quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Cidade Escola: Taekwondo, formando campeões


O programa Cidade Escola não foi criado para formar campeões no esporte, mas, se nesse caminho surgirem atletas, melhor ainda. E este fenômeno está acontecendo com a turma do Cidade Escola praticante do Taekwondo, no Cras Alvorada.

O que poucos sabem é que Alfenas pode estar prestes a ter um destes praticantes na Seleção Brasileira de Taekwondo. Este marco histórico para a cidade e a modalidade pode começar a acontecer, no próximo dia 24 de novembro, em Brasília, com o jovem Thales de Oliveira, um dos integrantes da atividade do Taekwondo do Cidade Escola. 


Thales de Oliveira e o técnico Wenderson "Carneiro".
Por já estar classificado para a seleção do estado de Minas Gerais, Thales lutará na Copa do Brasil, e, caso vença a competição, passará a ter direito a “bolsa atleta” e, o principal, uma vaga para disputar o Grand Slam, evento que forma a Seleção Brasileira de Taekwondo, em janeiro de 2018.

Thales não é o único jovem a obter resultados expressivos na modalidade. Entre os mais de 30 participantes da atividade, no Cidade Escola, vários estão se destacando em competições, regionais, estaduais e nacionais, como os jovens Wesley Florêncio, Gabriel Fernandes, Laura Rodrigues e Barbara Rodrigues. São mais de 10 atletas prontos para vencer.



Barbara e Laura Rodrigues, meninas brilhando no Taekwondo
O Taekwondo é uma arte marcial milenar de origem coreana, que tem como princípio básico o equilíbrio físico e mental. Significa “caminho dos pés e das mãos” e foi introduzido no Brasil na década de 1970.

E foi assim, caminhando com os pés, as mãos, e muito suor e dedicação, que Wenderson Aparecido Alves tornou-se o grande responsável por essa transformação do Taekwondo alfenense. O nome complicado de ser pronunciado acabou gerando o apelido pelo qual todos o conhecem na cidade. “Carneiro”, desde menino, tinha os cabelos loiros e enrolados, igual ao bicho, e ninguém mais o chamou pelo nome.


A história de vida e paixão pelo esporte é antiga. Filho do senhor Marcos Alves, um dos primeiros moradores do bairro Pinheirinho, “Carneiro”, 30 anos, nasceu e cresceu pelas ruas deste tradicional bairro da cidade. “Sempre fui apaixonado pelo esporte, pratiquei vários, futebol, handebol, vôlei, sei um pouquinho de cada. Quando era criança, no Pinheirinho, existia um lugar igual ao Cáritas, que era mantido pela Unifal. Tinha datilografia, pintura, tudo gratuito, e tinha também a capoeira, que era ‘febre’ na época. Foi em meados dos anos 90, tinha 9 anos. Estudava de manhã, no Grimminck, saia de lá, ia para casa, tomava banho, almoçava e ia pra lá. Ficava até 5 da tarde. O professor chamava-se Carlos, mais conhecido como ‘Gato’. Foi nessas aulas de capoeira que comecei a me apaixonar pelo esporte”, recorda Carneiro.

O encontro com uma nova modalidade aconteceu quando tinha 12 anos. “Queria algo diferente da capoeira, queria fazer karatê, mas, na época, minha família não tinha dinheiro para pagar. Era uma academia no centro, de um cara de apelido ‘Carioca’. E nesta academia tinha também o taekwondo, só que nem imaginava o que era esse esporte”.


Por muito pouco, a dificuldade financeira da família o fez desistir do sonho de lutar. Até que um dia... “Dois amigos me chamaram, Dedé e Marcelo. Chegaram em casa vestidos com a roupa de luta. Perguntei se lutavam e para mim eles faziam karatê. Disseram que estavam treinando taekwondo, numa academia próxima ao corpo de Bombeiros e fizeram o convite: ‘vamos lá pra você ver’”.

E o futuro de “Carneiro”, no esporte, começava a mudar. Passou a treinar firme, na academia pertencente a dupla Marquinho e Frank. A dificuldade financeira da família para mantê-lo no esporte acabou gerando sua primeira paixão no mundo do Taekwondo. “Se o treino fosse 5 da manhã, 4 e meia já estava na porta. Treinava muito, todos os dias, mas não tinha sequer roupa para treinar. Foi quando passei na porta de um brechó e vi um ‘dobô’ (no Taekwondo não se fala quimono, se diz ‘dobô’ e se escreve dobok). Custava 15 reais, fiquei louco. Cheguei em casa e pedi para o meu pai comprar. E ele disse: ‘não vou comprar esse trem procê não’. Fiquei ‘namorando’ esse dobô, passando todo dia na porta, um mês. Meu pai acabou comprando ele. Era branco, do jeitinho que queria. Não era o melhor uniforme, mas era o que meu pai podia comprar na época. Fiquei 6 anos com ele, treinei, viajei, era o meu maior xodó”.


“Carneiro” passou a disputar várias competições, mas, a falta de informação e desorganização de quem controlava o Taekwondo na cidade, por pouco não o fez parar com o esporte. “Começaram alguns problemas com as pessoas que nos treinavam, não tinha mais como confiar neles. Estava com 18 anos, e decidi trabalhar a noite, na lanchonete Ki Delícia. Fiquei afastado um ano das competições, até que passei a treinar em outra academia, chamada Garra. Treinando e viajando, disputando campeonatos, só aqui, pela região. Disse para mim mesmo: ‘é isso o que eu quero e é o que vou seguir’. Treinava sozinho, em casa, também corria atrás de patrocínio, porque sempre foi muito difícil”.

E “Carneiro” começava a despontar no taekwondo. Arrumou um novo trabalho, na Unifi, e após três meses conseguiu que a empresa patrocinasse sua vida de atleta. “Professor Burmin, da Unifenas, me deu uma grande força. Muitos me ajudaram, mas ele é um cara que devo muito e sou muito grato até hoje. Foi o primeiro cara a me ajudar para poder participar de competições a nível nacional, bancava tudo”.


O grande problema que “Carneiro” descobriu nesta trajetória de competições foi a divisão de comando existente no esporte. “Como tudo na vida, tem médico bom e ruim, jornalista bom e ruim, e com o taekwondo não é diferente. Gastei muito dinheiro nestas competições, sem necessidade. A gente lutava pela Liga Nacional, que é conhecida como ‘Inter estilos’, só que esta entidade não te dá suporte como a CBTKD, que é a Confederação Brasileira de Taekwondo. Por exemplo, num Brasileiro da Liga Nacional, em Recife, fui campeão, mas nem falo para os outros porque não tem valor nenhum. A gente era jovem, ia muito pela cabeça dos outros, que diziam ser a melhor federação, mas gastávamos muito dinheiro desnecessário”.


Até que, “Carneiro” e seus companheiros de equipe, acabaram descobrindo, da maneira mais dura, que estavam no caminho errado para conquistar reconhecimento dentro do Taekwondo. Uma aventura, no sul do país, que deixaria marcas profundas em todos, mas, também, ensinamentos inesquecíveis para o futuro. “Fomos competir em Curitiba, evento da CBTKD, que valia pontos para o ranking nacional. Eu, Bianca, Iuri e João Gabriel. Foi um choque de realidade. Nunca tínhamos ouvido falar de ranking. Chegamos no aeroporto em São Paulo e encontramos um monte de gente, com protetor de cabeça, todos uniformizados, descobrimos, ali, que haveria uma competição. Nunca tínhamos visto nada igual. Ainda no aeroporto, conhecemos a mãe da Natácia e sua irmã. A Natácia era a segunda colocada no ranking nacional, lutou vaga para a seleção, era do Mato Grosso. A mãe conversando com a gente e perguntava: ‘ué, não vi vocês na Copa do Brasil, não vi vocês no Brasileiro, não vi vocês em tal e tal competição’. Começamos a desconversar, dizendo que a gente era novo nesta história de competição grande. E arrematei: ‘para senhora ter ideia, a gente nem treinou direito’”.


Carneiro e equipe desembarcaram às 6 horas da manhã em Curitiba. No café da manhã, já no hotel, novo encontro com a mãe da atleta do Mato Grosso. E novas e tristes descobertas sobre o que vinham fazendo no esporte. “Conversamos mais e ela contou sobre a Natácia ter lutado contra a Natalia Falavigne, que foi medalhista olímpica, que o pessoal do ranking todo estaria lá para competir. A Bianca chegou para mim e disse: ‘Carneiro, onde você enfiou a gente?’. Desconversei e disse, vamos em frente. Fomos para a pesagem, mais tarde, e aí que nós vimos mesmo a ‘bucha’ que teríamos pela frente. Pessoal todo uniformizado, delegações todas de Santos, São Caetano, Rio de Janeiro, tudo organizado, de abrigos. E a gente, de bermuda, camiseta e chinelo. Fomos para o hotel, dormir, mas ficamos conversando. Uma hora da manhã, olhamos pela janela do quarto e vimos a delegação da Bahia, todos sem camisa, treinando forte, na cobertura de outro prédio. Lembro-me como se fosse hoje do Iuri falar: ‘amanhã, a gente tá tudo morto, vamos morrer de apanhar’”.




E apanharam, mesmo. Mas ficaram lições eternas, para o futuro vitorioso do esporte em Alfenas. “No domingo, lutei, apanhei do cara, não tive nenhuma chance. Bianca ganhou a primeira luta, mas, na segunda, pegou a primeira do ranking, que era de Santa Catarina e perdeu, também não teve nenhuma chance. Só que o treinador de Santa Catarina, Fugazza, chegou em nós e disse que queria levar a Bianca para treinar com ele. Nessa conversa, ele me falou uma coisa que jamais esqueci e me deixou furioso. Disse que éramos amadores. A gente treinava feito louco, em Alfenas, e o cara chega e diz que a gente é amador? Tem alguma coisa errada nisso. Ele percebeu que ficamos bravo e explicou a razão. Disse que as meninas que ele treinava tinham estrutura, academia, casa para morar, onde ficavam juntas, salário, fisioterapeuta, preparador físico, alimentação, suplementação, tudo que um atleta precisa ter para competir em alto nível. E então falou: ‘a Bianca, atleta de vocês, não vive disso. Mas a Daniela, que é minha aluna, vive, não poderia perder para a Bianca, de forma alguma”.


No avião, de volta para Alfenas, uma conversa entre “Carneiro” e Bianca, selaria o futuro dele e do Taekwondo na cidade. Decidiu que era hora de deixar a federação em que estava filiado e, mais do que isso, abandonar o colégio Anglo, local onde treinavam. “Me deu um estalo, por tudo que vivemos e ouvimos no campeonato. Falei pra Bianca que sairia do Anglo e trabalharia para disputar, de verdade, um Campeonato Brasileiro. Ia mudar tudo, não poderia mais ser do jeito que aprendemos, esquecer as competições que não valiam praticamente nada em toda a região, Borda da Mata, Conceição, Congonhal. Comecei a pesquisar, ver onde poderíamos competir de verdade, de forma organizada”.

Para correr atrás do sonho de participar de um Campeonato Brasileiro, “Carneiro” sabia que teria de tomar uma decisão importante. E a dúvida surgiu. “Decidi trocar de federação, sair da Liga Nacional e ir para a CBTKD. Fui muito criticado, até pelos mestres que ensinavam por aqui. Diziam: ‘CBTKD é para rico’. Sabia disso, só que descobri, também, que entraria em outro patamar do esporte. Corri atrás e troquei, queria provar para eles que estava no caminho certo”.


Parte da seleção de Minas, em 2013
E como estava certo. “Procurei o mestre Valdeci, de Lavras, e ele me ajudou na transferência de documentação da Liga Nacional para a CBTKD. Paguei 900 reais pela transferência e passei a lutar as competições estaduais, o mineiro. Fui em dois eventos, ganhei o primeiro e no segundo ganhei por W.O. Estava classificado para o Campeonato Brasileiro. Tudo que me haviam falado antes, para não trocar, querendo ou não, já havia conseguido, porque com esses resultados passei a fazer parte da seleção do estado de Minas. Isso foi em 2013, ano que disputei o Brasileiro, em Belém do Pará, representando o estado de Minas. Cheguei ‘voando’ na competição. Não queria saber se seria campeão ou ficaria em último. Terminei em quinto lugar, mas realizei meu sonho de disputar um Brasileiro. Até hoje, em Alfenas, ninguém conseguiu isso”.

Nesta mesma época em que realizou o sonho de participar de um Campeonato Brasileiro, “Carneiro” também iniciou seu projeto social com aulas de taekwondo para os jovens no Cras Alvorada. Nem mesmo a tragédia com um amigo mudou o rumo do projeto. “Comecei a dar aula com o Arley, só que ele sofreu um acidente de carro, no trevo de Fama e acabou morrendo”.


"Carneiro" e seus dois primeiros alunos no Cras Alvorada
E a receptividade da comunidade ao projeto surpreendeu ao próprio “Carneiro”. “Comecei com um aluno, o Carlinhos. Daí a irmã dele veio, as amigas da irmã vieram, e mais gente chegou. Os ex-alunos do Anglo também vieram e, graças a Deus, chegou em um ponto que tínhamos 40 alunos nas aulas de taekwondô. Não sabia mais onde enfiar tanta gente. E é assim até hoje. O taekwondo de Alfenas, está aqui, dentro deste espaço do Cras Alvorada, neste tatame”.

“Carneiro” seguiu lutando, como atleta, e também dando aulas no Cras Alvorada, até que teve de tomar outra decisão. “Lutei e lutei, mas fui diminuindo, porque tinha o projeto, aqui, no Cras. Disse para mim mesmo: ‘ou treino ou dou aula’. Segui dando aula, mas desde que voltei do Brasileiro, pensei em parar com tudo, porque não tinha apoio. Gente de fora reconhecia muito mais nosso trabalho aqui. Fiquei 3 anos trabalhando como voluntário, sem receber um centavo. Gilberto, que era coordenador da primeira fase do Cidade Escola, tentou de todas as formas me contratar, mas não deu certo. Pensei em largar tudo, competição, aula. Estava cansado de não conseguir dar estrutura certa para os meninos e meninas que treinam com a gente e não conseguiam competir da maneira correta. Daqui uns tempos, se não estivermos mais aqui, terão de reconhecer que nosso trabalho foi sério. Posso dizer a mim mesmo que coloquei o taekwondo de Alfenas em outro patamar, completamente diferente do que era há 10 anos”.


As primeiras aulas de "Carneiro", no Cras Alvorada
A ideia de abandonar tudo, passou rapidamente. “Em uma semana, passou a frustração toda e decidi continuar. Peguei firme com a molecada, fomos para vários campeonatos e só conquistando resultados bons. Em Lavras, numa competição, levei 9 alunos e os 9 foram campeões. Levei mais 12 para Santa Catarina, 9 primeiros colocados, dois em segundo e um em terceiro”.

Há três anos “Carneiro” abriu mão da carreira como atleta, das competições, para se dedicar exclusivamente aos jovens do Cidade Escola, no Cras Alvorada. Agora, luta por todos eles, para se destacarem nas principais competições do taekwondo pelo país. Mas, um atleta em especial, está ajudando “Carneiro” a transformar o taekwondo alfenense em uma referência. Para transformar o jovem Thales de Oliveira, em um atleta de ponta, “Carneiro” fez de tudo. “Falou em Taekwondo, no Brasil, falou em São Caetano. É uma cidade referência, tanto que o técnico da seleção do Irã, estava lá treinando recentemente. Liguei para o Cleiton Reginaldo, técnico das categorias de base da Seleção Brasileira, e ele falou para levar o Thales, porque haveria um teste para eles integrarem a seleção. Foi há 2 anos, passamos um ‘perrengue’ lascado. Thales saiu daqui de Alfenas com R$ 2,20 no bolso. Pegamos o busão, chegamos em São Paulo e não sabíamos nem como chegar em São Caetano. Pegamos um taxi clandestino e fomos. Os normais custavam mais de 100 reais e este 70”.


"Carneiro" e Thales de Oliveira, em São Caetano do Sul
E as dificuldades não pararam por aí. “Acabou o treino, na quinta-feira à noite, e vi que só tinha 100 reais, e ainda tínhamos que arrumar um lugar para dormir. Nossa sorte foi que, no dia seguinte, caiu na minha conta o pagamento do PIS, aí consegui pagar o hotel que arrumamos para a primeira noite. Não tínhamos dinheiro nem para comer direito. Depois, cheguei no Cleiton e pedi para nos ajudar com a hospedagem. Ele conseguiu colocar o Thales no alojamento dos atletas da seleção”.

E tanto sacrifício, valeu a pena. “Essa experiência foi importante demais, porque passamos a ficar muito mais conhecidos pela elite do esporte, tanto que, ano passado, o Thales voltou para lá e ficou uma semana em treinamento. Ia lutar o Grand Slam, competição que dá vaga para a seleção brasileira, mas acabou não dando certo. Mas, o aprendizado é enorme para ele. Só ‘apanhando’, quer dizer, aprendendo muito, porque, lá, só tem atletas de nível de seleção. É outro mundo, a mesma coisa de jogar bola na terra e sair para jogar no Maracanã. Hoje, tenho porta aberta para levar qualquer atleta nosso para lá”.


Thales de Oliveira em competição
Muito mais do que a experiência, “Carneiro” e seus atletas passaram a ganhar respeito por diversas comunidades do taekwondo. “Sábado, dia 11/11, por exemplo, teremos várias cidades dos arredores para treinar com a gente, como Itajuba, Ibitiura, Santa Rita. 

Hoje, queiram ou não, a gente virou referência em taekwondo. O Thales virou referência, os meninos querem treinar com ele, porque já é considerado um atleta de ponta, de alto rendimento. 

E não é só ele, o Wesley também. Querem vir aqui e ver como eles treinam, como conseguiram atingir resultados tão bons”.












"Carneiro" e Gabriel Fernandes, revelação alfenense
“Carneiro” não se arrepende de ter deixado o mundo das competições. “Estou realizado dando aulas. Teve uma época que trabalhava para formar campeões, mas, também tenho outro pensamento, que é o de formar não apenas atletas, mas cidadãos. Tenho esse dever, porque nem todos conseguirão chegar no topo do esporte, porque sei o quanto é difícil, mas muito difícil mesmo”.

Agora, resta a torcida para que Thales de Oliveira chegue a Seleção Brasileira de Taekwondo, levando o nome de Alfenas e do Cidade Escola para o topo do esporte.



























segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Academinas: Parceria para a vida


Um dos objetivos do programa Cidade Escola, desde seu início, é construir parcerias com a iniciativa privada. Não é uma simples busca por parceiros, mas a tentativa de encontrar gente disposta a desenvolver um trabalho sério com os aspectos sociais da população.

E é exatamente por sempre ter esse tipo de preocupação social que a Academinas, a única academia de tênis da cidade, torna-se modelo dentro do Cidade Escola. Modelo, porque consegue extrair de um esporte considerado de elite, conceitos norteadores para a formação social de muitos jovens integrantes das atividades do Cidade Escola. E não apenas com o tênis de quadra, mas também com o tênis de mesa.


Tudo começa há nove anos quando a ex-jogadora de tênis, Julieta Totti decide criar, junto com o pai, a Academinas. Em uma imensa área de 4 mil metros quadrados, localizada entre os bairros Aeroporto e Vila Formosa, Julieta descobriu muito mais do que uma forma de superar a frustração de não poder seguir a carreira como atleta, interrompida precocemente, por falta de condições financeiras, mas o encontro do prazer e uma vocação.

Um longo caminho que começa no interior de São Paulo, na cidade de Lorena, terra onde Julieta nasceu há 37 anos. A paixão pelo tênis começa aos 8 anos, quando passa a jogar no Clube Comercial, única quadra existente na cidade. Julieta é a caçula de mais duas irmãs. Pedro Guimarães, seu pai, tentou com as duas primeiras filhas realizar o sonho de ver uma delas jogando tênis para valer, mas, foi com Julieta que ele viu tudo começar a acontecer.


Julieta (esq), o pai, Pedro Guimarães e sua irmã Virgínia.
E os resultados positivos em competições não demoraram a aparecer. Julieta também começou a conhecer a rotina dura e desgastante de uma atleta do tênis. “Jogava em Lorena, depois fui jogar em Campinas. Fui primeira do estado de São Paulo, aos 18 anos. Também fui terceira do Brasil. Cheguei a jogar fora do país. Com quase 19 anos, tinha que ter muita grana para seguir nas competições e aí não deu mais. Consegui uma bolsa nos Estados Unidos, mas optei por ficar no Brasil. Já estava no circuito há muitos anos, comecei a disputar torneios com 11 anos, viajava sozinha com essa idade. Você vai vendo como é difícil, muitos amigos vão parando também, tomando outro rumo”.

E foi o que Julieta fez, tomar outro rumo, literalmente. “Quando parei de jogar, fui para o Rio de Janeiro, cursar Educação Física. Parei de jogar aos 18 anos. Naquele ano, comecei a faculdade em agosto, e em outubro já estava dando aula na academia do Carlos Kirmayr (um dos melhores jogadores de tênis do país). Durante os quatro anos da faculdade, estudei e dei aulas para ele”.

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Julieta, paixão pelo tênis.
Aos 23 anos, quando acabou a faculdade, Julieta teve que decidir sobre os caminhos a seguir na vida. “Por ser mais interiorana, decidi sair do Rio de Janeiro. Poderia optar tanto por Lorena como por Alfenas, meus pais já tinham um sítio aqui. Em Lorena, já conhecia todo mundo, meu professor já era ‘velhão’, então, optei por vir para cá. Comecei a dar aulas na Pousada do Porto, pois tinha uma quadra lá. E comecei a frequentar o Tênis Clube, pois o professor que estava lá, há 20 anos, Artur, estava aposentando, com problemas sérios nas pernas, quadril. Ele já estava parando. Entrei para começar a substituir algumas aulas dele. E tinha também outro rapaz que dava aulas, Gustavo Bruzadelli, que está lá até hoje”.


Pedro Guimarães, pai de Julieta.
A paixão do pai, Pedro Guimarães, pelo tênis, e a veia de empreendedor, acabaram despertando, rapidamente, a descoberta de Julieta para um novo futuro dentro do esporte. “Meu pai é apaixonado por tênis, joga até hoje, com 66 anos. Aprendeu a jogar só aos 34 anos, era jogador de vôlei e futebol, lá em Lorena. Uma vez ele machucou a perna, no futebol, e teve de partir para outro esporte. Um amigo dele o apresentou para o tênis e até hoje é apaixonado. Quando estávamos no Tênis Clube, sempre falava que Alfenas só tinha um lugar para jogar e com tanta gente praticando o esporte. Foi aí que ele pensou em montar uma quadra nossa. Foi um projeto nosso, minha mãe, meu pai e eu. Foi assim que surgiu a Academinas. Compramos o terreno, não tinha nada, tudo terra, asfalto só até onde é o salão de festas, nem luz havia. Meu pai sempre foi muito empreendedor”.



Como em todo empreendimento havia a dúvida: vai dar certo? Um espaço tão grande como o da Academinas precisaria de muita gente para se sustentar. Mas isso não foi problema. “O espaço ficou bem maior do que imaginamos, mas, no início, quando vim do clube, já tinha muitos alunos lá, vários vieram comigo, mais no tênis social, adulto, mulheres e algumas crianças que também estavam comigo. Só eu dava aulas no início, a segunda quadra ficava só para aluguel e a terceira para os alunos jogarem, além da sala de musculação. Um foi falando para o outro e mais gente foi chegando. Começamos com uns 30 alunos e hoje são mais de 100, graças a Deus”.



João Paulo, revelação da Academinas.
E não foi apenas quantidade, mas, qualidade, também. Jovens talentos começaram a ser revelados. “Conseguimos formar jogadores bons. João Paulo é um deles, nosso principal jogador. Está com 17 anos e começou a jogar tarde, aos 13 anos. Aqui, na região, na idade dele, ganha tudo, já está jogando ‘classe’ (jogos fora de sua categoria), e não mais na idade dele. Ele e o irmão foram jogar um torneio da Federação Paulista, em Campinas. Seu irmão joga na categoria 14 anos, mas, já está disputando a de 16 e foi vice-campeão. Já estão brilhando. É gostoso ver isso acontecer, mas o que quero mesmo é ver esses resultados com algum jovem do projeto Sementinha”.




Isso mesmo, Sementinha. Este é o nome do projeto social criado por Julieta e seu pai para tentar formar cidadãos do bem. “Vimos que, na área externa, em frente as quadras, sempre havia vários meninos usando drogas. Começamos a chamá-los. Meu pai sempre falou: ‘precisamos fazer um projeto social’, mas a gente se perguntava onde iríamos ‘captar’ esses meninos. E eles estavam bem na nossa cara. Chamei uns 3 ou 4 e eles começaram. Ficaram poucos meses e saíram todos. Aí fomos falar com a prefeitura para ajudar. Fui pegando crianças das escolas públicas que ficavam mais próximas daqui. Foi assim que surgiu o projeto Sementinha. Todo mundo que morava aqui, por perto, vinha a pé. Faz uns 2 anos isso. Começou com uns 5 ou 6, ficaram um tempinho, depois, conseguimos o transporte com a prefeitura e aí a turma ficou grande. Eram 3 turmas com 15 alunos cada”.



Eduardo e Carol, integradores do Cidade Escola.
Com a troca de governo, Julieta ficou preocupada em perder o transporte público com a entrada do novo prefeito, Luizinho. Foi aí, então, que ela soube que poderia “voar” ainda mais longe com seu projeto Sementinha, atingir muito mais jovens. Foi aí, que ela conheceu o Cidade Escola. “Quando surgiu o Cidade Escola (eu nem sabia ainda que existia), conversei com o Matheus Paccini (coordenador do programa), para ver se ele mantinha pelo menos o transporte, para manter essas crianças com a gente. Foi aí que ele revelou o alcance do projeto. E ampliamos ainda mais a oferta de vagas. Só que eu estava sozinha, por mais que tivesse o Eduardo como professor, se não o pagasse, teria de trabalhar sozinha. Com o Cidade Escola, o Eduardo e a Carol participam como integradores culturais. Somos 3 professores, 3 quadras, em 4 horários. Ofereço 25 vagas por turma: segunda, terça, quarta e quinta, às 14hs; e terça, quarta, quinta e sexta, às 9hs. Serão 4 turmas de 25 alunos, cada, 100 crianças atendidas”.


E a cada dia, Julieta e os integradores Eduardo e Carol fazem novas descobertas com a chegada desta imensa turma do Cidade Escola. E está virando realidade o que era expectativa sobre se o projeto seria útil para toda essa gente. “Eles chegam aqui e a maioria nem sabe o que é o jogo de tênis, mas, eles se adaptam muito rápido, porque já estão acostumados a brincar na rua, soltando pipa, jogando futebol. Em duas ou três aulas já estão batendo bem na bola com a raquete, já sabem onde tem que jogar a bola na quadra. Hoje, ensinamos o tênis de maneira diferente, não utilizamos a quadra inteira, dividimos todo o espaço em 12 pequenas quadras”.


Novos aprendizados, dia a dia, para a turma do Cidade Escola. “A diferença do tênis para a maioria das outras atividades esportivas é que, além de ser individual, existe a postura. Vejo que, às vezes, elas chegam muito nervosas aqui e xingam se erram a rebatida de uma bola. No tênis, não pode haver esse tipo de comportamento. Vamos mostrando a eles que não pode haver palavrão, reclamar, brigar com o parceiro se ele erra. São posturas diferentes, como no futebol, onde há xingamento, ou, no vôlei, onde há a provocação na rede. No tênis, não pode e não existe isso, são regras de comportamento do jogo”.



E, aos poucos, novos comportamentos surgem. “Eles chegam nervosos, brigando um com o outro, mas, duas aulas depois, mudam completamente o comportamento agressivo, ficando mais calmos. E digo a eles isso, que quando a gente está calmo, pensamos mais, controlamos melhor as ideias, nos organizamos, refletimos muito mais. Quando se está nervoso, se fala mais alto. Agitados, fazemos coisas por impulso. Com eles, percebemos a mudança até em uma aula, porque chegam agitados e vão embora bem tranquilos, calmos”.


Julieta não sonha em formar campeões, atletas de verdade. Seu desejo é muito maior. “Já temos alguns alunos que podem crescer como atletas do esporte. Eles têm muita facilidade para jogar, estão há mais tempo aqui com a gente. Mas, meu sonho não é este. Não preciso ver um deles campeão, quero apenas que que cresçam dentro da modalidade, pegando bola, virem um batedor, um professor de Educação Física, e sobretudo, que cresçam como cidadãos”.







Julieta, paixão por ensinar
Com a Academinas, o projeto Sementinha e a enorme turma do Cidade Escola, Julieta não olha para trás, muito menos para o futuro que poderia ter sido diferente. “Não sou frustrada por ter parado cedo, era minha realidade, não sou igual a muitos esportistas que quando param, ficam sonhando com os tempos de atleta. Sou realizada, gosto muito, mas muito, mesmo, de dar aulas, trabalhar ao ar livre, no sol, vento. E o melhor de tudo é ver que as pessoas chegam aqui e se transformam”.

E como se transformam. Foi o que aconteceu com a turma que começou a praticar outro esporte, dentro da Academinas. Há dois anos, Julieta abriu espaço em uma de suas salas para que uma jovem pudesse implantar um projeto para a pratica do tênis de mesa, um esporte pouco desenvolvido na cidade.




Rayane, técnica de Alfenas no tênis de mesa.
E, novamente, o programa Cidade Escola seria fundamental na construção deste projeto.
Rayane Lorenzo, tem apenas 23 anos e é a atual técnica das equipes de tênis de mesa que representam a cidade de Alfenas em diversas competições, regionais, estaduais e nacionais. Em menos de dois anos, o trabalho de Rayane com os jovens já colhe resultados surpreendentes. Mas não foi nada fácil chegar neste ponto.






Rayane em aula de tênis de mesa, na Academinas.
Rayane tinha apenas 13 anos quando se mudou do Rio de Janeiro com a mãe para morar em Alfenas. Como a maioria dos jovens, começou praticando pingue-pongue, no Ceme (Centro Esportivo Municipal de Educação), até que, em 2008, uma professora da cidade a chamou para participar do Joesa (Jogos Escolares de Alfenas).

Pingue-pongue pode ser definido como a forma “primitiva” de jogar tênis de mesa, a base para quem sonha virar atleta de um esporte que exige preparação e técnica refinadas. E o espírito de técnica no esporte começou a surgir em Rayane. “No final do primeiro governo do Luizinho, tinha 3 meninas que jogavam as competições escolares estaduais, Carolina, Débora e eu. 


E as meninas começaram a mostrar resultados no JEMG (Jogos Escolares de Minas Gerais), ganhar medalhas de ouro e prata, mesmo sem saber a técnica. O que eu observava era que o pessoal tinha potencial. Foi aí que fui me preparar. Depois que entrei na faculdade de Educação Física, comecei a estudar, fazer cursos, clínicas, em São Paulo, na cidade de Piracicaba, com o técnico da seleção brasileira paraolímpica, com o técnico da seleção brasileira feminina e ainda com o Lincoln, técnico anterior da seleção feminina”.


Rayane, ao lado dos integradores
Carolina Rocha e Zé Guilherme.
Quando estava no segundo ano da faculdade, Rayane conseguiu um estágio na prefeitura. Começava a surgir o sonho de ter um projeto próprio, para ensinar o tênis de mesa para aqueles que já demonstravam qualidade no pingue-pongue.  “Em 2012, o professor Eduardo Becker, que dava aula para a Débora e a Carolina, e as incentivava para participar das competições, mesmo sem ter a técnica adequada para o tênis de mesa, parou de mexer com o esporte. Foi quando conheci o Zé Guilherme, que hoje é um dos integradores do Cidade Escola. Ele me procurou porque queria participar do Jemg e não tinha ninguém para ir com ele. Foi aí que voltou meu interesse com o tênis de mesa”.



Tênis de mesa no Ceme
Voltou o interesse? Como assim? Rayane começou a jogar tênis de mesa tarde, por isso, com idade “estourando” para competições escolares, acabou descobrindo que sua vocação era mesmo trabalhar para ensinar, ser uma técnica de tênis de mesa. “Havia entrado na faculdade, muita coisa para estudar, sem contar a falta de incentivo no esporte. Em 2013, comecei a ter interesse em ter mais alunos, os meninos. Quando comecei a dar aulas, aqui, no projeto com a prefeitura, nenhum menino jogava. Zé Guilherme foi meu primeiro aluno e, a partir dele, que fui buscar outros. A maioria surgiu no CEME, 90% saiu de lá, jovens que vão para lá para fazer alguma recreação, brincar na mesa de pingue-pongue. Eu ficava de olho e perguntava: ‘vamos treinar’?. O aluno que vai lá, para natação ou qualquer atividade do Cidade Escola, para passar o dia no CEME, acaba aceitando treinar. Eles são de várias escolas da cidade”.




Jemg 2016: dois alunos classificados
para os Jogos da Juventude, em João Pessoa, Paraíba.
E os resultados impressionantes começaram a surgir com o projeto desenvolvido por Rayane. No Ceme, escolas públicas e na sala da Academinas, Alfenas começa a revelar potencial incrível para as competições de tênis de mesa. O “segredo” foi massificar a pratica esportiva, através do Cidade Escola. “A média, hoje, é de 200 alunos, e o mais legal é que com essa massificação do Cidade Escola a gente consegue trazer muitos alunos e ir lapidando aqueles que tem potencial para disputar campeonatos. Na última competição que participamos, levei 33 alunos. São meninos que estão praticando e estão mostrando resultados também. Foi importantíssima a entrada do Cidade Escola nisso tudo. Fiquei muito feliz, também, porque ajudou na vida dos meninos integradores. Eles são quatro: José Guilherme, Luis Gustavo Cesário, Marcos Antonio Jr e Eduardo Cesario, todos começaram no projeto. Zé Guilherme, o primeiro, e os outros 3 começaram sem saber nada, absolutamente nada do tênis de mesa, e agora já disputam campeonatos com rendimento altíssimo. Eles têm 16 anos. Luiz Gustavo foi prata no Jemge do ano passado, foi para a fase nacional, conseguiu bronze, em João Pessoa, Paraíba. Essa competição tem nível alto, porque são os Jogos da Juventude, fase nacional. E tudo começou com ninguém sabendo as técnicas do jogo, apenas brincando pingue-pongue, só que quase todos sempre demonstraram muito potencial para o tênis de mesa”.


Tênis de mesa na escola Padre José Grimminck
E qual seria, então, o segredo para tantos talentos revelados, quando se sabe que são necessários anos de preparação para se obter resultados no esporte de alto rendimento? “Acho que se deve ao fato de as crianças brincarem mais. Eu sou do Rio de Janeiro e percebo que, vivendo aqui, elas têm mais liberdade, brincam muito, nas ruas, no Ceme, e, quando chegam para eu trabalhar com elas, percebo que já tem uma aprendizagem motora dessas brincadeiras. Então, tudo fica muito mais fácil para ensinar. É só refinar a técnica do tênis de mesa”.



Tênis de mesa no Poliesportivo
E a tendência, de agora em diante, é só crescer. “É extraordinário o programa Cidade Escola, porque com as diversas atividades oferecidas, as crianças podem vivenciar um monte de coisas. E o mais legal, tudo próximo delas, de onde moram. Antes, minha dificuldade era exatamente essa, a distância, agora, eles estão próximos do Ceme, do Poliesportivo, das escolas Estadual, Professor Viana e, em breve, teremos um integrador no Caic. O tênis de mesa (pingue-pongue) é o terceiro esporte mais praticado no país, depois do futsal e do vôlei. As pessoas brincam, e, agora, o legal é que os integradores do Cidade Escola, que já sabem a técnica, poderão levá-las até todos os participantes do programa”.


Rayane recebendo com os alunos o certificado de
"técnica destaque" nos Jogos Escolares de Minas Gerais 2016/17
Apesar de tão jovem, Rayane não está encantada apenas com os resultados expressivos conquistados em tão curto espaço de tempo como técnica de tênis de mesa. Suas preocupações, são outras, as mesmas que regem os princípios norteadores do Cidade Escola. “Fui técnica revelação na última competição, porque, dos 4 que foram para as semifinais da fase estadual dos jogos escolares, 3 eram de Alfenas. Fiquei muito feliz, saímos do nada, sem saber nada, e tão rápido conseguir resultados expressivos. Converso muito sobre isso com o Zé Guilherme, porque, em 2013, quando o acompanhei, ele levou um ‘pau’ na competição, e se desistíssemos, ficaria aquela ‘coisa’ dentro de nós pela derrota. E não, ‘vamos treinar, treinar, treinar’. No ano seguinte, ele foi campeão e foi para fase nacional. Não tem segredo, é persistir, acreditar”.


E muito mais do que isso. “Digo muito as crianças que começam a jogar com a gente que eles estão num processo de descobrimento, de formação, só que, quando perdem e saem bravos, irritados, digo a eles: ‘ninguém perde, porque, ou você ganha o jogo ou ganha experiência’. Se você perdeu, é porque o adversário estava melhor e você vai aprender com isso. Falo muito com eles sobre esse aspecto e os resultados são incríveis, porque, se ganham, querem continuar ganhando; e se perdem, querem continuar a treinar mais ainda, para na próxima encontrarem o adversário e ganhar dele”.

Poucos sabem, mas o tênis de mesa é o segundo esporte a exigir maior concentração dos atletas, o primeiro é o xadrez. E tudo por conta da dinâmica do esporte, jogado em um espaço muito menor. Há de se perceber o efeito que a bola carrega em uma rebatida, saber a maneira correta de “entrar” na bola para armar uma jogada.


Equipe de tênis de mesa de Alfenas,
em torneio de Poços de Caldas, 2017
Mas, no programa Cidade Escola, todos esses detalhes técnicos necessários para a prática do tênis de mesa, ficam em segundo plano. O objetivo da atividade é outro. “O maior erro, no Brasil, é esperar resultados para poder massificar o esporte. E o Cidade escola fez isso, colocou diversas atividades, e só depois trabalhar, se for o caso, para começar a ter resultados no esporte com alguns deles. Cidade Escola não tem compromisso com ‘vencer’, os princípios são outros, como os de integrar e socializar. Se resultados como atletas aparecerem, melhor ainda”, garante Rayane.

E a técnica de tênis de mesa de Alfenas viu acontecer, bem de perto, um exemplo mais do que concreto sobre essa transformação de vida. “Tenho um caso, que é um dos alunos e é um dos integradores. Ele teve problemas sérios de conduta nas ruas, chegou a roubar. Conversando, com o tempo, ele se transformou, é um menino totalmente diferente. Não tenho dúvida de que foi o tênis de mesa que o ajudou a mudar. Se não tivesse essa atividade, o que poderia estar fazendo hoje?”.


Para Rayane, o resgate deste jovem, dentro da atividade tênis de mesa, define claramente os objetivos do Cidade Escola. “Digo a todos os meninos que meu maior objetivo, aqui, no projeto, é não deixar eles se perderem por aí. Não tenho pretensão de transformá-los em campeões olímpicos, fico mais feliz com histórias do integrador que falei, de não ter deixado ele ir para um caminho errado. Essa é minha intenção como professora, continuar formando gente, cidadão do bem. Sempre que posto alguma foto do grupo, digo que devem se relacionar melhor com o outro, ter educação, que, aqui, é um ambiente onde a gente preza isso. Nas aulas, quando alguém solta um palavrão, colocamos para descansar, no banco, dizendo para pensar melhor no que está fazendo. A maioria começa aqui, para treinar, estressados, nervosos, e, rapidamente, vão mudando de comportamento”.


Cantar e tocar, outra paixão de Rayane.
Na foto, tocando e a mãe cantando.
Educação, palavra chave para a técnica Rayane. Alfenas, lugar que acolheu sua família. Uma carioca, apaixonada por esse pedaço de chão. “Minha mãe já foi diretora da escola José Grimminck, quem tem um professor em casa, meio que se encanta por isso. Minha mãe tem uma visão mais humana da educação, sempre admirei muito isso nela. Tive oportunidade de voltar para o Rio de Janeiro, mas só vou para lá, para passear, ver meu pai, minha irmã, porque eu amo essa cidade, de verdade. Não me vejo saindo daqui, para voltar para lá ou qualquer outro lugar, porque Alfenas é uma cidade maravilhosa.