sexta-feira, 19 de maio de 2017

Cidade Escola: CEME, um lugar especial


Em Alfenas, é difícil encontrar alguém que não saiba onde fica o CEME, Centro Esportivo Municipal de Educação, um dos núcleos mais importantes do Cidade Escola. Ele ocupa quase todo um quarteirão, próximo à Santa Casa, na região central da cidade. Um lugar histórico, ponto de encontro de diversas gerações de alfenenses, que sempre buscaram no lugar a prática de esportes e, principalmente, as piscinas ali instaladas.


O CEME é um núcleo do Cidade Escola, mas também é aberto para todas as pessoas, basta se inscrever, fazer uma carteirinha e participar das diversas atividades esportivas, físicas e recreativas à disposição da população. O lugar é enorme, com duas quadras de futsal, basquete, vôlei e handebol (esportes coletivos), quadra de vôlei de areia, quadrinha de peteca e um conjunto aquático com piscina olímpica de 25 metros, outra redonda, grande, e uma outra menor.


São várias as opções de atividades como natação, hidroginástica, treino livre (para os que já sabem nadar), recreação (atividades lúdicas, psicomotricidade, dama, xadrez, futebol de dedos, peteca, tênis de mesa), ginástica localizada, funcional, zumba, ritmos e esportes de quadra (futsal, vôlei, basquete e handebol).





Por ser “aberto a todos”, o número diário de frequentadores, entre jovens e adultos, é enorme. “Em abril foram 562 participantes por semana, só a turma da tarde, até 17hs, sem contar as turmas dos núcleos do Cidade Escola. Se juntarmos tudo, são quase mil pessoas”, afirma a vice-diretora e professora do CEME, Julyana Rodrigues.






Integrantes do núcleo Gaspar Lopes, nas piscinas do Ceme.
Com a chegada do Cidade Escola ao CEME, centenas de jovens e adultos que antes não conseguiam usar, principalmente, as piscinas no verão, podem passar horas se divertindo e praticando natação, além das demais atividades de quadra e recreativas. “Um dia, só com o pessoal do núcleo Caic, chegaram 219 pessoas. Com a turma do Residencial São Carlos (Predinho) e Primavera, também não foi diferente. Quatro ônibus, quase 200 pessoas. A média semanal, só com o Cidade Escola é de 200 a 300 pessoas a tarde e quase 200 pela manhã”, contabiliza Julyana.






Julyana Rodrigues, vice-diretora do CEME.




É muita gente e trabalho. E para dar conta disso tudo, o CEME conta com 23 profissionais para os serviços gerais, além de 12 professores. Mas não foi sempre assim. “Até Luizinho assumir, eram apenas cinco professores para atender todas as demandas de atividades. A gente dava conta porque eram pessoas experientes, mas sempre pedimos mais estrutura, e nunca nos foi dado”, revela Julyana.




Só mesmo com profissionais experientes como a professora Julyana Rodrigues para dar conta de tantas atividades. E há ainda agendamento semanal para escolas e até mesmo para os estudantes da Unopar, faculdade de Educação Física a distância, fazerem suas aulas práticas. “A escola Dirce Moura Leite, agenda uma tarde no CEME: nadam, jogam bola, fazem recreação. Em junho, por exemplo, acontece o torneio de futsal do Polivalente. Eles trazem as crianças aqui. Outro colégio, o Ismael Brasil, teve aqui esses dias. Eles amam vir no CEME. Porque enquanto 12 estão jogando, na quadra, outros 20 têm outros espaços para se divertir e praticar alguma atividade”, afirma Julyana.

E os resultados, de melhoria na qualidade de vida, na prática, aparecem rapidamente. “Um garoto entrou aqui, briguento, agressivo, hoje, não dá trabalho na disciplina, é educado, ajuda a gente arrumar o material das atividades, mudou muito. Um aluno especial, com síndrome de down, tinha problemas sérios com bronquite, respiração, estava gordinho, hoje, faz mergulho, respira melhor, teve um desenvolvimento motor e a mãe disse que ele melhorou demais. E temos também uma família, no período da manhã, avó, avô e sua filha, que vão para a natação e a hidro, enquanto as filhas e netos praticam outras atividades”, lembra Julyana.





Rodrigo Freiria, coordenador
do Cidade Escola e diretor do Ceme.
Quem coordena o núcleo do Cidade Escola é o diretor do CEME, Rodrigo Freiria, professor de Educação Física desde 2012, e que também coloca a mão na massa, dando aulas para diversas turmas. Rodrigo conhece bem os princípios integradores do Cidade Escola, porque já havia participado da primeira versão do programa, entre 2008 e 2012, como professor de futebol, na Vila Formosa. E na nova versão do Cidade Escola, nada de separação. “Temos muitos frequentadores especiais, com síndrome de down, autismo, mas fazem tudo junto com os demais, nada de turma ‘especial’. A turma da terceira idade, por exemplo, é uma das mais atuantes, são centenas, mas que se misturam também com pessoas de 24, 25 anos. A zumba também mistura todas as idades. Temos uma mãe que faz aula junto com a filha de 4 anos”, confirma Rodrigo Freiria.

Além da integração, um dos princípios fundamentais do Cidade Escola, há outra atitude que não pode ser esquecida, em qualquer dos núcleos do programa espalhados pela cidade. “Não dizer não para ninguém. É isso o que o prefeito Luizinho nos pediu, abrir as portas para todos, acolher toda a população em geral. Aqui, nunca falamos não, para ninguém. Às vezes, chegam crianças sem shorts adequados para a natação, mas não é por isso que não farão a atividade, porque emprestamos o material até que possam adquirir o seu”, afirma Rodrigo.

Quem iria adorar ver o que acontece atualmente na rotina diária do CEME é um vizinho especial do local. 

Não é qualquer morador, mas a pessoa que mais lutou e se dedicou para ver todo o espaço bem cuidado e disponível para todos alfenenses. 

Não é à toa que seu nome esteja grafado nas paredes que cercam o CEME. 

Desde 2008, na administração Pompilho e Luizinho, o Centro Esportivo Municipal de Educação passou a homenagear Celso Moura Leite.



Celso, esposa e filha, na Praça de Esportes
Arquivo Família Moura Leite
A razão para eternizar seu nome no CEME? Simples. Celso era apaixonado pelo lugar, entregou 20 dos seus 94 anos de vida, para cuidar, preservar e resgatar o espaço que surgiu na cidade conhecido como Praça de Esportes. 

O patrono do CEME morreu há quatros anos, mas deixou uma longa história de amor.

Quem entra nas dependências do CEME e observa a enorme caixa d’água existente no local, pode ver o registro do ano de 1931 em suas paredes, além de uma placa comemorativa de sua inauguração. 

Mas foi somente três décadas depois, no ano de 1962, que a Praça de Esportes seria criada oficialmente. Um começo ruim, porque apesar de ser mantida por funcionários do Estado ficou praticamente abandonada até o ano de 1966.

É neste ano e pelos próximos vinte seguintes que surge o nome de Celso Moura Leite na história do CEME. 

Em 1966, ele assumiu a administração, saiu por 6 meses no ano seguinte, e, em 1968, assumiu definitivamente a administração e a presidência com a criação da AEA – Associação Esportiva de Alfenas. Sim, para quem não sabe, as três letras gigantes instaladas à beira das piscinas têm esse significado.

Não foi fácil o trabalho de Celso pois, logo que assumiu, a situação da Praça de Esportes era precária. De imediato, ele organizou um cadastro de associados, que pagavam uma espécie de mensalidade, chamada de “joia”. Em pouco tempo, o lugar começou a mudar de ares. Construiu uma piscina murada para mulheres, comprou cadeiras para banho de sol, alugou as quadras para visitantes, e, com tudo isso, triplicou o quadro social. A Praça de Esportes funcionava das 6 às 24hs. Era o único clube funcionando na cidade. Ponto de encontro diário para milhares de alfenenses durante as décadas seguintes.

A casa de Celso Moura Leite,
em frente a antiga entrada da Praça de Esportes.
A Praça de Esportes virou praticamente uma extensão da casa de Celso Moura Leite, já que morava bem em frente onde era a antiga porta de entrada do CEME. 

Não era só um administrador, vivia intensamente a rotina do lugar. Em depoimento dado ao Jornal dos Lagos, no ano de 1996, Celso dava a receita para o sucesso de sua administração. 

“Para a gente assumir a direção de uma entidade, tem três coisas fundamentais: primeiro, gostar. Eu gosto de esportes. Segundo: idealismo. E o mais importante, a honestidade. Foi assim que o clube se tornou a sala de visitas da cidade de Alfenas”.


Dos itens mencionados, o esporte transformava o comportamento dele em dias de competições na Praça de Esportes. 

“Ele acompanhava as disputas acirradas que aconteciam entre as cidades da região, Machado, Paraguaçu, Areado e outras. Gritava, torcia, corria em volta do alambrado das quadras para apoiar as equipes de Alfenas. Minha mãe diz que eu sou ele de saias, pelo temperamento, alegria, agitação, extrovertida”, recorda sua filha mais nova, Cilene Fonseca Moura Leite.




Odila e seu filho Aldrio, nora e neto 
mais velho de Celso na piscina da Praça de Esportes
Dona Maria Aparecida Fonseca Moura Leite, aos 94 anos, da varanda da mesma casa onde sempre morou com o marido Celso, ainda se emociona ao recordar da paixão que o companheiro tinha pelo CEME. Chorando, ela garante. “Ele entregou a vida a este lugar. Plantou quase todas as árvores existentes ali. Tirava dinheiro do próprio bolso para manter tudo direito para as pessoas se divertirem e praticar esportes”.




Cilene, a filha, também se emocionou e chorou ao recordar do pai. 

Não só pela entrega que ele tinha pela Praça de Esportes, mas também pela profissão de bancário e, sobretudo, pelas causas sociais, como presidente e fundador da Apae, durante 16 anos, e provedor da Santa Casa.






Família Moura Leite, na inauguração do CEME.








As lágrimas da esposa e da filha também foram pelos problemas de saúde vividos por Celso quando deixou a administração da Praça de Esportes, em 1986. Entrou em depressão, por causa da perda de parte do terreno. Seu sonho era construir no lugar uma quadra coberta e um campo de futebol. Dez anos após sua saída, em 1996, o Jornal dos Lagos trazia matéria mostrando a deterioração do local e toda a decepção de Celso. “Delapidaram a Praça, destruíram a sauna, o barracão onde funcionava uma academia, o bar, a geladeira, o freezer. Depredaram os vestiários. Me entristece muito quando eu vejo a Praça de Esportes no estado que está, porque eu levei 20 anos e, em dois meses, eles acabaram com ela”.


Mas, felizmente, Celso foi homenageado ainda em vida por toda dedicação à Praça de Esportes. 

Muito mais do que o nome grafado nas paredes, com certeza, ele ficaria feliz em ver que o CEME, com todo o trabalho do Cidade Escola, voltou a ter todo o cuidado e respeito que merece.




O sonho de Celso, de ver a Praça de Esportes ser frequentada por pessoas de todas as idades e classes sociais, não só vive, como foi ampliado com a chegada do Cidade Escola. O CEME sempre foi de todos e para todos.




































































quarta-feira, 10 de maio de 2017

Cidade Escola: Uma Vila Formosa


Nem todos sabem, mas um dos bairros de Alfenas e sede do núcleo do Cidade Escola, carrega o nome de fundação da cidade. Antes de virar Alfenas, a cidade era conhecida como Vila Formosa de São José e Dores. Restou o bairro, Vila Formosa, simpático, encravado em ladeiras próximas à avenida Lincoln da Silveira. E pensar que há pouco tempo o lugar ainda tinha chácaras e ruas de terra. “Conheço muita gente no bairro. Estou há 25 anos aqui, cheguei quando tudo era praticamente mato, ruas de terra, chácaras. Ia buscar alface, nas chácaras, a pé”, recorda Marcelo Divino, coordenador do núcleo do Cidade Escola na região.

Ou seja, o jovem Marcelo passou praticamente a vida inteira na Vila Formosa, pois tem apenas 33 anos de vida. Jovem, mas experiente. Na região, o Cidade Escola atende as comunidades de Vila Formosa e Santos Reis, outro bairro antigo e tradicional na cidade. Como acontece em outras regiões do programa, um lugar em que, até a chegada do Cidade Escola, pouco ou quase nada havia para se fazer. “A região tinha apenas natação, no CEME, e ginástica localizada, na creche, que mantivemos, mas estruturamos, porque não tinha material algum para a atividade”, afirma Marcelo.

E não foi nada fácil começar a estruturar as diversas atividades do Cidade Escola na região. Primeiro, faltava um lugar adequado. “A primeira ideia era instalar o núcleo no campo de futebol da Vila Formosa, mas o espaço estava bastante deteriorado, sem limpeza havia três anos”, conta o coordenador Marcelo.

E foi andando pelas ruas, que Marcelo tanto conhece na Vila Formosa, que ele percebeu que a solução estava bem próxima de onde ele mesmo mora. E sem saber, surgia uma parceria que virou programa do governo (ver matéria completa em http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/04/cidade-escola-e-saude-parceria-para.html ). “Estávamos sem um local adequado para todas as atividades e encontrei a Rosangela, na época, enfermeira responsável pelo PSF da Vila Formosa. Aqui, aconteceu uma parceria natural entre PSF e Cidade Escola. Ela nos acolheu de imediato, cedendo até sala para que eu pudesse ter um canto para poder conversar com os pais reservadamente”.

Em breve, 14 integradores culturais estarão responsáveis por diversas atividades como zumba, karatê, treinamento funcional, xadrez, teatro, artesanato, violão, pilates, futebol (masculino e feminino) e tênis (em parceria com a Academinas). Todas elas funcionarão (algumas já estão em andamento) no campo de futebol, da Vila Formosa, na creche Lago Azul, na creche do Santos Reis e nos fundos da sede do PSF Vila Formosa.



 Sim, isso mesmo, a sede do Cidade Escola da região fica dentro de um PSF. E o que muitos poderiam imaginar que não daria certo, acabou mudando a realidade do local. “Nos fundos do prédio do PSF há uma área em que acontecem várias atividades como violão, xadrez e pilates. Aqui, a comunidade aceitou muito bem estarmos dentro do PSF, porque acabou aproximando as pessoas. Tirou a ideia ou imagem de que PSF é um pronto socorro, usado apenas por pessoas que precisam de cuidados médicos. Aqui, por exemplo, já vi mãe sendo atendida pelo médico enquanto a filha está fazendo aula de violão. Virou um espaço muito acolhedor”.

E o Cidade Escola foi ampliando a parceria e utilização do espaço, antes reservado só para atendimento médico no PSF. “A gente tem aula de treinamento funcional. E o que é treinamento funcional? Temos uma academia ao ar livre, próxima ao campo de futebol, que não foi utilizada na gestão passada e ficou totalmente abandonada. Então, trouxemos uma professora para dar aula de ginástica neste local para o pessoal da terceira idade. É ela também quem dá aula de pilates. O que acontece, na prática, nesta parceria? Uma pessoa do PSF, no começo da atividade de ginástica, mede a pressão das senhoras, faz toda a triagem e vê como a pessoa está. A diferença é que fazem tudo isso se divertindo, interagindo e ‘melhorando’, naturalmente”, conta Marcelo.

Outra mudança percebida no núcleo de Vila Formosa, que funciona dentro do PSF, é o público de usuários. “Quando cheguei aqui, era só o pessoal da terceira idade. Eu não via adolescente neste espaço. PSF tem a ‘imagem’ de gente só com problemas de saúde. E adolescente, tem muita energia. Agora, não. A gente vê muitos adolescentes, todos os dias. Violão, por exemplo, começamos com dois alunos, e agora já são vinte e cinco, divididos em duas turmas” revela o coordenador.


No bairro Santos Reis, o Cidade Escola também está presente. Pequeno, mas repleto de história e tradição por ter em seu pedaço de chão a igreja de Santos Reis, a mais antiga do Brasil. No final deste ano, em 17 de dezembro, devem acontecer inúmeras homenagens e comemorações pelo centenário da igreja. Mas nem tudo foi razão de festa por ali. Poucos sabem, mas no livro escrito por Edson Velano, “Sombras na Vila Formosa” (acesse para ver a obra completa https://issuu.com/leandronunes07/docs/sombras_na_vila_formosa_-_edson_antonio_velano ), a abertura do capítulo 43, revela um passado sombrio. 


“Dona Rosa sobe a rua Ruy Barbosa com seus dois burrinhos. Carregam verduras em balaio. Frutas, marolos, produtos da terra que dona Rosa vende pelas ruas. Dona Rosa mora no bairro dos Aflitos, chamado agora Santos Reis. Por que o nome dos Aflitos? Dizem que para aquela região da cidade encaminhavam os moribundos, os pobres sem eira nem beira apanhados pela gripe espanhola, mortos-vivos que se afligiam deixados ao léu, até morrer, porque os não infectados tinham medo do contágio...”.


Quase cem anos depois, o Santos Reis vive, com sua gente simples, espalhados pelas poucas ruas existentes por ali. Um lugar em especial, agora, começa a dar novos ares à pequena comunidade. A creche do bairro é quem recebe as atividades do Cidade Escola. Tem karatê, treinamento funcional, cantinho da beleza e o cantinho do saber, espécie de reforço escolar, só que tudo de forma lúdica. “Na creche, trabalhamos o cantinho do saber (reforço escolar), mas sem usar lápis ou papel, tudo lúdico. A ideia é simular um supermercado, levando material reciclável, uma garrafa PET, uma latinha de milho, e outras coisas. Pegamos um brinquedo que imita uma caixa de supermercado e notas de 1 real de brinquedo. Distribuímos um valor para cada criança, ela vê os preços, faz as compras, passa no caixa, e recebe o troco. Quanto tem que voltar? É assim que trabalhamos a matemática, totalmente de forma lúdica”.


Se no passado distante, Santos Reis era sinônimo de isolamento, agora, com o Cidade Escola, é a esperança de novos tempos, um dos principais princípios integradores do programa. “Nossa região atinge, Vila Formosa, Santos Reis, mas atinge também o Jardim Aeroporto (bairro nobre), que está começando a ‘descer’ para algumas atividades. São poucos, mas estão aderindo também. E isso é raro, a burguesia que não se misturava com a comunidade do Santos Reis. E o inverso, idem. Já levamos turmas de treinamento funcional da terceira idade no Santos Reis para fazer caminhadas pelas ruas do Jardim Aeroporto”, confirma Marcelo Divino.



Marcelo Divino, ator e coordenador Cidade Escola
E quase 500 pessoas já se inscreveram nas atividades do Cidade Escola que estão sendo implantadas na região. E entre tantas opções, uma é especial para o coordenador Marcelo Divino. Teatro é a sua grande paixão. Descoberta feita numa época em que ele mesmo percebeu um grave defeito em sua formação. “Tinha ciúmes terrível da minha namorada. E ela resolveu fazer aula de teatro, num curso gratuito que surgiu por aqui, em 2002. Eu parecia ter uma viseira de cavalo, não enxergava o mundo, era muito machista. No primeiro dia do curso, o professor pediu para que todos se sentassem num local e começou a perguntar um a um, por que vieram fazer teatro. Quando chegou na minha vez, disse que era para vigiar minha namorada. Dei uma resposta atravessada para o professor, e ainda assim, ele continuou me ironizando de forma sutil. Achei genial, comecei a gostar do negócio, fazer as cenas, atividades, exercícios”.




E lá se foram quinze anos de muita luta nos palcos teatrais, dezenas de peças encenadas. Entre tantos projetos desenvolvidos, um se tornou especial. Marcelo montou um grupo chamado Fábula, pequeno, mas que em parceria com o Cidade Escola, em sua primeira versão, em 2009, fez total diferença. Os resultados alcançados, já naquele momento, revelam o potencial que o teatro terá, agora, na nova versão do Cidade Escola. “Chegamos a ter 250 alunos espalhados pelas regiões do CAIC, CRAS Alvorada, Gaspar Lopes, Polivalente e na escola Orlando Paulino. Oitenta e oito, em uma única sala de aula, no Polivalente. O teatro foi um sucesso na primeira edição do Cidade Escola. Tivemos uma força muito grande. E não será diferente, agora”.







Turma do Cidade Escola, no festival de teatro em 2012.
Mas faltava algo mais para toda essa moçada. Só fazer aulas? E depois? Foi aí que Marcelo, professor de teatro no Cidade Escola da época, teve uma ideia. Procurou a secretaria de educação e propôs uma seleção, entre todos esses alunos do Cidade Escola, para integrarem seu grupo teatral, na época, com apenas quatro integrantes. Vinte alunos foram escolhidos. “E a coisa foi tomando uma proporção muito maior, até chegar no final do ano e quando fizemos um festival de teatro do Cidade Escola, em 2012. Foi no Teatro Municipal, três dias de apresentações, com direito a premiação com troféus, três jurados professores de teatro, que não tinham contato com os alunos. Neste festival, participaram 66 alunos do programa”, recorda Marcelo.


Muito mais do que apresentações, Marcelo fala com orgulho dos resultados individuais alcançados com alguns dos alunos formados dentro do Cidade Escola. “O Thalyson, por exemplo, foi meu aluno, no centro, na escola Polivalente, e veio fazer parte do grupo Fábula. Fez todo o processo do Cidade Escola. Depois, resolveu ir embora para São Paulo. Chegou a participar de uma peça de teatro. De lá, foi para o Rio de Janeiro, e passou a fazer figuração na novela Geração Brasil, da TV Globo. Chegou a fazer teste também para atuar em Malhação, e participou de outro teste, para uma minissérie sobre adolescentes, num canal a cabo”.


Nos últimos quatro anos, quase todos os grupos teatrais da cidade foram obrigados a parar suas atividades, por total falta de apoio. Agora, o Teatro Municipal está em boas mãos, com o diretor Anselmo Cesário –  que será  em breve, tema de reportagem neste blog. Mas daqueles tempos, Marcelo não se esquece. “Montamos uma peça chamada ‘Cô Zé, nem o Diabo Pode’, uma obra inspirada no Mazzaropi e no Auto da Compadecida (obra de Ariano Suassuna). Um dia, resolvemos fazer a apresentação em uma quarta-feira, por não haver data no domingo. Metade do grupo disse que eu estava louco, pois não iríamos ter ninguém no teatro neste dia. Na época, precisávamos de dinheiro para pagar aluguel da nossa sede, era o único jeito. No dia, meia hora antes de apresentarmos a peça, choveu. A zeladora ironizou: ‘não vai dar ninguém aqui, só os parentes de vocês’. E nesse dia, fez fila no teatro de dar volta no quarteirão. Nunca tinha visto tanta gente no teatro. Eram 17 atores, 14 do Cidade Escola”.


Para Marcelo Divino, teatro e Cidade Escola tem tudo a ver. “O que acho mágico no teatro é a oportunidade que ele dá de você ser o que não é. Sempre digo isso para os meus alunos, que queria ser jogador de futebol, mas não tinha habilidade nenhuma para isso, no teatro eu posso ser, e convenço um monte de gente que sou bom de bola”.





E muito mais do que isso. “O teatro ajuda a compreender um pouco o mundo da pessoa, você consegue pegar qualquer história e trazer para o palco. Essa é a magia, pegar um livro, cheio de letras, contando uma história, e fazer aquela história virar real. O lado social também é forte com o teatro, porque é uma força de expressão muito grande. Recuperamos muitos alunos do Cidade Escola por conta do teatro”.






E assim será, novamente. Com teatro e as diversas atividades integradoras propostas pelo Cidade Escola, na Vila Formosa, no Santos Reis e em todos os núcleos espalhados pelos quatro cantos da cidade. Cidade Escola é teatro vivo, nas ruas, integrando e interagindo saberes e vivências. “A ideia do Cidade Escola é não taxar idade, é misturar, diferente do que acontece numa sala de aula. No começo todo mundo assusta, mas funciona, é legal ver uma pessoa de 25 anos ‘ensinando’ um menino de 8, que ele nem conhece. Ou o contrário. No Cidade Escola, os professores ensinam, mas deixam um leque de opções para os próprios alunos ensinarem um ao outro. Há espaço para a conversa, para você ser, hoje, o mestre, o professor, e, amanhã, o aluno”, garante Marcelo Divino.