terça-feira, 27 de junho de 2017

Cidade Escola: Conviver com prazer


O blog do Cidade Escola agradece a todos os seus leitores. Em pouco mais de 3 meses de acompanhamento do programa, que está revolucionando muitas teorias sócio educacionais, foram quase 20 mil visualizações das 18 reportagens produzidas até agora. Além do Brasil, cruzamos fronteiras distantes e atravessamos oceanos chegando a vários países como Estados Unidos, Polônia, Reino Unido, Chile, Vietnã, Portugal, Argentina, Alemanha, Croácia, Irlanda, Rússia, França e Índia.

E o programa Cidade Escola está apenas começando. Se estruturando melhor. Ganhando a cada dia novos participantes, nos diversos bairros e núcleos em que mantem suas inúmeras atividades.


Por que outros países, comunidades, além de Alfenas, estão interessadas em conhecer o Cidade Escola? Neste primeiro momento, de tornar o programa visível a todos, a resposta é simples. Todos começam a entender, tanto em Alfenas, como onde está sendo visto online, em diversos países, que as propostas do Cidade Escola não são apenas a de se oferecer atividades físicas, culturais e esportivas à uma comunidade. Vai muito, mas muito mais além. O que começa a acontecer é um novo olhar sobre as relações humanas de uma sociedade, quebrando preconceitos, interagindo e criando a cada novo dia a sensação de maior pertencimento do cidadão sobre a cidade em que vive.


Com a chegada de quase 180 integradores culturais ao programa, o Cidade Escola começa, a partir de agora, ganhar “corpo” cada vez maior a cada novo dia. As reportagens do blog Cidade Escola buscam revelar diversos aspectos de sua execução prática. Estamos conhecendo a vida dos que fazem acontecer o programa como coordenadores, educadores, integradores culturais, em seus diversos núcleos, mas, principalmente, revelando os resultados alcançados por essas práticas e teorias com o maior beneficiado por todas as atividades e ações: o cidadão alfenense.


O programa Cidade Escola vai além das teorias educacionais, porque sua proposta é a da convivência com troca de aprendizado, no restante do tempo da educação formal. Não se trata de um projeto educacional. É um projeto da cidade, que ensina, aprende e respeita. Se há um lema que poderia definir o Cidade Escola ele seria o de “Escola da Vida”, mas escola no sentido de ensinar e aprender e, não apenas da formalidade intramuros, com regras e compromissos. Como bem definiu o prefeito Luizinho. “O Cidade Escola provoca, porque ele mistura tudo. Tem o menino que é deficiente, o hipertenso, o adulto, jovem, o velho, o menino rebelde, que está fora da escola. Isso é misturar, trocar saberes, mas, sobretudo, a provocação da sensibilidade, ou seja, você é provocado para poder ter sensibilidade”.


As dezenas de atividades, esportivas e culturais, além dos shows e eventos, já apresentados até aqui, comprovam a teoria de quem pensou o Cidade Escola. 

“O que já fizemos, demonstra que o caminho está certo, até porque, isso é científico. O ser humano viveu 7 milhões de anos dessa forma, está em nosso DNA. Não estou inventando a história. Estou pegando o que deu certo. Vivemos caminhantes, desde que descemos das árvores, em pequenos grupos. Isso é história, pequenos grupos de 150 pessoas, caminhando, onde todo mundo se integrava (...). A espécie humana não tem controle. 99% do nosso DNA é de liberdade”, garante o prefeito Luizinho.









E o blog do Cidade Escola continuará a revelar as várias faces deste programa inovador. E, apenas como curiosidade, o blog do Cidade Escola revela o ranking das 10 reportagens mais visualizadas até agora (27/06/2017). Para você, que ainda não conhece o programa e suas histórias, vivências, aproveite.






1º - Residencial Alfenas, lugar de gente feliz                              2.768 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/ela-se-chama-rosemar-cristiane-rosa-ou.html
2º - Esperança e Vida em Gaspar Lopes                                    1.882 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/cidade-escola-esperanca-e-vida-em.html
3º - É bom sonhar                                                                       1.685 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/cidade-escola-e-bom-sonhar.html
4º - O trio BBB de Alfenas                                                          1.531 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/cidade-escola-o-trio-bbb-de-alfenas.html
5º - Barranco Alto, um núcleo especial                                      1.211 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/04/cidade-escola-barranco-alto-um-nucleo.html
6º - “Camburão”, uma vida sobre os tatames                             1.201 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/05/cidade-escola-camburao-uma-vida-sobre.html
7º - Luizinho e as origens do programa                                      1.132 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/cidade-escola-luizinho-e-as-origens-do.html
8º - Uma Casa Aquarela na Chapada                                           994 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/cidade-escola-uma-casa-aquarela-na.html
9º - Valorizando Vidas                                                                   802 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/04/cidade-escola-valorizando-vidas.html
10º - Promessa, novos tempos                                                     709 http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/cidade-escola-promessa-novos-tempos.html



terça-feira, 20 de junho de 2017

Cidade Escola: Chapada, onde tudo começou


Faz pouquíssimo tempo, mas para os mais esquecidos, o Programa Cidade Escola foi lançado oficialmente em 3 de fevereiro, com a assinatura de um decreto. E justamente o lugar escolhido para o evento, o Complexo Esportivo da Chapada, deixava claro à toda população alfenense, um dos principais fundamentos do Cidade Escola: quebrar preconceitos.


Sim, porque quem é da Chapada, convive com o estigma de bairro perigoso. A festa de inauguração, naquela sexta-feira de fevereiro, acabou definitivamente, com qualquer dúvida sobre a segurança do lugar. 

Um dia inteiro de shows, culminando com a apresentação da banda Detonautas, levou à Chapada milhares de pessoas de todos os cantos da cidade. Nenhuma ocorrência policial, clima de paz e harmonia, foi tudo que se viu.




Desde então, o Complexo Esportivo da Chapada, com sua quadra, seu campo de futebol e sua área de lazer, foi “ocupado” como nunca antes havia ocorrido na longa história deste bairro tradicional. Se o lugar ficou conhecido pelas práticas de futsal e futebol de campo, agora, centenas de crianças, jovens e adultos começam a praticar diversos outros tipos de atividades como tênis de mesa, zumba, yoga, horta comunitária, capoeira, e, em breve, duas novidades, uma delas, karatê. “Buscamos o que a comunidade quer e gosta de fazer. Devemos colocar em breve, também, o basquete de rua”, afirma o coordenador do Complexo, Carlos Henrique Correa.


Prof. Carlos Henrique, o Iti.
Opa, mas lembre-se de que se aparecer um dia por lá, nem adianta perguntar por este nome, pois é quase certo que ninguém saberá de quem se trata. Agora, se procurar pelo Iti, todos vão saber. A história do Complexo Esportivo da Chapada não seria a mesma sem o trabalho do professor Iti, apaixonado por tudo que há na Chapada. Quase toda a família nasceu e cresceu nas ruas do bairro. O avô, Benedito Correa, era ferrador de cavalos, mandava gado de um estado para outro, no berrante, indo e vindo com a tropa.

Iti mudou-se para o Jardim Nova América quando tinha 12 anos, mas nunca deixou de frequentar a Chapada sempre. O preconceito que muitos carregam sobre o bairro, o incomoda. “Existe um bloqueio em relação ao nome Chapada. Quando você fala Chapada, todo mundo assusta. Professores que dão aula no Complexo, e que nunca haviam pisado no bairro, se apaixonaram pelo lugar. Pessoal aqui é hospitaleiro. A vantagem daqui é que a comunidade não tem tantas vaidades, são pessoas humildes, honestas, simples”, garante Iti.


Com apenas 35 anos de idade, Iti se preparou para abraçar a responsabilidade de coordenar o Complexo Esportivo da Chapada. Formou-se em 2004, na Escola de Educação Física de Muzambinho (Esefm), tem pós-graduação em Educação Física Escolar e está cursando Gestão e Direção escolar. E já se prepara para novos desafios, pois também faz curso sobre Educação Física Especial (portadores de necessidades especiais).

Apesar de ter se preparado para fazer o que faz, o que o levou a optar pelo trabalho no Complexo da Chapada vai muito além do trabalho como educador. Há alguns anos, após passar em concurso público, não pensou duas vezes. “Tinha condição de ser efetivado, aumentar número de aulas, no Coronel José Bento, mas me efetivei na Escola Arlindo Silveira Filho, que fica aqui na Chapada. Larguei o centro, onde tinha acesso melhor, meus filhos estudam por lá, seria menos trabalho para mim, levar e buscar. Mas eu quis aqui. Minha vida é isso aqui. E aos poucos estamos mudando a realidade do bairro, alguma coisa de diferente tinha de ser feito. E a comunidade vem abraçando isso”.


Iti não diz tudo isso da “boca para fora”. Vive um caso de amor com a comunidade que utiliza o Complexo da Chapada. “Gosto mais daqui do que da minha casa. É um caso de amor. E eu sou ciumento. Não gosto que sujem, baguncem. O princípio de tudo é organização e planejamento. Chamar o jovem, perguntar do que gosta, como será, trazer para nós. E, muitas vezes, delegar responsabilidades. E eles estão adorando se apoderarem disso tudo. Sentem-se importantes, valorizados, ensinando algo para outro amigo menor do que ele. Tenho certeza que em dois anos isso tudo aqui estará ‘voando’”.


E não foi nada fácil chegar até aqui. Pai jovem, aos 16 anos, teve de ir à luta, trabalhar para sustentar a filha. E por muito pouco, ele deixaria de ver as transformações que a Chapada vem passando. “Fui trabalhar na Vidro Minas, fiquei 5 anos. Cortei o braço, tive duas paradas cardíacas. Com 18 anos estava na Santa Casa de Belo Horizonte, perdendo sangue e enfartando. Não tinha sensibilidade no braço, o médico disse que não iria movimentar mais. Mas hoje já consigo movimentar, a sensibilidade está voltando com o tempo”.




O braço perdeu a sensibilidade, mas o coração, nunca. Iti faz de tudo pela comunidade. Foi atrás de doações de computadores e videogames e montou no antigo vestiário do Complexo Esportivo, uma sala onde, atualmente, centenas de jovens tem acesso à internet. 

E continua se doando para a comunidade, mesmo em área que não seja de sua formação profissional. “Tem um senhorzinho que mora aqui perto, que eu saía daqui para fazer a barba e o cabelo dele. Cheguei a cortar, aqui, no Complexo, 15 cabelos por dia”.








Iti não para. Além das aulas que dá como professor de Educação Física na Escola Arlindo Silveira Filho e do trabalho como coordenador do Complexo Esportivo, dentro das atividades do Cidade Escola, ele também é técnico de futebol do Chapadão, uma das equipes do bairro. 

Viajou para diversas cidades mineiras, conquistando títulos, como o mais recente, de tricampeão regional entre 2014 e 2016.



O bairro da Chapada respira futebol, literalmente. O campo, parte do Complexo Esportivo, tornou-se ponto de encontro de milhares de pessoas do bairro e de toda a cidade. 

É ali que se fez muitas amizades, adversários de equipes que se formaram ao longo de várias décadas, como o América, Grêmio, Vila Nova, Chapadense, Grêmio, Santos e muitos outros.



Muitos jogos e campeonatos já foram disputados no campo da Chapada, desde que o Complexo Esportivo foi inaugurado, em 1988. E de lá, muitos talentos também foram revelados para o futebol brasileiro e mundial, como David Saconi e Luiz Fernando, que jogaram no Palmeiras; Roni, que disputou a Champions League pela Roma; Cacá, lateral direito do Santo Cruz e Alício Julião, do Atlético Mineiro. A lista seria imensa, pois o campo da Chapada tem muita história para contar. Tempos em que o campo ainda era de terra, sem cercas.

Histórias que começam no ano de 1929, quando o campo começou a ser construído (e ampliado em 1940), em outro lugar do bairro (atual supermercado Néder), por um grupo de amigos e moradores da Chapada, na base do enxadão, picareta, pás e carrinhos de mão.


Nelson Martins, agachado (1º a direita)
Esforço coletivo, mas que se perpetuou por várias décadas, pelo trabalho especial de dois homens em uma das equipes mais tradicionais do bairro: o Atlético da Chapada. Primeiro, com Zé Netinho, no início da década de 1950, e, principalmente, com Nelson Martins, que assumiu o comando da equipe na década de 1960. Muito mais do que ser o “dono” do Atlético da Chapada, Nelson Martins é o responsável por hoje o campo da Chapada existir. Tudo porque, em meados da década de 1970, o campo de terra teria de sair de onde estava (atual supermercado Néder) para outro local. E Nelson não arredou pé do lugar, enquanto outro não fosse arrumado pela administração pública. Depois de procurar vários terrenos, o escolhido foi onde hoje está o atual campo de futebol no Complexo da Chapada.

Nelson, assim como Iti, atual coordenador do campo e do Complexo Esportivo da Chapada, cuidava do campo com muito amor, pois quem o viu sempre por ali, sabia dos ciúmes que tinha pelo lugar. Mesmo no início, com o campo sendo de terra e aberto, sem grades, ele não permitia a entrada de nada no local, nem carros ou bicicletas.


Infelizmente, Nelson Martins deixou os campos e os estádios de futebol. Perdeu a visão, que poderia lhe permitir ver o campo da Chapada iluminado, com refletores. Não viu, mas, com certeza, ficou feliz ao saber da disputa recente do primeiro campeonato noturno, batizado de “Corujão”. E como o campo da Chapada parece ser coordenado sempre por apaixonados pelo lugar, Iti, o atual, comemora. “Muita, mas muita gente mesmo, participou. Jogando ou assistindo. Isso nunca aconteceu antes. Algumas equipes não se inscreveram por preconceito, e, hoje, os jogos do campeonato municipal são feitos aqui e na Vila Formosa. Agora, estão vindo aqui e mudando essa concepção do preconceito contra o bairro”.

Iti está ainda mais feliz e esperançoso com o campo da Chapada porque em breve começará a funcionar no local, aulas de futebol para crianças e jovens entre 4 e 17 anos.


Nelson Martins, Iti, Zé Netinho e tantos outros apaixonados pelo bairro da Chapada talvez não saibam, mas onde funciona o atual Complexo Esportivo era uma área pertencente a Estrada de Ferro. Os trens saíam da estação, onde é o campo e faziam manobras neste exato local. 

O campo também marca a divisão entre os bairros da Chapada e de Santa Luzia, mas tudo, ali, parece ser uma comunidade só. Os trilhos de trem que atravessavam a avenida Lincoln Westin também não existem mais, mas, o lugar nunca deixou de ser um ponto de encontro.


Agora, a realidade do Complexo Esportivo da Chapada é completamente outra. 

Atividades diárias, do Cidade Escola, campo de futebol aberto à toda comunidade, às terças-feiras à noite. “Vem gente de todos os bairros. Fazemos um rachão. Terminado o jogo, ficamos ali, conversando com os mais velhos, lembrando histórias daqui, do bairro, dos times, da vida”, fala com emoção Iti.





Entre o passado e o presente, o coordenador do Complexo Esportivo da Chapada tem uma certeza sobre o futuro. “Antes das atividades, os garotos viviam se atracando aqui, entre eles. Agora, isso acabou. O diálogo aqui é constante. Já demos um passo bem grande em relação ao que era e no que está se transformando. Mudou mil por cento”.

E mudará, muito mais. É o que a comunidade da Chapada quer e terá.






























quinta-feira, 8 de junho de 2017

Cidade Escola: Até breve, Índio Cachoeira


Existe entre os vários princípios do programa Cidade Escola um que a população de Alfenas, aos poucos, descobrirá. Por estar apenas começando, muitos acreditam tratar-se, apenas, de um programa de educação nas escolas para propiciar diversas atividades a jovens e adultos. Não é só isso. Cidade Escola é a Escola da Vida, e da própria cidade, com histórias de seus lugares e sua gente que deve ser conhecida por todos. É criar entre as comunidades o sentimento de pertencimento a algum lugar e à vida.

E é dentro deste olhar, de pertencimento à vida que o blog do Cidade Escola vai se debruçar, a partir da história de um de seus ilustres moradores. A razão disso? Uma homenagem, simples, para quem está há pouco tempo por aqui e em breve estará de partida.


Você conhece José Pereira de Souza? Com certeza, não. Mas, e Índio Cachoeira? Sim, o maior violeiro do Brasil vive em Alfenas há aproximadamente sete anos, mas deixará saudades. A busca, aqui, não é revelar sua discografia de sucessos da música sertaneja de raiz, mas entender como se transformou nessa lenda viva da viola e como (e porquê) veio parar por essas terras no sul de Minas Gerais.

É uma longa viagem, como tem sido a vida de Índio Cachoeira pela vida, pelo Brasil. Se digitarmos no Google seu nome, encontraremos milhares de artigos resumindo uma vida de sucesso, mas, em nenhum deles, como tudo isso aconteceu.


Cachoeira é um apelido que ele carrega desde pequeno, da cidade onde nasceu, Junqueirópolis, no extremo oeste do Estado de São Paulo, quase divisa com o Estado de Mato Grosso do Sul. Índio, vem de seus antepassados, bisavós e avós, que eram da etnia Pataxós, da Bahia.

Nasceu no dia 27 de junho de 1952, apenas quatro anos depois do pequeno vilarejo se transformar oficialmente em município. Quis o destino que, o lugar em que veio ao mundo, fosse terra de índios expulsos da região, pela colonização dos brancos. Os pais eram lavradores, trabalhavam de sol a sol para manter a família.

Foi ali que Cachoeira ouviu pela primeira vez, nas pequenas ruas da cidade, as primeiras modas tocadas e cantadas por velhos violeiros. De lá, partiu bem pequeno, rumo a Marília, há 180 km de distância, onde também tinha parentes. Cansados do trabalho no campo, os pais decidiram mudar para São Paulo.

Começava, assim, a carreira do futuro luthier. Sim, Índio Cachoeira não só toca e canta, como também fabrica violas, violões, rabecas, harpas. Mas foi um longo e duro caminho até chegar a esse estágio de vida. “O pai arrumou trabalho de pedreiro. A mãe cuidava dos filhos. Tenho 11 irmãos. Morava no Tucuruvi, Parque Vitória, Zona Norte de São Paulo. O primeiro emprego que arrumei foi na Vila Mazzei, na marcenaria do seu Orlando. Cheguei no portão e ele ficou olhando para mim e perguntou: ‘o que você deseja? ’. Eu disse: ‘quero trabalhar’. E ele: ‘e sabe trabalhar com o quê? ’. Respondi: ‘o que o senhor me arrumar, eu quero’. ‘Quantos anos você tem? ’, ele me perguntou. ‘Vou completar 11’. Passou a me ensinar tudo na marcenaria. Só não pegava nas máquinas, porque ainda era pequeno. Ficava ali, ajudando a limpar as coisas, até que um dia ele me perguntou se gostaria de aprender a montar cadeiras, mesas. Respondi a ele: ‘se o senhor me ensinar, vou agradecer bastante’. Ganhava um dinheirinho que dava para ajudar em casa. Comecei a riscar cadeira, montar cadeiras”, recorda Índio Cachoeira.


Se a carreira na marcenaria começou por acaso, a paixão pelas violas surgiu com a descoberta do primeiro instrumento, pouco antes do primeiro emprego como marceneiro. Inquieto, não gostava de ficar parado, passou, então, a juntar coisas velhas em casa, para vender ao carroceiro de ferro-velho que sempre comprava alguma coisa. Até que um dia, a primeira viola apareceu. “Eu tinha uma vontade de ter uma viola, quando comecei a pegar essas coisas na rua para vender para o ferro-velho, vi que numa beirada jogavam madeiramento velho. Olhei para um lado, olhei para o outro e me perguntei: ‘será que é um violão, aquilo’? A caixa e o braço, separados. Aí chegou outra carroça que ia descarregar mais entulho por cima dela. Foi quando gritei: ‘opa, pera um pouquinho’. Peguei o violão, arrumei um saco de estopa e coloquei tudo dentro. Levei para casa, joguei dentro de um tambor de água. Descolou tudo. Medi, risquei tudo num papel. Veja que ideia a minha, não sabia nada disso sobre madeiras. Deixei na sombra secando, porque sabia que no sol iria rachar tudo. Quando secou, fui anotando medidas de tudo. Depois, me deu na telha de querer montar ele de novo. E tocou bem”.


A carreira de Índio Cachoeira, na marcenaria, estava apenas começando. Com os conhecimentos adquiridos no primeiro emprego, passou a trabalhar em casa, sem maquinários especializados, só fazendo pequenos reparos de móveis quebrados. Mas não ficou muito tempo, porque as grandes marcenarias o esperavam. Ficou seis anos na do Sr. Celso Silva, depois, com o paraguaio, Sr. Clemente. Trabalhou por empreitada, para um dos maiores atacadistas de móveis de São Paulo, nas Lojas Pirani. “Nem sabia o que era empreitada, mas topei na hora, porque tudo que entrasse de serviço, era receber meio a meio com ele. Trabalhava dia e noite. Depois fui trabalhar com o Sr. Juan Borja, um espanhol, na Vila Sonia. Minha vida foi trabalhar com marcenaria, vivia arrancando as pontas dos dedos, nas máquinas”, lembra Cachoeira.

Cantar e tocar, até os 17 anos, não passava de brincadeira para Índio Cachoeira. O primeiro contato com a música foi em Marília, quando visitava os tios. Foi lá que assistiu ao show da dupla Sulino e Marrueiro, em um circo que estava na cidade. Era autodidata. Escapava de casa para ver duplas caipiras tocarem. Cantar e tocar, só em bares, botecos e festas de amigos. “Ficava sem comer comida, mas sem viola, não. Um dia cismei de arrumar uma viola boa. Arrumei, mas não deixei a primeira para ninguém, ficou em casa”.


O sonho de Índio Cachoeira começou a crescer, e, naquele momento, queria gravar um disco. Já havia se mudado para a cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo. O irmão, Agenor, era radialista, locutor da Rádio Líder de Guarulhos. Até que um dia, tocando sozinho, fez um fundo musical para a rádio. Foi quando conheceu seu primeiro parceiro, a primeira dupla em sua longa carreira. “Acabei conhecendo o Ditinho, ele me ensinou a cantar. Eu não sabia o que era cantar, o que era 1ª, o que era 2ª, 3ª, 4ª, 5ª voz, dueto, 6ª voz. Aprendi depois de uns tempos. Ele me viu tocar a viola e perguntou: ‘ô, caboclinho, você toca viola bem, vamos fazer uma dupla? ’. Respondi que sim, e perguntei: ‘mas vamos cantar o quê? ’. Ele respondeu: ‘o que vier na telha’. Ele começou a fazer a segunda voz, não tinha muita força, fôlego. E eu fazendo a primeira. Mas nem sabia que estava fazendo a primeira, ele quem me explicou. A dele era mais grave. Eu era muito jovem, tinha a voz mais fina, grave. Só depois dos 22 anos é que comecei a fazer a segunda voz. Eu tinha a primeira normal, mas não tinha ‘aço’, mais grave, para cima”.


Começava ali, uma série de perdas de parceiros. O primeiro, Ditinho, morreu. Depois, veio uma longa parceria: Cascata e Cachoeira. Cantaram e tocaram por quase 10 anos juntos, sem nunca gravarem um disco. Tudo registrado só em fitas cassetes. “Tocávamos só em festa de colegas, bares, recantos de violeiros, só para dizer que cantava, não ganhávamos nada. Ficava contente só de comer churrasco, arrumar namorada. Ficar naquele vai e vem. Viajamos para Joanópolis, Atibaia, Perdões, onde era o foco das violas por ali”.

Cascata também morreu e Índio Cachoeira estava sozinho novamente. Montou nova dupla, com Tião do Gado. Gravaram um disco, mas não ficaram muito tempo juntos. Até que veio o convite de outra dupla, Cacique e Pajé. “Pajezinho estava doente, não podia cantar mais, e a gravadora sabia da minha voz. Fui cantar como Pajé, para ajudar o Cacique, e o negócio pegou”.


Mais sucesso, e nova separação. Outra dupla se formava, desta vez, com um velho amigo: Cachoeira e Cuitelinho. “Ele morava no bairro Bonsucesso, próximo a Guarulhos. Parei com marcenaria, topava tudo. Fui para a estrada, ser caminhoneiro. Depois, motorista de ônibus, na empresa Penha São Miguel. Depois, trabalhei em uma empresa de ônibus escolar e foi aí que conheci o Cuitelinho, que também trabalhava lá”.

Com Cuitelinho foram anos de sucesso. Mas, novamente, Cachoeira perdia mais um parceiro. “Ele teve um tumor no cérebro. Foi triste. Até nos últimos dias de vida dele, cantamos juntos, em casa. A esposa dele pedia para ‘não forçar’ muito, porque ele não podia. E ele respondeu para ela: ‘Não tem problema, se tiver que morrer cantando, morro cantando’. E cantou. Dentro da casa dele. Dali uns dias, morreu”, relembra emocionado Índio Cachoeira.


Nesta altura da carreira, Índio Cachoeira já era nome conhecido no cenário nacional, apresentando-se de norte a sul do país e sempre aparecendo nos programas mais tradicionais da música sertaneja de raiz em rádios e canais de tevês. Mas a palavra “sucesso” para ele, tem outro significado. “Nunca liguei para o sucesso financeiro. Eu queria cantar. Se tivesse dinheiro, tudo bem. Eu não quero riqueza, quero um cantinho para ficar, um salarinho por mês para ficar numa boa. Se ficar rico, você fica ‘perseguido’. A única coisa que persigo é a minha saúde”.

E foi exatamente por nunca se preocupar com dinheiro que Índio Cachoeira acabou vindo morar em Alfenas. Já havia conhecido a cidade em um show que fizera com o parceiro Cuitelinho. Mas, dessa vez, a razão era a dificuldade financeira pela qual passava. Morava em Guarulhos, num canto sozinho, emprestado por amigos, até que o irmão Antonio, o mais querido por ele, resolveu ajudar.


Casa de Índio Cachoeira, em Alfenas, MG.
Tonico, como Cachoeira o tratava, comprou uma ‘casinha’, bem simples, no bairro Jardim Alvorada, para utilizar quando se aposentasse, mas quando soube da situação do irmão, não pensou duas vezes. Pediu ao irmão em dificuldades para morar na casa, pagando só água e luz. Mas, aí, novamente, outra perda na vida de Cachoeira. “Depois de um mês que estava morando aqui, meu irmão veio para cá me ver. Ele era muito cuidadoso com a gente. Nos cumprimentamos, mas percebi algo estranho com a saúde dele. Insisti para não voltar naquele dia para Guarulhos. Mas ele voltou. Chegando lá, pediu um remédio para pressão para a vizinha, porque já era tarde da noite e não havia farmácia aberta. Não tinha. Foi para casa, deitou, dormiu e morreu”, lembra, com lágrimas nos olhos, Índio Cachoeira.


Para quem veio para cá, para recomeçar a vida, um “baque” como este era enorme. Por isso, Índio Cachoeira passou um bom tempo sem ninguém saber que vivia por essas terras. A tristeza era grande. Não queria mais compor, tocar ou cantar. “Não é um isolamento. Queria descansar no meu canto. Respeitar o que o meu irmão fez para mim. De ter lembrado e cuidado de mim, ter dado esse canto para eu morar. Me ajudou a comprar também um terreninho que tenho aqui perto. Cheguei a dar uma viola para ele, mas devolveu dizendo: ‘o que vou fazer com isso, não sei tocar, fica com ela, cuida dela pra mim’, como se tivesse me dizendo: ‘pra onde vou, não levo’. É fogo”.


E foi a partir desta recordação que Índio Cachoeira repensou a decisão de se isolar do mundo, das violas, da música, da vida. Nos fundos da casinha dada pelo irmão existem dois quartinhos. E ali Índio Cachoeira decidiu retomar a vida de marceneiro, só que desta vez, construindo o que mais sabe fazer (e tocar) na vida: violas e violões.

Tudo é feito artesanalmente. O maquinário todo foi criado com a experiência nos vários anos como marceneiro, em São Paulo. As máquinas principais são feitas sem a utilização de energia elétrica. Índio criou máquinas a partir de outra grande paixão: bicicletas. 


Ele pedala enquanto a madeira, presa a uma base, começa a receber os contornos por intermédio da ponta de uma ferramenta. 

E foi assim que Índio passou a ser mais visto pelas ruas da cidade, pedalando suas magrelas, uma delas, com volante de carro, e as violas penduradas na parte de trás. O carro, um Fiat velho, nunca saiu da garagem.



Deste sistema artesanal saem obras-primas, milimétricamente desenhadas, para ganhar mundo com seus sons. 

Cachoeira tem um pequeno estoque, pendurado e espalhado pelos cômodos, para o caso de alguém chegar e querer comprar ou montar o instrumento a seu gosto.

E assim, pouco a pouco, sem intenção comercial, que Índio Cachoeira começou a sair do isolamento. 


Fez amigos pela região do Pinheirinho. Começou a tocar e a cantar, em rodas de poucos privilegiados, até decidir voltar para a estrada, aceitando novamente convites para shows pelo Brasil. Mais do que isso. 




DVD de Índio Cachoeira
Em 2012, com a parceria do produtor musical, Ricardo Vignini, fez apresentações na França. Pouco antes, em 2009, o mesmo Vignini dirigiu o primeiro DVD de Índio Cachoeira, retratando sua trajetória de quase 40 anos na música sertaneja de raiz. No início deste ano, no segundo show promovido pelo Cidade Escola, cantou e tocou para milhares de pessoas na Praça do Pinheirinho.

Índio Cachoeira está de volta, para a música, para a vida que o consagrou. Trabalho duro, diário, único. “Componho música todo dia. Elas chegam mais a noite. Nos sonhos já descobri muitas letras. Vem os alertas. A viola está dentro do meu coração. Algumas coisas fazem ela sair aqui de dentro, em melodia, versos falados e cantados. A melodia boa, fora da noite, é quando você está fora de casa, sem ninguém, vendo riachos, cachorros correndo no campo, um cavalo correndo, ali sai música boa. Ver uma casinha na beira do rio, sem ninguém, só olhando a porta aberta, porque o dono tá na roça trabalhando. Ali, começo a matutar e vai saindo um verso atrás do outro. Tudo que já criei foi inspirado na visão da natureza”.


O altar de São Gonçalo, na casa de Índio Cachoeira.
E tudo pelo que passou na vida, segundo Índio Cachoeira, se deve a sua fé e devoção por um santo. “São Gonçalo não é brasileiro, é um santo padroeiro português. Nós nos descobrimos, demos de cara um com o outro. Nasceu na cidade de Amarante. Ele tomava conta das mulheres, não gostava de vê-las se prostituir. Conversava com elas, dizia que iria tocar para elas esquecerem daquela vida. Tocava até dormirem. Foi o protetor das prostitutas. E protetor dos violeiros, porque pelas músicas, ele conseguia dominar a cabeça de uma pessoa para sair fora do mal. Conheci ele quando ainda era pequeno, com os velhos falando”.


E nunca mais Índio Cachoeira deixou de acreditar na proteção de São Gonçalo. “Nos shows, tenho sempre ele e um pouco de rapé dentro da viola. Com a entrada no mundo da música, comecei a ter fé nele. Fiz um compromisso com ele: ‘se o senhor puder me ajudar, como ajuda os outros, você me ajuda arrumar uma dupla pra ‘nóis’ cantar. De vez em quando vou cantar pro senhor. Parece que veio um aviso no sonho, que era pra eu cantar mesmo. Fiz até uma modinha pra ele, que vou cantar com o Santarém (meu novo parceiro). Nunca tinha gravado. Agora que me deu ‘na telha’ de gravar. Ela tava na minha casa, desde sempre”.


E a proteção de São Gonçalo não serve só para ele. Índio Cachoeira tem um ritual com as violas que faz nos fundos de sua casa em Alfenas. Para ele, todo instrumento que cria é tratado como um filho que vai para o mundo. 

“Toda viola que faço, quando vai embora, para as mãos de outros, não sai daqui sem antes eu falar com São Gonçalo. Digo assim pra ele: ‘cuida da minha filha, na mão dos outros. Faz ela fazer os outros ficar contente. Não deixa ninguém estragar ela, por favor’. Vai benzida, três orações”.

Em breve, quem irá embora, para outras terras, é Índio Cachoeira. São Gonçalo estará com ele. Promete sempre voltar, para a terra que o acolheu e o fez sentir bem nestes últimos anos. Com vários shows agendados, preferiu se mudar para mais próximo de São Paulo. Índio Cachoeira será sempre lembrado por Alfenas, que lhe agradece por tudo que deixou, amigos e conhecimento.



O gesto é simples, mas Alfenas deixou, no sábado (3/6), sua imagem eternizada, nas paredes da rampa de acesso do Restaurante Popular. Obra feita por artistas do Cidade Escola.

É mais do que justo, como garantem simples admiradores ou especialistas. “Índio Cachoeira é mais que um instrumentista: é alguém que incorpora o ‘espírito’ da viola em si, que agrega o sentimento singelo do matuto (não aquele estereotipado dos programas humorísticos ou novelas de televisão, mas do personagem que permaneceu esquecido e intocado por séculos, forjando em torno de si uma cultura pura e genuína) à aplicação de soberba técnica que valeriam anos de cátedra universitária”, escreveu um dia o admirador Joca de Jaciporã. (http://www.sertaopaulistano.com.br/2012/09/o-maior-violeiro-do-brasil.html)


Ou ainda, como deixou registrado em carta, o consagrado violeiro brasileiro, Ivan Vilela, que também é compositor, arranjador, pesquisador e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. “Sua música renovou minhas esperanças, encheu de novos sons o meu espírito e me trouxe alegria. Por isso tudo e por tudo mais que o senhor tocará com suas mágicas mãos, eu lhe agradeço. De coração. Que Deus o abençoe e ilumine sempre”.

Vá com Deus, Índio Cachoeira. Alfenas sempre agradecerá.

Vídeos para se ver e ouvir Índio Cachoeira
https://www.youtube.com/watch?v=GRZcmE0B6B8 (trechos do DVD “Um violeiro nato”)
https://www.youtube.com/watch?v=R70GQmOBPCU (música Prelúdio dos Pássaros)
https://www.youtube.com/watch?v=obNShRLfUxQ (trecho documentário TV Cultura, mostrando a casa onde vive em Alfenas e sua oficina de viola e violões)
https://www.youtube.com/watch?v=887jz1_rCqY (Índio Cachoeira e Cuitelinho)
https://www.youtube.com/watch?v=7_yMGFRrSHg (Índio Cachoeira na França)
https://www.youtube.com/watch?v=bnu8c_sVvl8 (música “A viola está com ciúmes”)










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