las em cada sala, com as mesmas idades, com os professores tomando conta. Ou seja, dividindo, controlamos. É mais fácil controlar as massas se estiverem divididas. E o que queremos é o contrário, queremos acabar com as ferramentas de controle da sociedade. E isso não é porque queremos uma sociedade sem ordem. Queremos, sim, uma sociedade organizada, mas equilibrada, harmonizada, que é diferente do “controle”.  Quando controlamos, não dominamos. Quando temos um chefe, que tenta só te dominar e dar ordens, não chegamos a lugar algum. Mas se houver equilíbrio na relação é porque houve o entendimento, um consenso de vida, e as pessoas se harmonizam.

Uma sociedade equilibrada, harmonizada, é o que queremos. Não é o prefeito quem dá ordem. Não sou prefeito que dá ordem. Tento buscar o equilíbrio, e o equilíbrio é conquistado com muito confronto, mesmo. As pessoas vão confrontar suas ideias, mas nesse confronto surge o equilíbrio. O que parece ser o caos, de fato, é o equilíbrio. A ordem que queremos é a do equilíbrio. A ordem imposta, divide, e parece que está tudo bem, mas isso leva, consequentemente, à violência, porque separamos as pessoas, uma não conhece a outra, um tem desconfiança do outro, uma briga com a outra. Leva ao preconceito, às guerras, à falta de felicidade, alegria de viver. Só temos frutos negativos dessa sociedade ordeira. A sociedade de ordem e progresso é a pior sociedade existente. A melhor sociedade é aquela que não tem ordem e muito menos progresso. Pegar o progresso a partir do ponto de vista do que? Você pode progredir na vida pela amizade, por exemplo.

Mas, a definição de progresso, hoje, é a do trabalhador que vence na vida, parecendo que está numa guerra. É o pai querendo que o filho vença na vida, se esquecendo de que para isso ele deixou alguém para trás. Isso não é equilíbrio, isso é o poder do mais forte. Tenho a convicção de que não é essa sociedade que quero para mim e para ninguém. E se eu posso colaborar, é para isso, para termos uma sociedade mais justa. O Cidade Escola traz tudo isso. Ele mistura”.

Cidade Escola não é invenção de ninguém, está no nosso DNA.

“Tenho certeza de que, no futuro, frustrado não estarei com os resultados do Cidade Escola, porque o que já fizemos, demonstra que o caminho está certo. Até porque, isso é científico. O ser humano viveu 7 milhões de anos dessa forma, está em nosso DNA. Não estou inventando a história. Estou pegando o que deu certo. Vivemos caminhantes, desde que descemos das árvores, em pequenos grupos. Isso é história, pequenos grupos de 150 pessoas, caminhando, onde todo mundo se integrava. Não havia organização do trabalho. Todo mundo fazia de tudo, convivia, não havia separação para nada.

A sociedade atual “surgiu” há 10 mil anos, quando começou a separar, a ordenar o trabalho. Surgia o Estado para defender as “coisas”. O Estado instituído, que surgiu na Mesopotâmia, não nasceu para cuidar das pessoas, nasceu para cuidar das sobras. Quando a gente parou, começou a sobrar alimentos, a ter animais domesticados que alguém precisava cuidar. Precisava de alguém para tomar conta dessa sobra de alimentos. Aí surgiu o Estado. Ou seja, o DNA do Estado é para cuidar de “coisas” e não de pessoas. Esse Estado que temos agora é para cuidar de prédios. Estou pensando em um Estado que cuide de pessoas. 

O Estado cuida das coisas e reprime os trabalhadores para não estragar as coisas. Reprime o bandido para ele não roubar uma casa, que é uma “coisa”. Ele reprime para não sujar a praça, fiscaliza para não quebrar, não jogar lixo, tudo do ponto de vista para conservar a cidade “coisa”, a cidade “prédio”. Esse é o objeto principal do Estado. Queremos que o objeto principal do Estado seja cuidar das pessoas. Temos que abrir os prédios para as pessoas conviverem. E não apenas cuidar e proteger patrimônios, que é, infelizmente, hoje, a principal função do Estado.

É isso que estamos contestando. É isso que queremos mudar. Essa é a verdadeira mudança. Mudar as pessoas, e cuidar mesmo, não é cuidar da boca para fora, cuidar, defender com unhas e dentes a vida, o bem-estar, a integração.


A espécie humana não tem controle. 99% do nosso DNA é de liberdade”.









sexta-feira, 17 de março de 2017

Cidade Escola: Esperança e Vida em Gaspar Lopes

Gaspar Lopes, em primeiro plano. Alfenas, ao fundo.
Tão perto e distante para muitos. Tão perto e discriminado por muitos. Tão perto e cheio de problemas sociais. Tão perto e importante na história da cidade. Esse é o bairro Gaspar Lopes, distante apenas oito quilômetros do centro de Alfenas.

A chegada do Cidade Escola por lá está sendo comemorada pelos pouco mais de mil moradores do bairro. Especialmente pelas crianças e jovens da comunidade, que pouco ou quase nada tinham para fazer dia a dia, ano após ano.

Casa em que funcionou o 1º cinema de Alfenas.
Será que os que moram no centro da cidade sabem que Gaspar Lopes foi próspero um dia? Será que sabem que o primeiro cinema da cidade de Alfenas, chegou primeiro por lá? Que a estação ferroviária tornou o bairro um dos mais importantes da região? E ainda que o bairro tem a mesma idade de Alfenas, 150 anos!? 

Não, provavelmente só ouviram dizer que Gaspar Lopes é um bairro pobre e perigoso.


Anos e anos de descaso do poder público deixaram o charmoso bairro praticamente sem estrutura social. Não há farmácia, padaria, escola do 6º ao anos. Há um Posto de Saúde da Família (PSF), dois mercadinhos, a igreja de Nossa Senhora Aparecida, pequenos comércios no trevo de entrada do bairro, a fábrica de vidros, a fazenda Ipanema, um posto do correio, dezenas de pequenas roças na zona rural e a famosa venda do seu Zé Alvino, que será personagem desta história, pouco mais a frente.


Escola Dr Fausto Monteiro
Há também uma creche e a Escola Municipal Doutor Fausto Monteiro. É ali que o Cidade Escola começa a mudar a vida de quem é de Gaspar Lopes. Um desafio enorme, mas que já está alcançando resultados positivos no convívio, na estrutura e nas relações sociais tão enfraquecidas entre os que ali moram. Estes são alguns dos princípios integradores do Cidade Escola.



A Escola Fausto Monteiro tem aproximadamente 180 alunos, do Pré ao 5º ano. Crianças e jovens que até pouco mais de um mês, pouco ou quase nada tinham para fazer, a não ser o estudo regular. Agora, são várias atividades, não apenas para as crianças, mas para todos da comunidade, como capoeira, zumba, natação, culinária, arte em MDF, em EVA, pintura em tecido, horta comunitária, reforço escolar, futebol, contação de histórias, rádio-escola, musicalização, manicure, cabeleireiro, psicomotricidade e ciclismo.

Passados quase dois meses do programa, 10% da população do bairro aderiu ao Cidade Escola. Já são mais de 150 inscritos nas diversas atividades.

Gaspar Lopes é um núcleo que pode ser chamado de “especial”, dentro do Cidade Escola, dada as características do lugar, com muitos residentes na imensa zona rural da região, e muitos problemas nas relações familiares. 

Este cenário aos poucos começa a mudar. A área lateral da escola tinha mato com um metro de altura, até a implantação do Cidade Escola no local. Agora, quem chega ao local, já percebe as mudanças. No lugar do mato alto, um lindo gramado e árvores plantadas pelos alunos, dentro de enormes pneus.



Realidade que até poucos dias atrás, o pequeno João Lucas, de apenas 7 anos, faz questão de lembrar, ainda meio assustado, quase não acreditando, que o cenário do espaço da quadra coberta, está se tornando outro: “Eles vêm aqui, atrás da tela da quadra, para fumar escondido. Ficavam ‘agachadinhos’, dia inteiro”.

O princípio integrador do Cidade Escola já está ajudando João Lucas a ver a escola em que estuda de outra forma. Ele, sua mãe e dois irmãos, todos participam, juntos, de atividades do programa.


Sandra Moreira, coordenadora núcleo Gaspar Lopes - Cidade Escola
Quem sabe dos enormes desafios a serem vencidos no Gaspar Lopes é a coordenadora do núcleo do Cidade Escola, Sandra Moreira.

Os 26 anos como professora na rede pública, seis deles no bairro, a transformaram em muito mais do que uma educadora.

Ela e 12 integradores culturais terão papel fundamental na transformação da rotina de muitas vidas da comunidade.





Integrador cultural Jean e Sandra Moreira
Um integrador cultural, porém, tem significado especial para ela. Seu nome é Jean. Ele chega bem cedo à escola, passa o dia por lá. Ajuda em tudo. Organiza atividades das crianças e expressa bem um dos princípios integradores do Cidade Escola: “Ele cuida do lazer das crianças, de segunda a sexta, o dia inteiro. E das 17 às 19 horas, também de um jogo de futebol. Ele é cria do Gaspar Lopes. Cria da Fausto Monteiro. Acabou de completar 18 anos. Estudou a vida inteira. Saiu daqui, frenquentou outras escolas no centro da cidade, mas retornou. Passou por muitos ‘perrengues’ na vida. Ele é o exemplo típico que o Cidade Escola quer trabalhar, um menino ‘fruto’ dos problemas sociais do bairro, integrando outros jovens. Todo amor e carinho que ele tem da vida, recebeu na escola, e, agora, do Cidade Escola”.

Integradora cultural, Poly Novais
Outra integradora cultural que está fazendo sucesso entre as crianças chama-se Poly. E uma de suas atividades, o rádio-escola junto com contação de histórias, é única entre os vários núcleos do Cidade Escola na cidade. Poly nunca havia contado histórias para crianças, mas de rádio ela entende. Trabalhou na rádio Atenas durante 12 anos. Fazia um programa de humor, na hora do almoço, “A hora do rango”. E atualmente, uma vez por semana, tem um programa na rádio Pinheirinho.

Mas o que seria rádio-escola? Poli, explica: “É uma rádio de faz de conta, porque não tem transmissores instalados. Uso um aparelho de som e microfone para tocar músicas para as crianças, quando saem, na espera do ônibus que os levará para suas casas, na zona rural. É uma forma de entretê-los. Se tem alguma notícia importante da prefeitura, alguma campanha contra dengue, febre amarela, por exemplo, divulgamos. Explico o que é a febre amarela, a dengue, e mesmo com eles agitados, correndo para lá e para cá, no pátio, acabam levando as informações para as mães”.




Dona Miriam e Letícia
Por se tratar de uma região que concentra as pessoas num pequeno espaço geográfico, a notícia da chegada de inúmeras atividades do Cidade Escola tem atraído cada vez mais gente. Algumas atividades, com um dos princípios integradores do Cidade Escola, funcionando na prática. Normalmente, os mais velhos é quem recomendam a participação dos mais jovens no programa, mas com dona Miriam e a pequena Letícia foi diferente. Foi Letícia, de apenas 10 anos, quem estimulou e levou a amiga vizinha ao encontro das atividades do Cidade Escola. Ou seja, não há hierarquia ou idade para se relacionar bem com o seu próximo.

Dona Miriam viu a lista de atividades e acabou escolhendo uma que revela outro princípio integrador do Cidade Escola. Vai fazer culinária, mesmo estudando gastronomia, atualmente. Qual a razão de fazer algo que já sabe? Simples, assim: “Gosto muito de cozinha. Quando falei com a Sandra, ela disse: ‘mas você quer fazer culinária, que você já sabe?’ Disse para ela que é uma coisa que gosto, me mantém ocupada, mas assim também posso ajudar nas atividades do Cidade Escola, ajudar outros com meus conhecimentos”.

Capela, alto do morro em Gaspar Lopes.
Dona Miriam trocou a vida no bairro do Aeroporto pelo Gaspar Lopes. E lá se vão nove anos de vida tranquila, mas não sem o preconceito: “Aqui é mais tranquilo para morar. Meus filhos gostaram daqui, inclusive uma filha casou com um moço daqui, mora aqui, inclusive. Estuda Geografia. Todos da cidade acham que aqui é um ‘inferno’. Quando estudei no Polivalente, bastava dizer onde morava para todo mundo falar mal: ‘nossa, como a senhora tem coragem de morar lá, bairro feio, bairro isso, bairro aquilo’. Eu dizia a eles: ‘gente, não é nada disso que vocês pensam, não imaginam o tanto que é melhor aqui do que no centro. Não troco lá por cá. Aqui só falta um incentivo maior para os jovens, e a meia-idade. Tomara que o Cidade Escola ajude nisso”.

E assim, o Cidade Escola, vai resgatando vínculos perdidos na comunidade do Gaspar Lopes.

É curioso que um bairro histórico e tão importante na formação da cidade tenha sido esquecido por tanto tempo. Logo ali, onde existe um morador tão especial, e que conhece como ninguém o surgimento e o crescimento do bairro Gaspar Lopes e toda Alfenas. Quem não conhece ou já ouviu falar da venda do “seu” Zé Alvino pela cidade inteira?



E ele segue preservando a memória de um pedacinho de chão tão importante. Do velho casarão que surgiu por causa da construção da “Estação Gaspar Lopes”, da estrada de ferro da Rede Sul Mineira, inaugurada em 1897: “Os engenheiros da ferrovia disseram a dona Claudina Machado, dona de todas essas terras, que a estrada de ferro iria passar por aqui e que isso iria valorizá-las. Pediram um pedaço de terra a ela. Ela doou uma imensa área. Os filhos dela correram e fizeram a casa, onde funciona esta venda. Era pra esperar a estrada de ferro chegar. Um ano pra fazer a casa. Inaugurou a venda, do jeitinho que está atualmente, nada mudou. Só que levou 20 anos pra passar a estrada de ferro”.


Dos quase 150 anos de existência da venda, seu Zé está nela há 57!

Chegou ao bairro quando tinha só 19 anos.

E viu de lá, Gaspar Lopes e toda Alfenas crescer e criar com seu jeito simples e cativante hábitos que viraram história. 





Dinheiro colados no teto na venda de seu Zé Alvino.






Como o de estimular os fregueses a colocarem dinheiro no teto da venda, para doar no fim de todo ano à instituição Viva a Vida, ou a simplesmente, passarem por lá para saborear o sanduíche de mortadela e um bom gole de pinga.







É o que o visitante ilustre, Milton Nascimento faz até hoje, sempre que passa por Alfenas: “Ele saiu do Rio de Janeiro para Três Pontas, é neto do Padre Vitor. Veio para Alfenas estudar. Aprendeu a tocar aqui. Todo domingo ele passava por aqui, de carro, com os amigos, indo cantar em Três Pontas. Depois voltava. E ele não era famoso. Por isso o Milton gosta de mim”.


Da porta da velha venda, seu Zé Alvino, do alto dos seus 76 anos, vê todos os dias o vai e vem do ônibus escolar, levando e buscando as crianças do bairro para estudar na escola, que fica bem próxima de seu comércio histórico. E está feliz com a chegada do Cidade Escola pelo lugar: “Coisa boa isso que está acontecendo. Tirar as crianças das ruas. Eu pulo corda todo dia de manhã, com a minha idade. Dia desses apareço por lá pra pular corda com as crianças”.




Seu Zé sabe das dificuldades e do esforço que as crianças fazem todos os dias para chegarem até a escola, especialmente as da zona rural mais distante.

Ainda assim, todos, sem exceção, ficam felizes ao retornar para suas casas simples construídas em pequenas roças da região.

No dia 15 de março, o prefeito Luizinho esteve no Gaspar Lopes, dentro da programação Prefeitura nos Bairros. Ouviu diversos moradores, seus pedidos de melhorias, mas também, agradecimento, pelo o que o Cidade Escola vem propiciando a todos. Viu as crianças felizes, dentro do ônibus, a caminho do CEME, para mais uma aula de natação, coisa que faziam uma vez por ano e olhe lá.

É só o início das mudanças no Gaspar Lopes. Um recomeço do convívio entre todos, aprendendo e ensinando, dentro do Cidade Escola.




Obs: vale a pena acessar os links abaixo para conferir imagens raras de Gaspar Lopes e Alfenas. E ainda reportagens da TVE Alfenas sobre a venda de seu Zé Alvino.

https://www.youtube.com/watch?v=8FenWV4SOLI (imagens antigas de Gaspar Lopes e Alfenas)
https://www.youtube.com/watch?v=K9ofR3GUNkI (reportagem TV Alfenas sobre doação Zé Alvino)

https://www.youtube.com/watch?v=O4OW7FbCUvI (reportagem TV Alfenas sobre a venda do seu Zé Alvino)



Estação de trem Gaspar Lopes






O mesmo local da antiga estação de trens


trem, na estação Gaspar Lopes.











atividade do Cidade Escola

Crianças do Gaspar Lopes, no CEME.