quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cidade Escola e Move Dance: parceria do bem viver


A sigla Caensa é a abreviatura de um lugar que muitos já ouviram falar em Alfenas, mas poucos sabem responder qual é o seu significado.

Caensa é um dos núcleos do programa Cidade Escola localizado no bairro Aparecida, com atividades ao lado do PSF do bairro, numa pequena rua estreita chamada Travessa Dom Silvério e também na sede da Move Dance Brasil, bem pertinho dali, na Rua João Pinheiro, 581. 


Há meses o bairro voltou a ter vida, lazer, cultura, atividades para todas as idades como zumba, karatê, futsal, artesanato em E.V.A, teatro, flauta, xadrez, dança, após várias décadas de descaso de antigas administrações públicas com a comunidade.





Mais recentemente, três parcerias importantes aumentaram ainda mais o número de participantes das atividades. A primeira, com a escola mais tradicional do bairro Aparecida, a Escola Estadual Professor Viana, em que a partir de agora 150 alunos do colégio vão poder realizar as atividades do Cidade Escola no contraturno escolar em uma casa alugada bem próxima dali.

A segunda parceria, com a universidade mais tradicional da cidade, a Unifal, na qual toda a comunidade, incluindo alunos, professores e funcionários terão diversas atividades na quadra poliesportiva do local.


E a terceira, e mais importante, é com a Move Dance, uma Companhia de Dança que mudou completamente a história de vida do bairro e de toda a comunidade local por conta de sua trajetória nos últimos 20 anos na cidade. Mas, para entender a importância que passaram a ter é preciso voltar no tempo, nas origens do bairro Aparecida e do próprio Caensa.





Aparecida é um dos bairros mais antigos de Alfenas e leva esse nome por causa da igreja de Nossa Senhora Aparecida, construída na década de 1950. Bem antes desta data, porém, Aparecida já era famosa por causa de uma “igrejinha”, assim chamada por ser muito pequena, acanhada, ainda assim uma referência geográfica para todos na cidade.





A imponente igreja do bairro foi erguida com a ajuda e o suor de muitos e de uma figura em especial. Seu nome é José Alexandre da Costa, que ficou famoso pelo apelido de Juca Borges. Era descendente dos Martins Alfenas, fundadores da cidade. Herdou imensas áreas de terras, ali, em quase todo o entorno da Igreja de Nossa Senhora Aparecida e que se prolongavam até o bairro do Pinheirinho. Foi pioneiro também no comércio atacadista, plantador de algodão e ainda proprietário do primeiro posto de gasolina da cidade, Texaco.


E foi por conta da doação de parte de suas terras que surgiu a nova igreja de Nossa Senhora Aparecida. Não só da doação, mas também do empenho em sua construção, durante vários anos. 

E o bairro foi crescendo, com o aumento da população, mas sempre com imensas áreas de terras, fazendas, plantações de café e lavouras. Geograficamente, a parte de cima do bairro, mais próxima ao centro, seria a das melhores casas, famílias com maior poder aquisitivo, enquanto a parte debaixo, mais próxima ao Caensa, do cemitério, a das pessoas mais simples, humildes, pobres.








Gente como dona Isaura, 80 anos de vida, metade deles vividos na mesma casa na rua Maciel Junior, número 495. Mesma casa é modo de dizer, porque quando chegou por ali a vida era bem diferente. Da sua janela, ela viu o bairro crescer. “Quando comprei aqui era uma ‘taperinha’ (casa simples feitas de barro e madeira), tudo terra. 




O Pinheirinho, ali, era tudo café, aqui, também. ‘Panhei’ café muitos anos. Tinha poucas casas, dava para contar nos dedos. Criei a família nesta casinha, seis filhos. Tinha fogão a lenha, era difícil demais, não tinha luz, água, muita dificuldade. Levei anos pra deixar ela assim. Comércio quase não existia. O bairro cresceu muito nos últimos 20 anos”.





Dona Isaura é vizinha de outro morador muito antigo no bairro, o seu Zé, o dono do bar e a sua família que estão ali desde 1963, ano em que chegaram a Alfenas vindos de Conceição de Aparecida. O pequeno comércio vendia de tudo um pouco, alimentos a granel pesados nas balanças. 







O bar do seu Zé,
esquinas das ruas Marcial Junior e Carlos Chagas
Seu Zé assumiu o bar de casa centenária na década de 1980 e viu de perto o cenário do bairro mudar porque quando chegou era tudo bem diferente. “Fui motorista da Santa Cruz durante vários anos. Em 1987 assumi o bar, antes, o pai tocava, a família toda, irmãos, somos sete. Aqui, para baixo, era tudo pasto e uma lavoura de café”.






E, afinal, qual a razão do núcleo do Cidade Escola ser chamado de “Caensa”? Porque Caensa, ou melhor, o Centro de Atividades Educacionais Nossa Senhora Aparecida, fundado em 12 de outubro de 1996, passou a ser uma referência geográfica de Aparecida, quando o bairro começou a crescer.

Hoje, no local, funciona a Emei Prof. José Eduardo de Oliveira Prado (alunos da pré-escola de 4 e 5 anos), também conhecida por Raios de Sol. Um lugar que foi criado para ser uma creche, e que, na verdade, nunca funcionou como tal. Quem confirma é a professora Alessandra dos Santos, a primeira a cuidar das crianças do bairro e que continua lá até hoje. 










Alessandra dos Santos, a primeira professora do Caensa.
“Construíram esse prédio, mas ele ficou parado uns tempos após ser inaugurado. Estou há 17 anos aqui. Tínhamos duas salas de pré no Professor Viana e precisávamos de mais uma, só que lá não tinha lugar, espaço físico. Aí vim para cá, fiquei praticamente dois anos sozinha, cuidando de 30 crianças. Aqui nunca foi utilizado como creche pelo município, quem utilizou o prédio, no início, emprestado, foi a creche que existia na Vila Betânia e que pertencia à Maçonaria. Depois que acabaram a reforma deles, voltaram para lá. Foi quando trouxeram crianças da pré-escola do Professor Viana, do Coronel (3 turmas) e do Levino Lambert (2 turmas)”.


Professora Alessandra e a turma que viu crescer.
E Alessandra viu diversas gerações de crianças passarem pelo Caensa, desde os tempos em que a “creche” era chamada de Pequenos Brilhantes. E, agora, remexendo os álbuns de antigas turmas, ela se emociona ao ver uma delas. “Vi diversas gerações crescerem aqui, gente que está fazendo Odontologia, Medicina, Direito, meninas que foram ser nutricionistas, meninas e meninos que já viraram pais e mães, bailarina, algumas até já morreram, mas, graças a Deus, a maioria está bem, estudando, trabalhando, todos formados aqui”.



Muro do cemitério, no final da rua Carlos Chagas.
Alessandra se emociona porque sabe das dificuldades que a região conhecida como Caensa sempre teve ao longo de seu crescimento histórico. E, principalmente, pelo preconceito que cerca o lugar até hoje. “Sempre morei por aqui, até depois de casar. Lembro que quando era criança as ruas eram todas de terra por aqui, tudo barranco. Virou pejorativo a localização do Caensa porque fica logo após os muros do fundo do cemitério. Acabou virando ‘bairro do Fundão’, porque de certa forma, a cidade praticamente terminava ali”.

E é exatamente por causa deste apelido pejorativo dado àqueles que moravam próximo ao Caensa, a comunidade do “Fundão”, que surgiu o atual parceiro do Cidade Escola na região: Move Dance Brasil.


Os irmãos Rafael (esquerda) e Lucas, entregando doações.
É uma incrível história de superação de uma família, em especial, de dois irmãos, Rafael e Lucas. Histórias que passam pela desestruturação de famílias, de espaços da cidade não ocupados por aparelhos sociais, culturais ou de lazer. Como se viu, até aqui, desde seu surgimento como bairro, Aparecida (especialmente a futura região do Caensa), sempre esteve à margem de políticas sociais, e o crescimento rápido da região, nos últimos 20 anos, acabou gerando problemas que hoje a Prefeitura e o Cidade Escola, procuram ajudar a resolver.





O 1º grupo de dança de Rafael e amigos, "Dark Angels"
Rafael Rodrigues tem, hoje, 32 anos. Lucas Rodrigues, 25. Apaixonados pela dança de rua, Rafael, com apenas 14 anos, e amigos, montaram o primeiro grupo de dança, Dark Angels. “Quando começamos, o grupo tinha 9 pessoas (Tiago Reis, Sérgio Aparecido, Reinaldo Vieira Nenê, Éder, Petrochelys, Altyelis, Lucas Rodrigues, Rafael Rodrigues e Regiane). Dançávamos dança de rua, hip-hop, break dancing, dança urbana, não tinha nada a ver com os outros grupos que existiam na cidade que dançavam mais o axé. A gente nasceu e foi criado, aqui, no bairro Aparecida, e os meninos que dançavam com a gente moravam no ‘Fundão do Cemitério’, um lugar que tinha fama de ser um dos mais perigosos de Alfenas. Nosso ‘refúgio’ era a dança, para não entrar nesse mundo de drogas, violência, com tudo de errado que acontecia ali”.


Rafael e amigos, em reportagem da Rede Globo.
E justamente por ver tudo de errado na própria comunidade foi que Rafael e seu grupo de dança acabaram se envolvendo com o trabalho social desenvolvido até hoje. “Começamos a fazer o ‘Natal Feliz’, no Sesi. Eles perceberam que era uma necessidade, não só do bairro, mas da cidade inteira. O evento era uma vez por ano, só que arrecadávamos doações o ano inteiro. A Rede Globo veio filmar ‘nós’, na época, por causa das toneladas de alimentos que eram arrecadadas por um grupo de jovens entre 14 e 15 anos. Íamos para os bairros, não tínhamos carro, nada, íamos de bicicleta, carrinho de pedreiro, a pé, mochila nas costas, com um crachazinho no peito que o Sesi dava para ‘nós’. Voltávamos para o Sesi lotado de alimentos. Todo mundo ajudava porque as pessoas viam que éramos crianças, pobres, simples, pedindo para ajudar outras pessoas”.


E nunca mais pararam de dançar e ajudar os mais necessitados da comunidade. E de dançar também. O grupo de dança aumentando cada vez mais, com 30, 40 jovens, de várias idades e nomes diferentes. “Foi Dark Angels, Companhia de dança Scorpions, depois juntamos com a Rosana Moterani (Companhia Mineira de Balé, a maior do sul de Minas), que fazia balé, e nós ajudávamos com a dança de rua. Antigamente, quem gostava de dança de rua não eram os burguesinhos, eram os ‘malucos’, pobres, que gostavam de hip-hop. Íamos para os bairros pobres, nas escolas, dançar com as crianças. A gente dançava no aniversário da cidade, em festivais em diversas cidades, mas o que mais gostávamos mesmo era estar com o povão”.



Paulo Roberto e sua oficina de carpintaria  
Até que Rafael completou 19 anos e a sua vida e a de toda a família mudou radicalmente. Seu pai, Paulo Roberto, um dos moradores mais antigos do bairro Aparecida, carpinteiro há 40 anos, tinha problemas graves com álcool, e as brigas em casa, com a esposa, estavam destruindo a família. Rafael não suportava mais ver tudo aquilo acontecer. Foi quando aceitou um convite de sua mãe, para algo que jamais havia feito ou pensado fazer na vida. “Pelos problemas aqui de casa, um dia, meu pai brigou com minha mãe, e ela pediu para irmos à missa, não estava aguentando mais. E fomos na missa, família e os amigos do grupo de dança. Eu não tinha primeira comunhão, nada com igreja, nem gostava de padres. Na época, usávamos calça jeans rasgada, corrente, bem punk mesmo”.


Apresentação do grupo de dança Dark Angels
E o segundo convite inusitado, desta vez, feito pelo padre que celebrava a missa, mudaria de vez a vida de Rafael e sua família. “Ele se virou e falou: ‘vocês, que estão aí atrás (ele sabia que a gente dançava e todo mundo na cidade sabia que éramos meio loucos), vocês que dançam pro mundo, se forem homens de verdade, venham aqui e dancem para Deus’. A igreja estava lotada, um olhou para o outro e disse: ‘Vamos quebrar esse padre’. Minha mãe disse: ‘vai, vai, Deus te chama’. E fomos. Acostumados com músicas agitadas, batidas, pá, pum, pá, pum, da dança de rua, e, ali, aquela calmaria. Mas, quando vi, o povo todo da igreja dançando com a gente, aquilo mexeu comigo. Vivíamos em festas, mulheres, festivais de dança, casa lotada de troféus, éramos famosíssimos na cidade, mas eu não era feliz, família destruída, e o povo feliz com aquela besteirinha da dança que fizemos na igreja. Foi neste dia que senti a presença de Deus muito forte. Senti que Deus me tocou”.


Rafael e amigos da Aliança da Misericórdia, em São Paulo.
Uma semana depois Rafael e seu grupo já estavam dando aulas de dança, lotando o salão paroquial da igreja Nossa Senhora Aparecida. E, novamente, um novo encontro seria definitivo para transformar sua vida. “Aconteceu um encontro da Thalita Kum (TK), que é da Aliança da Misericórdia (Evangelização do Movimento Aliança de Misericórdia feita por jovens para os jovens). Vieram de São Paulo, uma experiência muito forte. É uma comunidade, uma organização não governamental, uma Ong, com trabalho social, uma corrente da igreja católica, mas completamente diferente, um dom que Deus deu aos padres. Eles vieram da Itália, eram muito ricos, e queriam ajudar os mendigos, só que a congregação deles não deixou. Fugiram, pularam o muro, e foram para as ruas de São Paulo, dormiam na rua com os mendigos, até que uma mulher doou uma casinha para eles. E foi assim que começaram o trabalho deles”.


Rafael em musical produzido
na sede da comunidade, em Taipas, São Paulo.
Rafael foi para São Paulo conhecer o projeto TK, no bairro Parada de Taipas, em uma montanha, onde os missionários mantinham um abrigo e entregavam a vida para ajudar ao próximo. “Trabalhavam dentro da favela, vimos as crianças que eles ajudavam, construíam casas para elas, davam alimentos. Um mês depois minha família inteira também foi. Fomos dormir nas ruas, Vale do Anhangabaú, com as crianças, na Cracolândia, Favela do Moinho. Logo na primeira noite, andando pelas ruas, tocando violão, cantando para aquele povo desassistido. No final, levávamos um monte de gente para o nosso abrigo. Fiquei doido com tudo isso e disse para mim mesmo: ‘vou ficar aqui’.


Rafael e o grupo missionário, na Praça da Sé, em São Paulo.
Rafael chegou a voltar para Alfenas e terminar os estudos, mas quase dois anos depois, ele e toda a família mudaram-se definitivamente para a comunidade religiosa. O pai passou a construir as casas de madeira na comunidade, a mãe, em diversos serviços. “Ficamos lá quase 7 anos, dedicados a Deus, não recebíamos nada, trabalho totalmente voluntário. Se chegasse comida, a gente comia, se chegasse roupa, a gente vestia, mas se não tivéssemos nada disso, ficávamos sem. O padre de lá era assim. Tinha 2 sandálias, 3 camisetas, 2 calças, só isso, desapego total”.





Rafael e amigos do grupo missionário
Outro fator que fez Rafael se apaixonar ainda mais pelo trabalho dos missionários era a desvinculação dos padres com a questão religiosa. “A comunidade recebia pastores da igreja evangélica, batista, faziam cultos lá, apesar de serem ligados à igreja católica. Não havia a questão religiosa, os padres queriam tirar as crianças das ruas. Dormíamos sexta, sábado e domingo nas ruas, sem nenhum real no bolso, só com a roupa do corpo”.







Rafael em apresentação da Cristoteca,
na Canção Nova, em Cachoeira Paulista.
E foi exatamente por não haver vínculo religioso que Rafael não abandonou sua paixão pela dança durante este período de vida. “Não deixei a dança neste período. Criamos a ‘Cristoteca’, que ficava no bairro do Brás. Toda sexta-feira, uma balada, sem bebidas. Foi aí que ‘estouramos’, no lado Gospel, Brasil inteiro. Não existia dança de rua, dentro da igreja. Eram 2, 3 mil jovens por sexta-feira. Viajamos o Brasil inteiro, várias capitais, cidades. A gente ia, dava um curso, não ganhávamos nada, só o dinheiro de passagem, alimentação, transporte”.







Rafael, Lucas e amigos missionários, em São Paulo.
Rafael e sua família viraram referência dentro da comunidade. Entre 150 missionários, eram os únicos, em família, numa congregação religiosa. Viram a história de suas vidas ser levada para vários cantos do país, do mundo, pois a comunidade implantava seu trabalho em diversos lugares. A história de vida conturbada de uma família inteira e sua recuperação tocava o coração das pessoas que enxergavam nela a possibilidade de uma mudança em meio ao caos.









Rafael em apresentação com missionários de São Paulo
Mas, com o tempo, eles foram se cansando, fisicamente. E Rafael, descobrindo que já era tempo de começar uma nova vida. “A gente não dormia, mesmo, madrugadas inteiras cuidando de senhores, senhoras, crianças, dependentes químicos, com problemas de saúde, nas ruas. Não foi só o cansaço físico, quando fui para lá, estava com a família destruída, não sabia o que era uma família. Comecei a pensar em ter a minha, casar, ter filhos”.








Rafael e Lucas
entregando doações
E foi o que fez. Há três anos, voltou em definitivo para Alfenas. No início, amigos, familiares, vizinhos, achavam que haviam “enlouquecido”, mas com o passar dos dias, viram que uma mudança real havia acontecido. 

Eram uma nova família. Com a vida de missionários deixada para trás, tiveram de recomeçar a trabalhar para sobreviver. 

Rafael voltou a trabalhar com o pai, na carpintaria, fazendo telhados. Reformaram a casa em que viviam, subiram novos pavimentos para poder abrigar a nova família que Rafael começou a formar, com mulher e um filho já nascido.









Não demorou muito para que a dança voltasse a falar mais alto em sua vida. “O pessoal começou a pedir para gente voltar a dançar. E fomos para as academias da cidade, já como Move Dance. Ninguém conhecia. Meu irmão que criou esse nome, porque é movimento, e a gente não sabe ficar parado. Mas o nome não ‘pegou’, éramos conhecidos como Lucas e Rafael da Haltere-se, uma academia da cidade. Só que de repente, nossas aulas passaram a ter muita gente. E começamos a ser chamados para várias academias da cidade”.






Vários integrantes do grupo Move Dance Brasil
E o Move Dance se fixou, definitivamente, explodindo na cidade, desta vez com o funk, o ritmo da moda com os jovens. E decolou quando passaram a fazer vídeos da companhia de dança Move Dance Brasil em um canal próprio do Youtube. “A gente dançava, gravava e colocava lá, do celular mesmo, só que aí começou a ter 20, 30 mil visualizações, gente de outros estados pedindo para irmos ao Paraná, Rio de Janeiro, dizendo que tínhamos de ir para lá nos apresentar. Ficamos loucos. Ninguém nos conhecia e da noite para o dia ficamos conhecidos no Brasil inteiro. Viramos um dos canais de dança mais conhecidos do Brasil. Ganhamos a placa de prata do Youtube. De toda Minas Gerais, fomos o primeiro a ganhar essa premiação, 100 mil inscritos em tempo recorde. Em 3 anos, já temos 400 mil inscritos”.


Ao contrário do que se poderia pensar, o sucesso não subiu à cabeça de Rafael e seu grupo de dança. Rafael continua com o trabalho de doações, interrompido por sete anos, quando foi ser missionário em São Paulo com a família. E esse trabalho social só cresceu. “Nós gostamos de ajudar as pessoas. Antigamente, a gente pedia de porta em porta, só que desde nosso retorno, com tanta gente na companhia, todos começaram a bater na nossa porta. Nenhuma doação para aqui em casa, chegou, a gente leva e entrega para quem precisa. Documentamos tudo, fazemos fotos, vídeos, dizendo quem doou, quem recebeu”.


E Rafael não se arrepende da experiência vivida como missionário. “Olhando para o que fiz, e o que faço agora, são momentos diferentes. Voltaria a fazer tudo novamente, só que lá, não havia preocupação com nada, dinheiro, bens materiais, hoje, a gente tem que correr atrás para sobreviver. Tudo que aprendi, lá, tento aplicar, agora. A gente não só doa as coisas para as pessoas, a gente convive com quem está recebendo algo que foi doado. 





Fazemos mutirões, ajudamos o bairro inteiro, hoje, por exemplo, levamos 15 cestas básicas, 300 kits de pipa, bet, bola, muitas crianças são beneficiadas. 

Mas, tem fins de semana que a gente vai na casa de uma criança, apenas. Minha mãe faz o bolo, levamos lá, brincamos com ela, convivemos, damos um abraço. 

A gente gosta de qualidade, não importa se é muito ou pouca gente. Cansei de ouvir crianças dizendo que nunca tiveram momentos como esse que a gente propicia a elas. 

Tem que dar calor humano. Não adianta apenas doar. Quando doamos pipas, ficamos juntos, soltamos pipas juntos, brincamos, nos divertimos juntos”.





Regiane "Samambaia", a primeira mulher
a participar do Move Dance.
O exemplo de Regiane Alves, 27 anos, se encaixa perfeitamente dentro do trabalho que Rafael e Lucas fazem durante todos esses anos de história e evolução do Move Dance. 

Ela dança desde os seis anos de idade e aos 10 conheceu os irmãos Rafael e Lucas, ou seja, está há 17 anos com eles, dançando e ajudando na arrecadação e distribuição das doações. 

De família pobre, chegou a passar fome e foi uma das que receberam doações da dupla solidária. 

E mais do que isso, passou a ser a primeira mulher a dançar com eles, há 17 anos, quando ainda eram chamados de Dark Angels.








Rafael, Samambaia e Lucas
Regiane virou “Samambaia”, por conta dos cabelos caídos, esvoaçantes, e também pela energia que demonstra nas apresentações que faz ao lado da dupla. Agarrou como pôde a oportunidade de permanecer dançando com os irmãos Rafael, Lucas e com dezenas de outros meninos e meninas que atualmente fazem parte do Move Dance. Agora, já dá aulas de dança, juntamente com Rafael e Lucas em uma academia da cidade. “Muitas crianças chegam e me dizem: ‘eu te amo’, não tem dinheiro que compre isso. Dança para mim é tudo, entrego minha alma quando estou dançando”, afirma emocionada Regiane. 


É exatamente isso que Rafael e sua Move Dance Brasil vem fazendo desde que começou a parceria nas atividades com o Cidade Escola: integrando, dando chances para que novos talentos apareçam, fazendo tudo com a alma, quebrando preconceitos e gerando opções de lazer e cultura para a comunidade.





Logo no evento de inauguração da nova sede da parceria, centenas de pessoas, de várias idades lotaram a rua João Pinheiro para dançar e se divertir. 

E não parou por aí. As ruas ficam lotadas todas as sextas-feiras. Em parceria com a área de saúde, na frente do PSF Caensa, ocorre um grande evento com brincadeiras, teatro, capoeira, pintura de rostos, check-up com equipe da secretaria de saúde, e, claro, muita dança, com a Move Dance Brasil.


Rafael tem uma resposta bem mineira para explicar tudo o que vem acontecendo em sua vida e a parceria com o Cidade Escola. 

Onde vai parar tudo isso? 

“Sei lá, deixa o ‘trem’ andar”.